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PRESIDENTE DA SEDES CRITICA UGT E PS POR ACORDO FALHADO NA CONCERTAÇÃO: "ESTÃO A GOZAR COM QUEM TRABALHA"

Renascença Online

2026-05-09 21:01:36

Álvaro Beleza elogia a escolha de Adalberto Campos Fernandes para coordenar o Pacto Estratégico para a Saúde e afasta-se do pedido do PS para a demissão da ministra Ana Paula Martins, de quem é amigo. “Se eu estivesse lá não o tinha pedido”, admite o médico e dirigente socialista. Álvaro Beleza: UGT e PS "estão a gozar com quem trabalha" Álvaro Beleza, presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), lamenta o falhanço da concertação social para alterar o Código do Trabalho, elogia os esforços da CIP na reta final das negociações e deixa críticas à UGT e ao PS. “Infelizmente, uma parte do PS e até da UGT foram contaminadas pelo vírus neomarxista da geringonça”, lamenta o dirigente socialista. Em entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, o presidente da SEDES critica a recente decisão do ministro das Finanças em criar uma taxa sobre os lucros extraordinários das empresas de energia. “Já temos impostos e taxas extraordinárias para tudo e mais alguma coisa”, defende Álvaro Beleza, que critica ainda a proposta do PS de se adotar o IVA zero nos bens alimentares para fazer face ao custo de vida. Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui No dia em que passam dois meses após a tomada de posse do Presidente da República, Álvaro Beleza, amigo pessoal de António José Seguro, diz que o chefe de Estado não tem de agradar nem à esquerda nem à direita e que “agrada à consciência dele” próprio, “segue os seus princípios” e reconhece que “vai” ter críticas. “Tenho a certeza de que ele dorme muito tranquilo”, assegura o dirigente do PS. Neste programa, o presidente da SEDES escolhe a música “Isn t she lovely” que o norte-americano Stevie Wonder dedicou à sua filha. O mesmo faz Álvaro Beleza, que homenageia assim o seu único filho. Terminou sem acordo a negociação da reforma laboral. Quem é que acha que sai pior deste processo? Quem sai pior é o país. Isto é mau para o futuro do país, é mau para o crescimento dos salários, é mau para atrair os nossos jovens a ficarem em Portugal e não irem para outros países. Portugal é dos países com maior rigidez laboral, precisava de ter uma melhoria das leis laborais. Acho que é absolutamente necessária mais flexibilidade, a legislação laboral é muito rígida. O que está a dizer vem ao arrepio daquilo que o próprio PS vem defendendo. Portugal tem uma concertação social com tradição de haver acordos e entendimentos, isso é positivo, é bom para a atração de capital, de investimento, porque precisamos de atrair investimento. Nós somos um porto de abrigo em tempos de cólera e de guerra, temos uma vantagem competitiva que é da geografia, não tem a ver com o mérito de quem nos governa, tem a ver com a nossa geografia. E é uma pena não aproveitarmos tudo isso para melhorarmos aquilo que temos de melhorar. A legislação laboral, a reforma fiscal, a Justiça. Só vejo uma explicação. Foram os anos da geringonça, acho que a geringonça contaminou algum PS e alguma UGT Como é que entende este desfecho, tendo em conta que já foram assinados acordos mais difíceis no passado, o que é que acha que falhou? Quando as coisas falham, falharam todos, não é? Mas o que me parece aqui é que a UGT, desde a sua criação, acho que não percebe uma coisa. Primeiro, a UGT tem utilidade para o país por ser diferente da CGTP, por ser a central que negoceia e que vai negociando a pensar no futuro, sem medo do futuro e que pensa no país antes de pensar só nos interesses dos trabalhadores. Aliás, basta ver o que aconteceu no dia 1 de maio, a UGT, se quer ser como a CGTP, não tem comparação, porque na festa da UGT estavam lá 100 pessoas e nós nas conferências da SEDES até temos mais às vezes, e a CGTP teve milhares de pessoas, portanto se a UGT quer fazer de CGTP, a cópia é sempre pior que a original, portanto não é esse, acho eu, o papel da UGT. E, portanto, tenho pena. Só vejo uma explicação para isto. Foram os anos da geringonça, acho que a geringonça contaminou algum PS