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MODELO DAS ULS NÃO SE TRADUZ APENAS EM GASTAR MENOS, MAS EM GASTAR MELHOR - ENTREVISTA A FRANCISCO MAIO DE MATOS

Diário de Coimbra

2026-05-08 21:06:27

ULS de Coimbra A sustentabilidade “orienta a gestão diária e, mais importante, a gestão estratégica da ULS de Coimbra, porque quando falamos SNS é fundamental pensar a longo prazo”, diz Francisco Maio de Matos, presidente do Conselho de Administração, garantindo que o novo modelo permitiu aumentar a efci iência clínica e organizacional da resposta DiáriodeCoimbra Asustentabilidade do Sistema de Saúde em Portugal, em particular do SNS, tem sido cada vez mais questionada. Qual é o maior risco para a sustentabilidade do sistema neste momento? Francisco Maio de Matos O maior risco para a sustentabilidade do sistema reside no desequilíbrio crescente entre a procura e a capacidade de resposta, agravado pelo envelhecimento progressivo da população, pelo aumento da prevalência de doenças crónicas e pela escassez de profissionais. A este cenário soma-se a fragmentação dos cuidados, que pode poten-ciar ineficiências e desperdício. Importa, por isso, encarar a sustentabilidade numa perspetiva mais ampla, não apenas financeira. O SNS é feito por pessoas e para as pessoas, assente na capacidade de gerar valor em saúde, alcançando melhores resultados pela utilização responsável e eficiente dos recursos. De que modo é que este tema rege a gestão diária de uma estrutura como a Unidade Local de Saúde de Coimbra? Este tema orienta a gestão diária e, mais importante, a gestão estratégica porque, quando falamos do SNS, é fundamental pensar a longo prazo. Estamos a construir o amanhã. Cada decisão é avaliada em função do seu contributo para os ganhos em saúde, para a eficiência e para a integração de cuidados. Trabalhamos centrados na otimização de recursos, na redução das ineficiências e na criação de percursos assistenciais mais eficazes e integrados, com base em dados e resultados e em constante articulação com o ecossistema académico da região, com as autarquias e com os restantes parceiros comunitários, essenciais para a organização de respostas mais ajustadas às reais necessidades das populações. A nossa missão é prestar os melhores cuidados de saúde às pessoas, envolvendo-as ativamente nas decisões. A criação das Unidades Locais de Saúde tem sido apresentada como solução para eficiência. Na prática, o que mudou desde a sua criação? A principal mudança foi a integração organizacional e funcional dos diferentes níveis de cuidados. Passámos a ter um sistema mais articulado, com maior capacidade de planear o percurso do cidadão de forma contínua, dos cuidados de saúde primários (CSP) aos hospitalares e à comunidade. Podemos obter ganhos em integração, em proximidade e em gestão de recursos. E, acima de tudo, em saúde. Já há evidência de redução de custos ou melhor gestão de recursos com este modelo? Ainda estamos numa fase de consolidação, mas já há sinais positivos. A evidência mais relevante é o aumento da eficiência clínica e organizacional, verdadeiro motor da sustentabilidade. Os modelos integrados permitem uma melhor articulação entre os vários níveis de cuidados e, por isso, possibilitam acompanhar melhor os utentes e assegurar um encaminhamento mais próximo e adequado, com a criação de canais digitais e o reforço da telemonitorização. Há uma maior adequação da resposta às necessidades das pessoas. Transita-se de uma abordagem episódica para um acompanhamento contínuo, o que reduz a duplicação de exames e atos clínicos, diminui os internamentos evitáveis, reduz as admissões hospitalares por descompensação de doença crónica e potencia uma melhor utilização das camas hospitalares. A evidência mais robusta está nos ganhos de eficiência, qualidade e coordenação, que são os verdadeiros determinantes da sustentabilidade a médio e longo prazo. O modelo das ULS não se traduz apenas em gastar menos, mas em gastar melhor, reduzindo ineficiências, melhorando a coordenação dos cuidados e gerando mais valor em saúde. Uma das principais bandeiras da criação das ULS é, precisamente, a garantia de maior sustentabilidade do sistema e do SNS, focando a gestão dos cuidados, desde os primários até aos hospitalares e pós-hospitalares, numa só estrutura. Esse objetivo tem sido alcançado? Está a ser progressivamente alcançado, mas é um processo em construção. A cultura de integração entre cuidados hospitalares e primários ainda está em curso e exige alinhamento, confiança e cooperação. Começa a produzir ganhos, sobretudo na coordenação assistencial e na melhoria da experiência do utente, mas ainda há áreas a consolidar. A ULS de Coimbra abrange 21 concelhos, muito díspares entre si, o que acrescenta complexidade aos desafios de gestão e reforça a necessidade de garantir equidade no acesso e proximidade