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PRECISAMOS DE FALAR SOBRE ESTA DOENÇA RESPIRATÓRIA

Expresso Online

2026-05-08 21:06:27

Prioridades. A doença pulmonar obstrutiva crónica é altamente subdiagnosticada, apesar de ser uma das principais causas de morte no país. Especialistas defendem a aposta no diagnóstico precoce, rastreios ou campanhas de prevenção e literacia Nas 42 camas do serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Maria há sempre doentes internados. “Às vezes, uma cama chega a ter dois doentes no mesmo dia , sai um de manhã, à tarde está lá outro. A taxa de ocupação é sempre superior a 100%”, descreve Paula Pinto, diretora do serviço de Pneumologia desta Unidade Local de Saúde (ULS). O quadro é crítico e mostra como a carga global provocada pelas doenças respiratórias, em especial a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), tem vindo a aumentar. No Hospital de Santa Maria, as doenças respiratórias são aquelas que provocam mais idas ao serviço de urgência. Os fatores para o seu aparecimento são diversos: envelhecimento da população, infeções respiratórias emergentes, exposição ao tabaco e impacto das alterações climáticas. Segundo Paula Pinto, o grande problema é que, depois de lá entrarem, os doentes “nunca ficam iguais”. “Podiam ser autónomos, trabalhar, ir com os netos à escola, contribuir para a atividade familiar e da sociedade, mas precisam de fazer oxigénio ou ventilação não invasiva, o que muda a sua vida”, explica a profissional de saúde, realçando que a DPOC é tratável e pode ser prevenível. Mas esta doença é das mais subdiagnosticadas no país. Muitos doentes tendem a normalizar sintomas como tosse crónica, expetoração ou falta de ar, sobretudo quando associados ao tabagismo ou envelhecimento, o que acaba por atrasar o diagnóstico e comprometer o prognóstico. O diagnóstico precoce torna-se, então, crucial. Paula Simão, diretora do serviço de Pneumologia da ULS Matosinhos, releva a importância de alargar o acesso à espirometria nos centros de saúde, reforçando a equipa técnica especializada, já que os espirómetros em si são equipamentos “extremamente baratos”. José Alves, presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, defende a implementação do rastreio, tal como existe na Madeira e que é dirigido a fumadores entre os 40 e os 74 anos. No que toca aos tratamentos, o acesso à reabilitação respiratória nos cuidados de saúde primários é também essencial, sendo que o tratamento em casa pode ser melhorado através de consultas estruturais em que se ensine o doente a como fazê-lo corretamente, sublinha Cláudia Vicente, médica de família e coordenadora do Grupo Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP). “Posso ter um fármaco incrível, mas, se eu não o estiver a fazer bem, não vai ter efeito nenhum (...). A consulta estrutural, mais ou menos periódica, é uma das chaves para o sucesso”, garante a médica, acrescentando: “Além do acompanhamento correto do médico e enfermeiro, devemos envolver técnicos e farmacêuticos da comunidade. Vai mudar completamente o compromisso do doente em controlar a sua doença.” Fumar faz mal Já Paula Duarte, vice-presidente da Respira, insiste na aposta em campanhas de prevenção com foco no tabagismo como uma das prioridades para o combate à DPOC. “Num país com a iliteracia que o nosso tem, têm de existir campanhas sistemáticas com mensagens claras e precisas, que devem começar nas camadas mais jovens”, afirma. “Há quem invoque que isto deve começar no 3º e 4º ano, mas achamos que é impossível que eles interiorizem alguma coisa, por isso a Respira vai a turmas do 5º e 6º ano. É algo que deve ser pensado de maneira estruturada com o envolvimento do Ministério da Saúde e da Educação.” FRASES DO FÓRUM “O diagnóstico precoce da DPOC já é tardio” José AlvesPresidente da Fundação Portuguesa do Pulmão “A maioria das exacerbações de DPOC pode ser prevenida através da vacinação comparticipada” Paula SimãoDiretora do serviço de pneumologia da ULS Matosinhos “É preciso pensar a saúde a longo prazo para que haja sustentabilidade no SNS” José AlbinoPresidente da Respira - Associação de Pessoas com DPOC e Outras Doenças Respiratórias Beatriz Magalhães Jornalista Beatriz Magalhães, Nuno Fox