e alguma UGT. E eu estou muito à vontade, porque desde que entrei no PS com o Francisco Assis apresentámos uma moção no Congresso do PS em 1990 a falar do que era o social-liberalismo. Isto é, que a esquerda devia ser mais liberal na economia, mais liberal nos costumes, para ser social, para ter um Estado social que garanta saúde universal e gratuita para todos, educação universal e gratuita para todos. Eu tenho que ter uma economia pujante. Até o Deng Xiaoping percebeu que para ter economia pujante tem de ser com economia de mercado, propriedade privada e um sistema capitalista. E se não fosse assim, não tinham saído da miséria 500 milhões de chineses, 500 milhões de indianos. Parece que alguma esquerda, nomeadamente em Portugal, não percebeu. O PS inclusive? Sim. Há 20 anos a Flexisegurança foi introduzida na Dinamarca por um partido trabalhista, social-democrata, da esquerda europeia. Com a cedência da CIP à última hora, achei que iria haver acordo, porque eu sou um otimista e quero sempre crer na possibilidade de entendimentos. Aliás, isto tem a ver com a eleição do atual Presidente da República, que falou nisso. Ainda não perceberam que nós temos de sair das trincheiras e temos que ter cultura de entendimento, de acordos. Isto não está para brincar. O mundo está a viver guerras, instabilidade. Acho que ainda não perceberam que se estão aqui a discutir coisas que foram feitas a pensar nos anos 70, na indústria dos anos 70. O mundo mudou, vem aí um tsunami, que é a inteligência artificial. É que se a gente brincar com isto, daqui a uns tempos não há lei laboral para pessoas. Vai ter de se fazer para robôs, porque o Japão já está a fazer isso, outros países já estão a fazer. Já há países que introduzem fiscalidade para o trabalho feito por máquinas As tecnológicas americanas estão a despedir engenheiros informáticos, isto não é para brincar. As tecnológicas americanas vão investir em inteligência artificial, no próximo ano, mais do que o PIB europeu. Estamos a avançar a uma velocidade estonteante e andamos aqui a pensar manter regras de há 30 anos. Sinceramente, não augura muito bom. Vamos ter agora uma nova fase. Que proposta é que espera que o Governo leve ao Parlamento? Eu sou de esquerda, bem sei que é da esquerda liberal e muito minoritária, mas sou de esquerda e preocupo-me com os trabalhadores e com os salários que são baixíssimos em Portugal. Está demonstrado até à exaustão que os países que têm mais flexibilidade laboral têm melhores salários, beneficia mais as pessoas que trabalham e nomeadamente os mais jovens. Se nós tivermos muita rigidez as empresas vão-se embora. Ou muitas que vinham para cá já não vêm. E, portanto, se acham que isso é bom, não percebem que nós temos de ter tudo para atrair, para virem para cá. As centrais sindicais correm o risco, nomeadamente a UGT, de aquilo que for aprovado no Parlamento é pior do que a cedência que a CIP fez. Acha que a proposta que o Governo vai entregar devia incluir alterações sugeridas pelos parceiros, apesar de não ter havido acordo? Era melhor que fosse a proposta do último momento da reunião da concertação social. Porque acho que era mais consensual. Acho que, infelizmente, uma parte do PS e até da UGT foram contaminadas pelo vírus neomarxista da geringonça. Mas também acho que este Governo foi contaminado por um vírus populista do Chega, muito mau para a economia do país, que tem a ver com os imigrantes, com a imigração. Essa ideia de fechar portas é um disparate e do ponto de vista económico estúpida. Não é inteligente não chegar a entendimento e corre-se o risco de ser aprovada uma legislação laboral ainda mais liberal do que aquela que a confederação patronal tinha cedido. Está demonstrado até à exaustão que os países que têm mais flexibilidade laboral têm melhores salários O que acha desta condição que o Chega coloca de redução da idade da reforma? Isto é uma ideia à francesa e da França vêm bons croissants, cultura. Adoro a França e lá fazer férias em França, mas politicamente e economicamente não é grande. Nós estamos, graças muito também à medicina, a viver cada vez mais anos e melhor. Temos um Papa jovem, tem 70 