QUAL CRISE DO PETRÓLEO? OS VEÍCULOS ELÉTRICOS DA CHINA ESTÃO PRONTOS PARA DOMINAR O SÉCULO XXI
2026-05-09 21:01:35

Um SUV elegante oferece massagens mecânicas nos pés, uma minivan de luxo tem bancos giratórios para ajudar os passageiros a entrar na terceira fila e uma proporção surpreendente de modelos oferece karaoke no interior do carro com altifalantes de nível profissional. Outros têm faróis que podem projetar filmes numa parede para transformar qualquer lugar num cinema drive-in. Aqui, as funcionalidades de condução inteligente são omnipresentes, mesmo em modelos acessíveis. Para muitos consumidores que observam de fora, as opções na China, que estiveram em exposição na última semana em Pequim, no maior salão automóvel do mundo, parecem um sonho. Mas para alguns fabricantes de automóveis e políticos de todo o mundo, são uma ameaça existencial. Os fabricantes de automóveis chineses estão a produzir as suas ofertas em grande escala e a um preço comparativamente baixo. E há outro grande trunfo: enquanto os custos do petróleo e do gás disparam devido à guerra com o Irão, a grande maioria destes carros é elétrica ou híbrida. O contraste com os EUA nunca foi tão gritante: Washington, no ano passado, reduziu o apoio aos veículos elétricos em favor dos veículos que consomem muita gasolina e, efetivamente, impediu os carros chineses de entrar no mercado, alegando a necessidade de proteger a segurança nacional e a indústria local. Com o presidente dos EUA, Donald Trump, previsto na China em meados de maio para conversações com o líder Xi Jinping, os fabricantes de veículos elétricos do país também estão de olho noutra fronteira, observando se a crescente procura global por veículos elétricos os ajudará a abrir as portas do mercado norte-americano. Seja como for, a mensagem pretendida por esta exposição com uma área equivalente a 70 campos de futebol foi clara: a China está a avançar incansavelmente com a tecnologia que acredita que irá conquistar o século XXI. E os principais fabricantes de automóveis da China estão a apostar forte que o resto do mundo irá escolher a sua visão de um futuro elétrico, em vez de um futuro ainda ligado à bomba de gasolina. O aumento dos preços da gasolina é “um alerta para as pessoas que nunca experimentaram um veículo elétrico”, disse a executiva da BYD, Stella Li, à CNN à margem da feira, onde discutiu a ambiciosa estratégia de expansão do maior fabricante mundial de veículos elétricos. “Quando se passa para o carro elétrico, nunca se volta atrás para mudar para o veículo a gasolina”. Expansão para o exterior Conquistar clientes no estrangeiro é agora imperativo para os principais intervenientes da China. Por uma larga margem, o país possui o maior mercado de veículos elétricos do mundo. Mais de metade dos carros novos vendidos na China são elétricos ou híbridos. Nas suas megacidades e além delas, o tráfego está a tornar-se cada vez mais silencioso, com o zumbido surdo do motor elétrico a substituir o ronronar de um motor de combustão interna. Mas os titãs da indústria também estão envolvidos numa luta acirrada e exaustiva por quota de mercado, com guerras de preços brutais e concorrência num mercado interno saturado a reduzir os lucros e a travar o crescimento. A expansão para o exterior já está a acelerar, à medida que as principais marcas se esforçam por construir infraestruturas de carregamento e atrair clientes e parceiros no estrangeiro. As exportações de veículos elétricos da China no primeiro trimestre aumentaram 78% em relação ao ano anterior, de acordo com dados oficiais. Mas os fabricantes de automóveis chineses também estão a navegar num panorama global que encara a concorrência com desconfiança. Uma carta aberta de mais de 70 legisladores americanos a Trump, na semana passada, advertiu o presidente contra “qualquer esforço para reduzir as barreiras aos automóveis chineses ou facilitar de outra forma a sua entrada no mercado dos EUA”, afirmando que as consequências para os trabalhadores americanos, as cadeias de abastecimento e a segurança nacional “seriam profundas”. As pesadas tarifas sobre os automóveis importados da China constituem um embargo de facto e a proibição de software ligado à China nos automóveis novos complica qualquer plano de produzir automóveis nos EUA ou em países vizinhos. A Europa optou por tarifas que considera niveladoras do campo de ação, não bloqueadoras da concorrência. E as fábricas de automóveis