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CARLOTA CAVACO - O DESAFIO DE LIDERAR A SAÚDE PRIVADA NA MADEIRA - ENTREVISTA

Saber Madeira

2026-05-08 21:06:33

Carlota Cavaco No comando de uma das unidades de saúde de referência na Região Autónoma da Madeira, Carlota Cavaco, Diretora-Geral do Hospital da Luz Funchal, é uma personalidade central na evolução dos cuidados hospitalares na Madeira. Conhecida pela sua visão focada na humanização dos cuidados e na valorização dos profissionais de saúde, Carlota Cavaco, economista, 48 anos, partilha nesta “À Conversa com ” um pouco da experiência profissional obtida ao longo dos anos em cargos de direção, a exemplo da direção do Casino da Madeira e, mais recentemente, enquanto Diretora-Geral do Hospital da Luz Funchal, do Grupo HLUZ, a sua visão sobre como a Madeira se está a posicionar no mapa da medicina moderna e os desafios de liderar no feminino num setor de alta pressão. Quem é a Carlota Duarte Cavaco em termos de onde e quando nasceu, percursos académico e profissional, até chegar à direção do grupo HLUZ Funchal? - Antes de mais, gostava de dar os parabéns à revista Saber Madeira, pelo trabalho feito ao longo dos anos e agradecer a honra desta entrevista. Ao longo dos anos que trabalhei no Casino da Madeira guardei todas as Fiestas! com post-its nas páginas onde surgiam os eventos do Casino. Agora que recebi este convite para a entrevista percebi que deixei de ser a “Meninadoutora”, como um cliente do Casino da Madeira me chamava, e passei a ser uma SenhoraCrescida. Posto isto, nasci na Madeira, tenho 48 anos, licenciada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, pós-graduada em Finanças e Controlo Empresarial pelo CEMAF. Iniciei a minha carreira em consultoria financeira na Deloitte & Touche, passei para o departamento financeiro da empresa francesa Total Petróleos, trabalhei três anos na banca de investimentos no Millennium bcp, sempre em Lisboa. Aos 18 anos tinha duas convicções: primeiro, ia a Lisboa estudar, iniciar a carreira profissional e que logo que houvesse oportunidade regressaria à Madeira, segundo: acabaria por montar um negócio próprio, pequeno, mas que conseguisse trabalhar num projeto idealizado, montado e trabalhado por mim. O primeiro ponto consegui pôr em prática quase sem hesitar, o segundo ainda não, mas continuo a pensar muito nisso. Em 2007 voltei para a Madeira para trabalhar no Grupo Pestana na área financeira, no fim de 2008 fui convidada para Diretora Geral do Casino da Madeira. Tinha muitas coisas para aprender, tinha 30 anos, era a primeira vez que iria fazer um trabalho na operação e embora tenha sido um projeto duro, foi muito gratificante. Encontrei no Casino da Madeira uma equipa extraordinária, com quem ainda mantenho grande ligação. Tenho um eterno cordão umbilical aquela empresa. Em 2017, com a entrada do Grupo Luz Saúde na Madeira, assumi a Direção Geral do Hospital da Luz Funchal e Hospital da Luz Clínica do Caniço. Já conhecia o Grupo Luz Saúde, tinha acompanhado o seu crescimento a nível nacional, era uma oportunidade de mudar de setor, conhecer pessoas novas, ganhar novas competências, continuar a apreender e vim para o projeto com muito entusiasmo. Nessa altura já tinha quase 40 anos, vários anos de experiência profissional e confesso que achei que ia ser “canja de galinha”. Estava mesmo muito enganada. O nível de serviço, a especificidade da linguagem do setor, o número de profissionais com que cada cliente tinha de contactar, a expectativa do cliente, a humanização e o profissionalismo dos profissionais de saúde, o nível de investimento exigido para ter uma unidade de ponta tem sido muito gratificante e fez-me crescer muito a nível profissional. Formou-se em Economia. O que é que a levou para a Economia? - Curiosamente, tenho tido oportunidade de falar sobre esse assunto com alguns miúdos quando estão a