anos. Temos um Presidente dos Estados Unidos, bem sabemos que é um bocado louco, mas tem 80 anos, praticamente. O Presidente da Rússia tem 70 anos a caminho dos 80. O chinês, também, a caminho dos 80. Temos CEOs de grandes empresas com mais de 70 anos. Nós não podemos trabalhar depois dos 65 ou 70 noutras funções, não em liderança, mas noutras tarefas, porquê? Temos de ir todos para o banco de Jardim da Alameda [em Lisboa] jogar as cartas ou para o lar? Mantermo-nos ativos em termos cerebrais também nos mantém vivos. E, portanto, temos é que ter flexibilidade para, voluntariamente, se eu quiser, depois da minha idade de reforma, poder fazer outras coisas. Quando nos reformamos aos 66, em média vamos rapidamente viver até aos 90 e tal anos. Os nossos filhos vão viver em média talvez até aos 90, 100 anos. Muitos de vocês vão viver até aos 110, 120. Então, e agora vamos ficar 30 anos no banco de Jardim? A ideia do Chega é um disparate completo, do ponto de vista moral e económico não faz qualquer sentido. Acho que o Chega já bateu no teto, até os jovens já começam a não acreditar. O PS não tem aqui papel nenhum nesta negociação? Não espera que José Luís Carneiro se chegue à frente, apesar de tudo o que vem dizendo nestes últimos meses? José Luís Carneiro é um moderado, mas é líder de um partido que é plural. Tem alguns que pensam como eu, que são poucos, mas tem muitos que ainda acham que o socialismo é que vai resolver tudo. E José Luís Carneiro está capturado por esse PS? Não é capturado, ele tem de saber gerir as várias sensibilidades. A gente tem que, às vezes, brincar com as coisas para não se incomodar muito, porque isto é triste mesmo. Álvaro Beleza entrevistado no programa Dúvidas Públicas. Foto: Gonçalo Costa/Renascença O PS deveria ter uma posição de maior abertura para a negociação da reforma laboral? O José Luís é um homem moderado e tem tido. Mas o PS tem ali um problema que eu até compreendo. Há uns jovens que não viveram o 25 de Abril, não viveram o 75, não viveram uma tentativa de uma ditadura comunista em Portugal, não viveram a possibilidade de isto ser uma Cuba, como se vê Cuba deu um grande resultado, a Coreia do Norte também deu outro grande resultado. Não há nenhum país em que o socialismo puro e duro de comunismo tenha dado bom resultado. Isso é uma evidência, é um facto. E é essa corrente que, neste momento, domina o PS? O PS ou se assume como um partido a pensar o futuro, que tem o melhor do liberalismo político e económico e o melhor do socialismo ou não auguro muito de bom porque os jovens hoje, como se percebe, são mais liberais nos costumes e na economia, mas também são da sustentabilidade, do ambiente. O PS tem uma história de fazer coisas muito boas para o país. O SNS, a ecologia, as energias renováveis, a Educação. Hoje temos gerações muito qualificadas e isso deve-se muito a uma aposta do PS. O que é que a social-democracia fez no Norte da Europa? Conciliou o melhor do capitalismo com o melhor do socialismo e foram os países do Norte da Europa e alguns partidos social-democratas que liberalizaram as leis laborais. Acha que o Presidente da República vai manter a palavra que deu em campanha eleitoral ao avisar que se a proposta da reforma laboral não for consensualizada em concertação social o mais certo é vetá-la? Acho que a característica deste Presidente da República e que já todos perceberam é que ele mantém a palavra, é um homem de palavra. É isso que vai acontecer? É um homem de palavra e vai cumprir a palavra que deu e, portanto, isso é natural. Agora, o problema é que os poderes do Presidente também são limitados, as leis podem ser vetadas, voltar outra vez ao Parlamento e serem confirmadas. Portanto, há algumas questões que exigem uma maioria qualificada, mas não é o caso. Claro que o Presidente da República não pode fazer tudo, faz aquilo que é das suas convicções. Agora, há uma coisa que ele disse e está na natureza dele porque tem a ver com ele próprio. Temos de deixar de ser um país de trincheiras e chegar a entendimentos. Temos um governo que é minoritário. Acha que vai fazer grandes mudanças no país? Só se for a brincar. Na Europa, às vezes demora-se