chinesas estão a ganhar rapidamente quota de mercado na região. Os registos de carros novos da BYD aumentaram quase 170% no primeiro trimestre deste ano nos países da União Europeia, mostram dados do setor. O que causa receio nos corações dos rivais estrangeiros é a enorme escala de produção na China, onde as fábricas podem contar com cadeias de abastecimento domésticas bem desenvolvidas e automatizaram as suas fábricas. Por trás dessa preocupação, está o facto de o apoio de longa data do Governo ao setor, por meio de subsídios, isenções fiscais e outras vantagens, ter tornado os carros chineses concorrentes desleais que irão eliminar a concorrência global. Mas as empresas chinesas têm uma visão diferente. Stella Li, da BYD, descreveu à CNN a sua opinião de que a força dos Estados Unidos reside na sua capacidade de atrair as empresas mais inteligentes e as pessoas mais talentosas de todo o mundo para competir. “Assim que se tornar um mercado protegido, perderá essa vantagem tornará o país mais fraco”, afirmou. Mas a BYD e outros fabricantes de automóveis chinesas, incluindo a sua principal rival doméstica, a gigante automóvel Geely, não estão a depositar grandes esperanças nos EUA. “Estamos abertos ao diálogo, mas não temos planos de entrar no mercado dos EUA para vender os nossos carros a clientes finais a curto ou médio prazo”, disse o vice-presidente sénior da Geely, Victor Yang, à CNN no salão automóvel. Fora dos EUA? Victor Yang, cuja empresa tem joint ventures em vários países, incluindo o Brasil, a Coreia do Sul e o Reino Unido, vê esta iniciativa como uma situação vantajosa para todos. “O melhor das práticas de eletrificação e digitalização da China pode ser partilhado com parceiros noutras partes do mundo, para que os clientes possam finalmente beneficiar do crescimento da tecnologia como um todo”, afirmou. Luta pelo futuro A transferência de tecnologia das empresas automóveis chinesas para as suas congéneres estrangeiras representa uma reviravolta abrupta em relação à situação de há apenas algumas décadas, quando eram os fabricantes de automóveis chineses que dependiam de joint ventures com marcas estrangeiras no seu mercado para obter know-how. Agora, tal como a Ford e a linha de montagem vieram a simbolizar a engenhosidade americana do século XX, o setor dos veículos elétricos da China e a sua produção altamente automatizada tornaram-se emblemáticos da ascensão da China como potência tecnológica no século XXI. O sucesso global dos fabricantes chineses de veículos elétricos poderá oferecer a Pequim uma nova alavanca de soft power, numa altura em que o país tenta posicionar-se como um líder global alternativo aos EUA. E o choque petrolífero global, que já dura há mais de dois meses, também sublinha o que Pequim vê como um mérito no caminho que escolheu. Pessoas a andar de scooters elétricas no trânsito de Pequim no mês passado. (Wang Zhao/AFP/Getty Images) Os veículos elétricos da China enquadram-se no esforço mais amplo e de longa data do Governo para reduzir a dependência do petróleo e do gás e eletrificar a sua economia, incluindo com energias renováveis. É uma estratégia que parece ter servido bem a segunda maior economia do mundo na atual crise. A frota de veículos elétricos e híbridos da China reduziu a procura nacional de petróleo em mais de 1 milhão de barris por dia, de acordo com um estudo de 2025 do Rhodium Group. Mas uma volta pelos corredores do Salão Automóvel de Pequim deixou claro que as marcas chinesas não encaram a sua corrida como algo que se resume simplesmente à eficiência de combustível. Em vez disso, trata-se de tecnologia. E tal como empresas norte-americanas como a Tesla e a Waymo estão a construir um futuro em que frotas de carros autónomos transportam as pessoas nos seus trajetos diários e nas suas vidas, os seus rivais chineses , fabricantes de automóveis como a XPeng, a Geely e a BYD, e empresas tecnológicas como a Baidu, a Huawei e a Pony.Ai , estão a construir os seus próprios ecossistemas tecnológicos para fazer o mesmo. E também aí as empresas chinesas estão confiantes de que podem competir. *Joyce Jiang e Martha Zhou, da CNN, contribuíram para esta reportagem. [Additional Text]: Qual crise do petróleo? Os veículos elétricos da China estão prontos para dominar o século XXI Um automóvel da marca secundária da BYD, o Fangchengbao 7, é exibido durante o Salão Automóvel de Pequim, em Pequim, a 30 de abril de 2026 CNN