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PORTUGAL DEU A IDEIA, MAS NÃO LUCRA COM A VENDA DE NAVIOS PORTA-DRONES: "É UM CONCEITO REVOLUCIONÁRIO", DIZ DIRETOR DOS ESTALEIROS

Expresso Online

2026-05-08 21:06:27

Roland Briene diretor executivo da neerlandesa Damen Naval, que está a construir o navio “D. João II”, admite interesse de outros países na plataforma conhecida como porta-drones, que já flutua nos estaleiros na Roménia. Apesar de o conceito ter sido desenvolvido a partir de uma ideia de Gouveia e Melo, Portugal não receberá contrapartidas pela venda de unidades deste navio a outras marinhas Os estaleiros neerlandeses Damen Naval, que estão a construir o porta-drones português nos estaleiros de Gala?i, na Roménia, tencionam vender mais unidades desta Plataforma Naval Multifuncional - uma ideia original da Marinha - a outros países, mas o Estado não ganhará direitos de propriedade industrial com esses negócios. No máximo, a Armada não pagará pelas licenças se quiser construir navios desta tipologia noutros estaleiros. O diretor executivo da Damen Naval, Roland Briene, esteve a semana passada no Estoril, a participar na convenção da Associação das Indústrias Aerospaciais, de Segurança e Defesa Europeias (ASD), onde elogiou o conceito do navio “D. João II” numa conversa com o Expresso, e admitiu o interesse de outras marinhas no porta-drones português, por representar o “futuro”. Financiado pelo Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), o navio entrou em flutuação no início do mês passado, e é suposto ser entregue à Marinha no primeiro semestre do próximo ano. “É um conceito revolucionário e foi o antigo chefe da Marinha portuguesa, o almirante Gouveia Melo, quem teve a ideia”, começou por destacar Roland Briene, numa entrevista à margem da convenção que juntou os gigantes da indústria de Defesa europeia. “Com base nesse conceito que ele elaborou, a nossa equipa de engenharia e conceção começou a desenvolver o projeto, e foi assim que chegámos a esta plataforma padrão.” A ideia, explica o gestor, era conceber “um navio que não tivesse especificações totalmente militares, capaz de apoiar a ambição da Marinha portuguesa no que diz respeito às atividades com drones”. O navio não foi desenhado com especificações militares, para poder ser financiado ao abrigo do PRR, mas as futuras unidades podem ser militarizadas e a militarização do “D. João II” pode ser feita através do tipo de drones que transportar, em caso de necessidade, por ser um navio modular. Segundo o executivo do grupo neerlandês, “o futuro reside em sistemas não tripulados ou com tripulação reduzida, através de um navio-mãe que pode ser uma fragata ou um navio de patrulha marítima”, daí que a Damen esteja interessada em vender o conceito a outras marinhas: “É engraçado que, durante a conferência, e estou aqui há dois dias, essa pergunta já me foi feita umas 10 vezes”, responde. “Detemos a propriedade intelectual do projeto e podemos fabricá-lo para outros países e outras armadas. É evidente que há muito interesse, mas todos estão a esperar para ver o que acontece”, explica Briene. “Assim que o navio for para o mar e outras marinhas o virem em operação, despertará mais interesse. Esta é a nova forma de guerra, que envolve drones aquáticos e drones aéreos para operar em diferentes formas de guerra e não é a mais tradicional”. Portugal será o primeiro país da União Europeia a operar um navio feito de raiz com esta natureza e objetivo. FRASE “O futuro reside em sistemas não tripulados ou com tripulação reduzida” Apesar de ser uma plataforma desenvolvida a partir de um conceito nacional, como reconhece o responsável da Damen, a partilha dos direitos não reverte diretamente em receitas para o Estado - como por exemplo sucede com os aviões de transporte KC-360, cofabricado com a Embraer, em que o Estado fatura mais de EUR11 milhões por venda, segundo dados do Ministério da Defesa. “Tendo em conta a fonte de financiamento (PRR) e o seu volume (EUR132 M), os direitos de propriedade do projeto são partilhados entre o Estado português e a empresa Damen, embora tenha ficado salvaguardado que o conceito foi desenvolvido na íntegra pela Marinha portuguesa”, esclarece o porta-voz da Armada, comandante Ricardo Sá Granja. No entanto, apurou o Expresso, essa “partilha” significa que a vantagem nacional passa apenas pela possibilidade de construir navios da mesma classe em estaleiros concorrentes, sem ter de pagar direitos industriais à Damen, um valor que é estimado entre EUR15 milhões a EUR20 milhões, segundo as respostas da Marinha. Para que Portugal ficasse com os direitos de propriedade industrial do navio, seria “necessário ter existido capacidade financeira para pagar o Projeto Básico e o Projeto de Detalhe”, explica o porta-voz da Marinha, “bem como todo o desenvolvimento dos sistemas que equipam o navio, o que não aconteceu devido à delimitação do pacote financeiro contemplado no PRR”. Outras fontes especializadas ouvidas dizem que Portugal não tem capacidade de construção naval suficiente e que seria demasiado caro fazê-lo, de modo a lucrar com as encomendas. Os estaleiros de Viana do Castelo, da West Sea, que seriam os únicos que o poderiam fazer, têm a capacidade esgotada com a construção dos navios de patrulha oceânica, e terão apresentado uma proposta muito dispendiosa. Vítor Matos Jornalista Vítor Matos