muito tempo a fazer governos, mas fazem-se governos de coligação, governos de acordos maioritários. E acha que o Presidente da República vai apelar aos partidos para um diálogo? Acho que vai e acho que é isso que tem feito, mesmo nesta questão das negociações da concertação social. Mas se o Presidente da República prometeu em campanha que veta uma reforma laboral que não tem o acordo da concertação social, à partida está condenado tudo o que vier do Parlamento? Vamos lá ver, está a dizer que é sempre bom haver um acordo na concertação social, para isso é que ela existe, do que não haver. Acho que isso é tão óbvio, acho que ele tem toda a razão, que os portugueses, na sua esmagadora maioria concordam com ele. Acho que é mau, muito mau, para o país não haver acordo, acho que a UGT precipitou-se, não está a pensar nas consequências. A UGT ainda não confirmou se adere à greve geral marcada para 3 de junho. Acha que deve ser coerente com aquilo que decidiu em concertação social, aderir ao protesto e espera um grande protesto? Nós estamos com uma guerra no Golfo, estamos com o petróleo a aumentar, acha que estamos em altura para fazer greves gerais e para romper negociações? Isto faz lembrar o programa daquele humorista famoso, parece que é gozar com quem trabalha. Acho que é preciso juízo, bom senso e entendimentos. Não estamos em altura para não ter entendimentos e quando se fala em entendimentos todos têm de ceder, é evidente. Tenho aqui de saudar a CIP pelo esforço que fez para ceder e cedeu em muito. Foi criticada por muita gente por desvirtuar a reforma do governo, mas o bom é inimigo do ótimo. A política é isso mesmo, é a arte do possível. A nível internacional, com o impacto da subida do preço do petróleo, o ministro das Finanças já confirmou que vai avançar com a taxa sobre os lucros extraordinários das empresas de energia. O que é que acha? Discordo. Nós já temos impostos e taxas extraordinárias para tudo e mais alguma coisa Nós precisamos é de uma verdadeira reforma fiscal. Não é o IRS jovem, isso foi outro disparate que o FMI já veio dizer que o governo devia reverter. Nós precisamos de uma verdadeira reforma fiscal, que simplifique essa fiscalidade. Temos benefícios fiscais a mais, temos mais de 500, é um disparate. Temos escalões do IRS a mais, é preciso simplificar. Mais transparência, mais simples e depois isso vai permitir baixar a carga fiscal toda e harmonizar a fiscalidade. O IVA zero é outro disparate, o IRS é muito alto, tem escalões a mais, a SEDES propõe 5 escalões. A SEDES até propõe que todos devem pagar IRS, nem que seja 1 euro, não há isenções fiscais, porque isso é uma questão de cidadania, todos nós devemos pagar impostos, é uma questão simbólica. A economia paralela em Portugal é de 30%, porque a fiscalidade é tão exagerada que depois há fuga. Impostos extraordinários para empresas quando têm lucros maiores, não. Sempre defendi a diminuição do IRC, porque acho que nós temos que atrair capital, não temos escala, não temos grandes empresas. Precisamos de ter duas ou três Autoeuropas e para isso devíamos ter um IRC mais baixo. E o que é que pensa dos apoios extraordinários que têm sido dados para apoiar a fatura energética? Isso sim, apoiar quem precisa. Mas acha que foram equitativos? Tem de se ceder àqueles que realmente precisam, que são os mais pobres, não é dar a todos. Eu acho que nós temos que apoiar as famílias que mais precisam, com a energia na conta da luz, no gás, nas botijas, naquilo que as pessoas mais frágeis precisam e direcionar esses apoios. Mas atenção, porque tem de se ter aqui prudência, porque isto ainda está a começar, não sabemos como é que acaba. E mesmo que termine, há analistas que já disseram que o mercado vai levar pelo menos dois anos a recuperar E temos de ter contas certas e o Governo tem que dizer a verdade sem medo dos votos, porque isto é uma situação muito difícil. O que é que o Governo não está a dizer? Não deve ter medo de tomar medidas que sejam as medidas corretas e tem de fazer exatamente ao contrário do Chega, que propõe baixar a idade da reforma. A região centro levou com um ciclone, temos que gastar muito dinheiro na