transitar para o 10º ano e também quando estão a acabar o 12º ano. Queria ser médica dentista, fiz o secundário a achar que ia para dentária, mas nas vésperas de preencher o formulário de candidatura à faculdade resolvi que queria Economia ou Gestão, e não me arrependo nada. Adorava matemática e essa era uma garantia que ia gostar do curso. Apresente-nos o Hospital da Luz Funchal em termos da sua história, as suas equipas, projetos desenvolvidos e como se diferencia do serviço público e de outros grupos privados? - Em 2017, o Grupo Luz Saúde adquiriu o Hospital da Luz Funchal e Hospital da Luz Clínica do Caniço, espaços que já funcionavam como unidades de saúde, remodelamos, reabilitamos, sendo hoje unidades com a qualidade que distinguem a Luz Saúde em todo o território nacional. Em 2024, abrimos o Hospital da Luz Clínica da Carreira e foi o momento de consolidação da oferta da Luz Saúde na Madeira. Tem uma excelente localização, gabinetes de consultas e exames equipados com tecnologia de ponta e uma equipa médica sólida, diferenciada, em várias especialidades. Começámos por ser uma equipa de 60 pessoas, hoje somos quase 100 pessoas com contrato individual de trabalho. Começamos por ter 150 profissionais de saúde a colaborar connosco como prestadores de serviços, hoje temos mais de 450. Começamos por ser uma unidade de saúde fundamentalmente de cirurgia geral e ortopedia, hoje temos muitas especialidades e damos uma resposta 360. Começamos por ser um grupo de prestador de serviços que trabalhavam de forma individual, hoje somos uma equipa e trabalhamos de forma multidisciplinar. Temos três unidades e todos os anos temos continuado a investir. Se em 2024 abrimos o Hospital da Luz Clínica da Carreira, em 2025 compramos uma Ressonância Magnética e um TAC de última geração, em 2026 vamos abrir um Centro de Medicina Física e Reabilitação no Caniço. Viemos para ficar, viemos para melhorar unidades que já tinham o seu legado e crescer sempre com medicina de qualidade. O Hospital da Luz Funchal faz parte de um dos maiores grupos de hospitalização privada português, dá uma resposta aos seus clientes de elevada qualidade clínica e com muita humanização. Em termos de novos projetos, em 2026, além do Centro de Medicina Física e Reabilitação [que irá abrir no Caniço no primeiro semestre], contamos também com a abertura do Hospital de dia Oncológico. Qual é o maior desafio de gerir uma unidade de saúde privada numa região ultraperiférica como a Madeira? - Gerir uma unidade de saúde é difícil. Exige um enorme investimento inicial, a legislação é muito rigorosa, temos de estar preparados para uma grande evolução tecnológica que implica um investimento constante em tecnologia de ponta, entre outros aspetos. Gerir uma unidade de saúde na Ilha da Madeira é ainda mais exigente. Temos uma grande dependência dos profissionais de saúde e do número de especialistas médicos residentes, temos um mercado pequeno (em número de habitantes) para o nível de investimento exigido, damos resposta aos turistas e aos estrangeiros que vivem na Madeira, o que é um bom complemento, mas a ultraperiferia implica maiores custos nos consumíveis, porque o custo de transporte não pode ser ignorado, etc. Gerir uma unidade de saúde na Ilha da Madeira, sendo parte do Grupo Luz Saúde, torna tudo muito mais desafiante e rigoroso, mas também mais fácil. O grupo tem uma empresa de formação, uma direção comercial, uma central de negociações com os fornecedores onde conseguimos aceder aos preços nacionais, temos equipas centrais extraordinárias que dão resposta às questões de todas as unidades e permitem grandes ganhos de escala e muito maior e melhor digitalização e inovação tecnológica. Costuma mencionar o “hospital centrado no utente”. Na prática, o que é que isso significa no dia a dia do seu, vosso, trabalho? - Na hotelaria tinha ideia de que estávamos a trabalhar