INTERNAMENTOS SOCIAIS: - UM SISTEMA SOB PRESSÃO
2026-05-08 21:06:33

Ficámos a saber que, em Viseu, em 2023, havia 20 pessoas a ocupar indevidamente uma cama hospitalar, o equivalente à quase totalidade de uma enfermaria padrão. Um problema estrutural, nacional e que está a agravar-se. A 10.4 edição do Barómetro de Internamentos Sociais revela um retrato preocupante: a 19 de março de 2026 registavam-se 2.807 internamentos inapropriados no Serviço Nacional de Saúde, um aumento de 19% face ao ano anterior. Estes casos representavam já 13,9% das camas hospitalares ocupadas, com cerca de 85% concentrados nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte. O dado mais inquietante é o tempo, estes internamentos traduzem-se em mais de 439 mil dias de ocupação hospitalar indevida, com uma demora média de 157 dias por pessoa. Os hospitais estão a substituir aquilo que O Estado não construiu fora deles. Estamos perante pessoas com alta clínica que permanecem internadas não por necessidade médica, mas por ausência de resposta social com um custo elevado, na ordem dos 350 milhões de euros por ano. A principal causa é conhecida, repetindo-se há anos, afalta de resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados, responsável por cerca de 45% dos casos. Urge reforçar esta rede, investir seriamente no apoio domiciliário e garantir respostas intermédias que permitam transições seguras e dignas, após a alta hospitalar. Continuar a ignorar este problema é aceitar que os hospitais funcionem como resposta social de último recurso. Compete ao Estado, sendo social, responder às necessidades das mulheres e homens que tanto deram ao país. As famílias não podem ser descartadas, mas também não podem ser sobrecarregadas sem suporte. e verdade que existem situações de negligência e abandono. Mas não podemos cair em discursos simplistas que culpabilizam indistintamente as famílias. Muitas não têm condições materiais, nem capacidade financeira para acolher um familiar dependente, sobretudo quando o acesso a respostas formais é escasso ou financeiramente incomportável. Assistimos à progressiva mercantilização dos cuidados, num país que continua entre os que têm menos respostas estruturadas para a população idosa. Quando não há alternativas formais, multiplicam-se soluções informais, muitas vezes sem condições, expondo pessoas vulneráveis a riscos inaceitáveis. A falta de planeamento tem um custo elevado. O país não se preparou para a realidade demográfica atual, marcada por uma maior longevidade, mas também por uma maior incidência de dependência nos últimos anos de vida. Portugal continua a adiar uma resposta estrutural para uma das maiores transformações da sua história demográfica, o duplo envelhecimento populacional. José Carreira