recuperação e ajudar essas pessoas e famílias. Esta crise do petróleo já nos está a fazer gastar muito dinheiro, mas eu ia pelas medidas fiscais. Baixar a carga fiscal nos combustíveis e já agora, ajudar as famílias. Por que não ajudar as famílias a ter em cada telhado português painéis solares com baterias? E o PTRR podia, por exemplo, apoiar esse programa de painéis solares? Quem é que tem painéis solares e poupa energia? Os mais ricos, os que têm vivendas e moradias em Cascais, esses poupam. Então, e as pessoas nos bairros das grandes cidades no país todo, os mais pobres que não têm dinheiro para comprar painéis solares? Isso é que era uma poupança, porque isso é aquele velho ditado chinês, em vez de dar o peixe é dar a cana para pescar . Deviam ser uma das medidas deste PTRR? É de sustentabilidade e é socialmente justa, porque isso faz poupar a fatura da energia no fim do mês e faz-nos ter autonomia energética. Como é que vê este PTRR que foi anunciado? A SEDES tinha pedido que o Governo aproveitasse esta oportunidade para uma verdadeira reforma do país, acha que foi conseguido? São algumas medidas positivas, mas, infelizmente, não estamos a aproveitar para fazer o que é preciso fazer. Não vamos ter uma reforma laboral que nos ponha ao nível da média europeia, não vamos ter tão cedo uma reforma fiscal à séria. O Presidente da República nomeou, recentemente, Alberto Campos Fernandes para coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde. É uma decisão que tem sido criticada por camaradas seus, por exemplo, o constitucionalista Vital Moreira que considera que António José Seguro extrapolou os seus poderes. É uma forma de pressão ao Governo? Primeiro, é cumprir uma promessa e palavra dada, que já o tinha dito em campanha. Segundo, escolheu a pessoa certa para o fazer porque é dos mais qualificados. Sou suspeito, sou amigo dele, temos a mesma idade e é dos mais qualificados em Portugal, está empenhado e a ideia é boa. O Presidente da República tem de ser precisamente um fator de união e, portanto, tentar entendimentos, seja na Saúde seja noutras áreas. Não criou aqui uma ideia de que foi nomeado um ministro-sombra da Presidência da República para a Saúde? Não, ele não é ministro-sombra, é alguém muito capaz que vai tentar encontrar pontos de entendimento e até, vamos lá ver baseados em assuntos técnicos e não ideológicos. Temos diferenças entre esquerda e direita sobre conceções de Saúde, mas temos um sistema de saúde com público, privado e social. O que nós temos de ter é todo o sistema a servir as pessoas, para que nós não tenhamos tanta lista de espera, para que tenhamos atendimentos a tempo e horas, para que as coisas funcionem melhor. Não tenho nenhuma dúvida que este caminho que o Adalberto está a fazer vai levar a alguns entendimentos. Como tudo na vida não serão todos os que se pretendem, mas serão alguns e basta serem alguns que já é bom. Ele foi o ministro que criou os tempos limite de espera no sistema de saúde. É preciso arranjar aqui um sistema que permita melhorar essa questão das listas de espera, que as pessoas quando não são operadas a tempo e horas no SNS o possam ser nos hospitais privados e, portanto, arranjar aqui um sistema de comunicação entre as várias áreas da saúde pública, privada e social. Acho que isso vai ser possível. E acho que vai ser possível porque tinha de ter alguém como o Adalberto, que foi ministro, é administrador hospitalar, é médico, trata por tu toda a gente na área da Saúde. Portanto, tem todas as condições, acho que foi muito bem escolhido. O PS já pediu a demissão da ministra da Saúde. Acha que vai haver abertura do secretário-geral José Luís Carneiro para consensualizar as matérias da Saúde com o Governo? De facto, não é fácil, mas eu não valorizo muito isso. Sou otimista. Só a morte é que a gente não consegue ultrapassar. E como é que vê a evolução em matéria governativa na área da Saúde? É das áreas mais difíceis e mais difíceis em Portugal. A primeira reforma na Saúde é levá-la para a Praça de Londres, como a SEDES fez. Devíamos voltar ao velho Ministério dos Assuntos Sociais, que a pandemia demonstrou. Isto é, tratar no mesmo Ministério