para os clientes terem “momentos memoráveis”, é exigente, obriga-nos a estar focados no cliente, mas num hospital esse foco é ainda maior. O utente precisa de ter uma resposta articulada, rápida, multidisciplinar, humanizada, em muitos casos “feita à medida”. Pode estar numa fase de fazer exames de rotina, mas também vai contactar connosco nos momentos mais frágeis e tensos das suas vidas. É muito gratificante, mas tem de correr mesmo tudo muito bem, desde a receção, à higienização do quarto, a ajuda a comer e vestir, a experiência com a equipa de auxiliares de ação médica, enfermeiros, médicos, administrativos. No fim é esperado que o cliente saia com a sua situação de doença resolvida, mas também com a sensação de que todos demos o nosso melhor para o fazer sentir bem. Como é que lida com a escassez de médicos especialistas na ilha? - No início, quando entrei no Hospital da Luz Funchal, pedi reunião com a presidente do CA do SESARAM da altura (que me recebeu muitíssimo bem), mas também com as pessoas que estavam a gerir o MMC, Clínica da Sé e Clínica de Santa Luzia. Esta era uma das perguntas que queria ver respondida por quem tinha mais experiência do que eu no setor. As viagens e estadias para a Madeira estão a preços altíssimos, mesmo com muito boa vontade pedir a um médico para sair do Porto ou Lisboa para vir à Madeira fazer um período de consultas, exames e bloco é muito difícil, até porque as agendas deles também estão cheias nos locais onde trabalham. O IASAUDE só comparticipa aos indivíduos com número de segurança social da Madeira, atividade clínica de médicos com residência fiscal na Madeira. Ou seja, nem na atividade como a radiologia (que pode ser feita à distância) as equipas das restantes unidades do Luz Saúde nos podem dar apoio, porque pode duplicar o valor suportado pelo cliente no mesmo exame. As vídeo-consultas dão resposta a muitos seguimentos de doenças crónicas ou doentes já vistos, mas não são solução para primeiras consultas. Em especialidades cirúrgicas em que a Madeira tenha quatro especialistas, dois estão de urgência e outros dois estão a sair de urgência (porque os médicos operam sempre com ajudantes). Como é que descansam, vão de férias, vão a congressos, gerem os restantes períodos do dia e semana que quatro profissionais não conseguem cobrir? Hoje já sei responder à pergunta: na Madeira temos excelentes profissionais médicos, que dão resposta às necessidades da população, especialistas reconhecidos como muito bons em qualquer parte do país e mesmo no estrangeiro, com excelentes resultados clínicos. Em momentos muito pontuais temos de nos ajudar uns aos outros para termos a reposta mais rápida e mais eficiente na emergência e urgência, e tenho orgulho do que consegue ser feito tanto pelo setor público como pelas unidades privadas da RAM. Temos um excelente sistema regional de saúde e sei que os turistas que nos visitam e os estrangeiros que cá vivem sentem o mesmo nível de confiança, o que é também um grande orgulho. O aumento do turismo impactou a procura por cuidados de saúde privados, nomeadamente o vosso? - Costumo dizer que, apesar de não acreditar no “turismo de saúde” na Madeira, acredito muito que os cuidados de saúde que prestamos contribui muito para que a Madeira seja um destino escolhido para férias e acredito que parte dos nossos famosos clientes repetidos nos escolhem por essa segurança. O aumento de turistas impacta a procura de cuidados clínicos de saúde privada e a existência de unidades como as nossas aumenta os turistas que escolhem a Madeira. Qual é o seu estilo de liderança para manter equipas de saúde motivadas num setor com tanto desgaste e pressão? - Trabalho de equipa, respeito pela posição de cada um e reconhecimento. Sinto a minha equipa como parte de mim. Sei que posso contar com eles e também sei que eles sabem que podem contar comigo. Todos estendemos as