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A ARTE DE VALORIZAR A CULTURA

Expresso Online

2026-05-08 21:06:31

Embora o sector cultural e recreativo represente apenas entre 1% e 2% do PIB, aumentando para pouco mais de 3% quando alargado às indústrias criativas, é determinante para a identidade social No final de abril, o Muzeu abriu as suas portas na cidade de Braga. Localizado na Praça do Município, onde a presença da Câmara Municipal de Braga será ainda a referência natural do local, o elemento visualmente mais imponente do edifício, a palavra Muzeu no seu topo, destaca-se na fachada traseira, virado para a Praça Conde de Agrolongo, opções que, em conjunto com o seu atravessamento, assumido no próprio funcionamento do espaço, torna o museu a ligação física mais bem conseguida entre as duas praças. Contudo, suspeita-se que a ambição deste projeto estará longe de se limitar à cidade de Braga, ou então terá sido uma mera coincidência, ou então uma felicidade o mesmo ter sido inaugurado pelo Presidente da República, e não pelo presidente da Câmara, e abençoado por um cardeal, e não pelo arcebispo primaz de Braga. Uma ambição, ou porventura visão, que levou a que um importante construtor civil da cidade, que, por interesse ou por gosto, foi acumulando um relevante espólio de obras de artistas nacionais e internacionais, tenha tomado a iniciativa de o partilhar. Talvez por se tratar de um construtor civil ou por os tempos serem outros, não foi negociar com o Estado a cedência de um qualquer espaço para expor a sua coleção, tomando a si a iniciativa de criar o espaço para o seu museu, assumindo o compromisso de recuperar o edifício onde havia funcionado o Tribunal de Braga, preservando assim património edificado da cidade, com recurso a uma incontornável referência da arquitetura bracarense. Talvez o rasgo de coragem e de generosidade que o Muzeu corporiza tenha, afinal, uma dose menor de egocentrismo A preservação de património edificado associada à criação de um museu com uma programação própria é um importante contributo para o sector cultural e recreativo nacional. Este sector engloba todas as atividades que se baseiam em valores culturais, expressões artísticas individuais ou coletivas e criatividade, desde artes e espetáculos a património cultural (onde se incluem os museus) e indústrias criativas. Embora, nas contas nacionais, represente apenas entre 1% e 2% do PIB, aumentando para pouco mais de 3% quando alargado às indústrias criativas (valores de 2024), é determinante para a identidade social, constituindo um importante motor do turismo e potenciando o desenvolvimento económico. Fortemente abalado pela covid-19, que levou ao encerramento de museus e ao cancelamento de espetáculos e de eventos culturais, apresentou uma quebra acentuada do seu contributo para o PIB em 2020. Desde então, o contributo do sector tem vindo a recuperar, apresentando, recentemente, valores superiores aos observados pré-pandemia, estabilizados em torno dos 3% (em termos latos). Contudo, o seu impacto económico, quando associado ao turismo, é muito superior, e o seu impacto social, relacionado com a construção da nossa identidade coletiva, é inquestionável, ainda que dificilmente quantificável. Note-se que o sector cultural e recreativo é bastante heterogéneo, quer na natureza das suas atividades, quer no peso económico destas, com as atividades desportivas, de diversão e recreativas a dominar enquanto motor económico do sector, dada a sua maior escala comercial, conjugada com um consumo frequente. Seguem-se as atividades artísticas, criativas e de espetáculos, que incluem teatro, música, dança, produção cultural e atividades literárias e artísticas, menos massificadas, ainda que com forte relevância cultural. Finalmente, as bibliotecas, arquivos, museus e património surgem com um peso económico residual, não obstante o seu elevado valor cultural e social. Um peso económico residual ao qual se associa uma recente quebra de visitantes, entre 2024 e 2025, associada, segundo a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal, ao encerramento total ou parcial de vários museus e monumentos para obras, no âmbito do PRR. E é neste contexto que surge o Muzeu. Um projeto privado que abriu portas para a entrada livre do público em dia de celebração da liberdade, proporcionando o acesso generalizado aos principais artistas contemporâneos portugueses. Um projeto que não se esgota na sua dimensão expositiva, propondo uma programação artística diversificada num mesmo espaço. Quando procuramos relacionar arte e cultura, uma possível abordagem passa por considerar a cultura a nossa arte do passado, o que nos torna a sociedade que somos, enquanto a arte se associa a inovação, a futuro. Quando o poeta brasileiro afirma que “a arte existe porque a vida não basta”, coloca a arte num patamar de necessidade e não de um luxo. Porque a arte que se torna cultura faz parte da nossa identidade social, mas também individual. Um exemplo de arte construída sobre cultura, com um impacto social avassalador, é a Mezquita-Catedral de Córdoba, onde a união dos elementos que a compõem extravasa o edifício físico, relembrando que uma união religiosa e cultural é possível. Talvez o rasgo de coragem e de generosidade que o Muzeu corporiza tenha, afinal, uma dose menor de egocentrismo, talvez seja menos Zé e mais Mezquita. Sílvia Sousa Professora de Economia da Universidade do Minho Sílvia Sousa