desde que se nasce até que se morre. E, portanto, a área dos lares, dos cuidados continuados, toda essa área social devia estar junta com a saúde. Os lares são cuidados continuados. E, portanto, têm de estar ligados ao centro de saúde, aos cuidados primários, ao hospital. Esta ministra é a pessoa certa para levar estas alterações para a frente? Eu sou suspeito, tenho um problema. Sou amigo dela, eu gosto dela e, portanto, acho que ela faz o que pode. Os ministros da Saúde em Portugal são um saco de pancada. Todos foram. E é o caso. Foto: Gonçalo Costa/Renascença Mas também não é normal o PS pedir tão descaradamente a demissão de um ministro de uma pasta destas Quer a minha opinião? Se eu concordo? Não. Se eu estivesse lá não o tinha pedido. Mas não estou e, portanto, limito-me a estar na comissão política [do PS] enquanto me convidam para lá estar, enquanto tiverem paciência para me aturar. Mas sou livre e sem amarras e, portanto, digo o que penso e não vou deixar de pensar. Qualquer ministro da Saúde de qualquer governo precisa de ajuda porque a Saúde lida com a vida e com a morte. E, portanto, é um assunto que preocupa as pessoas. Claro que um governo de direita do PSD é mais liberal, pode ter uma visão mais dos privados. Por exemplo, as PPPs na gestão dos hospitais funcionaram bem. Acha que tem faltado apoio do Governo à ministra? Não, acho que não. Mas acho que é uma tarefa difícil. Acho que nem tudo tem corrido bem. Acho que o país precisava de algumas reformas na área da saúde. Eu já falei várias. Por exemplo, a questão do INEM, dos bombeiros. Esta semana foi aprovado um diploma importante sobre o regime dos médicos tarefeiros. O que é que acha deste diploma? Acho que é razoável. Acho que há aqui um problema com os tarefeiros. Os jovens não querem entrar nas especialidades, preferem ser tarefeiros. Isto é um problema grave. Agora foram dadas condições para que os tarefeiros fiquem mais ligados ao hospital e possam no futuro entrar numa carreira e numa especialidade. Foi um bom passo que se deu com este regime? É preciso fazer aqui reformas. Primeira reforma era juntar a área social à área da saúde. Depois, outra reforma importante é, por exemplo, no caso da emergência, aproveitar a Força Aérea e fazer, como os espanhóis, em que muitas das áreas da proteção civil, dos bombeiros, do INEM, estão nos militares. E já agora ajudava a que parte do Orçamento entre no orçamento militar que Portugal tem que aumentar por causa dos compromissos que tem com a NATO e com a União Europeia. Portanto, era uma forma inteligente, era dois em um. Neste sábado cumprem-se dois meses de mandato do Presidente da República. À esquerda do PS já se lamenta, por exemplo, a promulgação da Lei da nacionalidade. Considera que houve aqui um mau sinal que foi dado por António José Seguro? Não, não têm razão. Acho que o Presidente fez aquilo que devia fazer porque o Presidente da República não é o António José Seguro apenas nas suas convicções. O Presidente tem de ser um fator de estabilidade e não de problemas. Tem sido sóbrio, tem feito aquilo que prometeu fazer. Fala pouco, mas quando fala, fala com propriedade. E neste caso houve uma maioria larga no Parlamento que aprovou uma lei que já foi melhorada aceitando algumas sugestões do Tribunal Constitucional. Acho que fez bem. O Presidente promulgou, mas fez os seus comentários. O que é que a esquerda e o PS, que é a sua área política, podem esperar deste Presidente da República? O Presidente é o Presidente de todos os portugueses, não é da esquerda nem da direita. É simples. É isso mesmo. E tem de ser. Não anda cá para agradar ao PS? Não, o Presidente agrada à consciência dele, segue os seus princípios. E depois segue uma ideia de que era preciso ter um Presidente institucional, que seja Presidente de todos os portugueses, que seja um árbitro, isento. É muito difícil? É. Vai ter críticas? Vai. Mas tenho a certeza de que ele dorme muito tranquilo. O Presidente da República disse que quando falasse haveria uma consequência sobre o que diria. Mas, por exemplo, António José Seguro pediu ao Governo um relatório sobre o que aconteceu na resposta ao temporal e o Governo