mãos para ajudar, damos sugestões de melhoria, corremos mais um km quando é preciso. Um bom diretor clínico que trata os doentes como família, uma boa diretora de enfermagem que é a primeira a chegar quando é preciso fazer seja o que for, uma boa gestora de recursos humanos que nos recebe a cada minuto e encontra 3 soluções para cada problema, uma responsável administrativa que é preciso pedir para ir para casa porque às vezes esquece-se que amanhã também é dia e está sempre pronta para fazer mais. Como vê a coexistência entre o setor público (SESARAM) e o privado na Madeira? - Com muito bons olhos. O SESARAM tem um “hospital de fim de linha” que tem de dar resposta a muitas situações urgentes e emergentes. Está a ser construído o Hospital Universitário da Madeira que além de maior obra do país é também um investimento extraordinário para a população da RAM e para o nosso desenvolvimento (em investigação e desenvolvimento, ligação à universidade, captação de profissionais de grande qualidade). Em simultâneo, e como em todo o Mundo e também em todo o território português, estão a crescer as unidades de saúde privadas com acordos com a ADSE, com acordos com as principais seguradoras nacionais e internacionais e todos os subsistemas existentes. Atualmente, a prevenção é muito mais fácil, os recursos são finitos e a exigência da população é muito maior. Há espaço para termos o melhor hospital público do país e continuarmos a ter excelentes hospitais privados a coexistir. Não há é espaço para continuarmos a aceitar espaços sem licenciamento, sem cumprir legislação, sem níveis mínimos para a prática clínica abertos, em funcionamento. Sendo associada da plataforma Adoro. Ser.Mulher, como é que vê o facto de termos mulheres em cargos de topo na gestão hospitalar em Portugal? - Eu, realmente, “Adoro Ser Mulher” e gosto da associação porque junta mulheres de negócios e empreendedoras. Na verdade, quando me inscrevi na associação, foi para me poder inspirar nas histórias de sucesso das restantes associadas e sou fã daquele grupo de mulheres. A Ministra da Saude é mulher, a Secretária da Saude é mulher, a Diretora Regional de Saúde é mulher, a Presidente do CA do IASAUDE é mulher, a Presidente do CA do Sesaram é mulher, e a CEO do Grupo Luz Saúde, a Eng. Isabel Vaz, também é mulher. Vejo muitas coisas em comum entre elas: são “mouros de trabalho”, empáticas, humanas, com grande capacidade de gestão de recursos humanos, com muita vontade de fazer mais e melhor, com noção da gestão de recursos. Não tem muitos anos todos estes cargos eram ocupados exclusivamente por homens, pelo que, a sua questão fez-me pensar na quantidade de mulheres em cargos de topo na gestão da saúde. Como concilia o trabalho com a família e o lazer, ou seja, quando não está a trabalhar, o que gosta de fazer? - É super fácil conciliar o trabalho com hobbies, tenho 25 anos de experiência profissional o que facilita a conciliação da vida familiar com o trabalho. Tenho um marido exigente, duas filhas pequenas, três enteados, gostamos de fazer muitas coisas juntos e conseguimos fazê-las. A Madeira é o melhor sítio para viver? Não sei responder, mas a Madeira é um lugar onde conseguimos encontrar equilíbrio na vida, contacto com a natureza, segurança, estabilidade, interajuda. Hoje tenho uma vida muito equilibrada e ando a tratar de arranjar mais um hobby. s Nelson Martins Na hotelaria tinha ideia de que estávamos a trabalhar para os clientes terem “momentos memoráveis”, é exigente, obriga-nos a estar focados no cliente, mas num hospital esse foco é ainda maior O nível de investimento exigido para ter uma unidade de ponta tem sido muito gratificante e fez-me crescer muito a nível profissional O aumento de turistas impacta a procura de cuidados clínicos de saúde privada e a existência de unidades como as nossas aumenta os turistas que escolhem a Madeira DULCINA BRANCO