até agora não apresentou relatório nenhum, nem disse que iria fazê-lo. Acha que há respeito do Governo pelo que o Presidente da República diz? Acho que há e acho que estamos no princípio, mas estes dois meses demonstraram que temos um Presidente da República que os portugueses respeitam, que representa a decência e a integridade e que segue princípios. A SEDES está empenhada em lançar a regionalização. O Presidente da República, apesar de já ter defendido o processo, na campanha avisou que se for para criar mais cargos que é contra e o Governo não quer, para já, avançar com este dossiê. Não há muita gente a querer a regionalização. Paciência. O que a SEDES faz, e eu próprio, é tentar convencer das nossas razões. Só há três países na Europa que não têm regiões administrativas. Portugal, a Irlanda e o Luxemburgo. Acho que está tudo explicado. Luxemburgo é metade de Lisboa, também é uma região. A Irlanda é uma ilha pequena, não tem. A Dinamarca, que é metade do nosso território, tem 5 regiões. Nós precisamos de escala. Precisamos de grandes empresas, maiores empresas. Mas também nas autarquias, como se viu agora no temporal de Leiria. O que faltou aqui foi escala. Como agora no Porto a decisão da Câmara do Porto e bem, dos transportes públicos gratuitos. Nós precisamos de gerir em conjunto áreas como transportes, saúde. E já agora, não é preciso mais cargos nem mais dinheiro, porque é pegar nas CCDRs que existem, que já têm imensos quadros e torná-los é eleitos. E acha crítico que a regionalização não avance nesta legislatura? Não, nós fizemos por uma razão muito simples, porque comemoraram-se 50 anos da Constituição e falta cumprir a regionalização. Está lá escrito. Aliás, acabaram-se com os governos civis e deviam-se ter feito regiões administrativas. Mas a própria Constituição blinda um pouco o processo É verdade, mas isso é um assunto para os políticos. Uma das reformas do Estado que é preciso é descentralizar o poder. Mas é esse processo que está em curso, também, ou não? Mas eu não posso descentralizar tudo do Governo central para o governo local, para as autarquias. Tem de haver um governo intermédio, como têm todos os países europeus. Não acompanha a posição do primeiro-ministro, de que primeiro é preciso estabilizar e terminar este processo de descentralização e depois numa outra fase arrancar com a regionalização? Não, não acompanho. Mas agora quero dizer que estou otimista. Ao contrário de outros tempos em que tínhamos o professor Marcelo Rebelo de Sousa, líder do PSD, com o António Guterres, primeiro-ministro em que se bloqueou a regionalização, hoje temos um primeiro-ministro que é de Espinho, é um homem do Norte e que sabe bem que é importante descentralizar. Eu acho que ele vai um dia defender a regionalização. Admito que não seja nesta legislatura, mas numa próxima ou mais tarde. Os governos serão do PSD ou do PS nos próximos 50 anos, estou absolutamente certo. Acha que o Chega não consegue formar governo? Não, pode fazer parte de uma coligação, de um governo, mas acho que o Partido liderante da direita é o PSD e o da esquerda é o PS e isso é bom para a democracia, é bom para a alternância. O líder do PS é de Baião, não esquece as suas raízes e temos um Presidente da República que também não esquece as suas raízes, que é de Penamacor, na fronteira. E, portanto, se não aproveitamos as lideranças que temos hoje, que são pessoas que não são de Lisboa nós precisamos de descentralizar o poder. A SEDES vai organizar conferências com opiniões diferentes, vamos ter discussão e gostava que, em 4 de dezembro, na última conferência, que é o dia da SEDES, em que foi fundada, possamos chegar a uma conclusão e apresentar ao país um documento, uma proposta de organização do território com a descentralização, com as regiões, que seja simples, que não gaste mais dinheiro, que não complique, que descomplique, mas que vá de encontro à necessidade das pessoas. Estamos a fazer uma coisa que já foi feita em vários países, que deu bom resultado e é o que eu às vezes digo, valha-me Deus, qual é a dúvida? . DÚVIDAS PÚBLICAS Sandra Afonso Susana Madureira Martins Gonçalo Costa (vídeo e fotografia)