na prestação de cuidados. A implementação efetiva das comunidades integradas de saúde é mais um passo na proximidade que pretendemos assegurar às populações. De que modo é que tem sido alcançado, no caso concreto da ULS de Coimbra? Onde é que ainda há falhas? Temos avançado na criação de percursos integrados, no reforço da articulação entre níveis de cuidados e no desenvolvimento de comunidades integradas de saúde. As principais dificuldades residem ainda na transformação da cultura organizacional, na interoperabilidade dos sistemas de informação (uma questão transversal a todo o sistema), e na plena integração operacional entre equipas. Por outro lado, queremos envolver mais os cidadãos, ao longo do ciclo de vida, na identificação das suas necessidades, mas também na participação ativa na construção de soluções. Lá chegaremos! A procura dos serviços de Urgência é um dos grandes problemas do SNS e, neste caso, da ULS de Coimbra. Depois da mudança de política nesta matéria, já há dados concretos no que respeita à procura? Tem dado resultados? Já há sinais de melhoria, com a implementação de medidas de reorganização e o reforço dos cuidados de saúde primários. Alargou-se a resposta em proximidade e os doentes têm hoje mais alternativas ao Serviço de Urgência. A aposta na literacia em saúde, na criação de canais alternativos e na melhor referenciação começa a reduzir a procura evitável, mas é um trabalho em progresso. A digitalização é frequentemente apresentada como solução para eficiência. Em que ponto está esse processo no caso concreto da ULS de Coimbra? A transformação digital está em curso e é uma prioridade estratégica, alicerçada em três objetivos fundamentais: melhorar o acesso, reforçar a qualidade e aumentar a segurança dos cuidados. A tecnologia não é um fim, é um meio para servir melhor os doentes e apoiar as equipas. Este modelo possibilita melhores resultados clínicos, mais eficiência na utilização dos recursos e melhores condições de trabalho para os profissionais de saúde, com processos mais seguros e previsíveis. Estamos a investir na interoperabilidade dos sistemas, na desmaterialização de processos e em ferramentas de apoio à decisão clínica. E esta estratégia não se limita ao hospital. Estamos também a investir nos CSP, dotando os centros de saúde de maior autonomia, nomeadamente através da capacidade de realização de análises clínicas e radiografias, aproximando o diagnóstico das populações. Estamos a construir uma ULS mais moderna, mais integrada e tecnologicamente inovadora. A partilha de dados de saúde pode reduzir custos reais? Já há exemplos concretos disso na ULS? Sim, a partilha de dados permite evitar redundâncias, melhorar diagnósticos e acelerar decisões clínicas. Trabalhamos para melhorar os sistemas de informação e unificar o seu acesso, promovendo uma gestão transversal de exames. Os próprios percursos integrados, que partem das necessidades dos doentes, também têm evidência concreta de ganhos ao nível da articulação, da eficiência e da eliminação de redundâncias, como consequência deste redesenho dos processos. A ULS de Coimbra integra o projeto i2X, de interoperabilidade clínica que visa assegurar a integração e a partilha segura e normalizada de informação (exames, resultados, requisições e metainformação clínica), entre diferentes níveis de cuidados. O i2X permite a circulação segura de dados clínicos essenciais, apoiando a continuidade assistencial, a coordenação entre equipas e a redução de duplicações ao longo do percurso do utente. A prioridade atual é consolidar procedimentos e reforçar a adesão no terreno, de modo a escalar estes ganhos a todo o percurso clínico. Mas, como já referi, mais importante do que gastar menos é gastar melhor. Outra das principais promessas na criação das ULS era reduzir desperdícios. Onde estão hoje os maiores desperdícios no sistema? Já há evidência disso na ULS de Coimbra? Pode dar um exemplo concreto? As principais ineficiências estão asso- ciadas à duplicação de atos, a uma insuficiente articulação entre os diferentes níveis de cuidados e a processos administrativos ineficazes. Um exemplo concreto é a aquisição de equipamentos digitais de radiografia para os centros de saúde, que permitem o envio de imagens para validação direta por médicos radiologistas, através de telemedicina. Ilustra bem como a integração e a digitalização podem contribuir para ganhos de eficiência e qualidade dos cuidados. A ULS de Coimbra tem feito investimentos em infraestruturas, que são muitas vezes vistos como aumento de custos fixos. Como mede o retorno? O retorno é medido em valor em saúde: melhores resultados clínicos, maior efi- ciência, melhor experiência do utente e melhores condições para os profissionais. É um investimento essencial. Dou-lhe o exemplo da nova maternidade, que é estruturante para a ULS de Coimbra e para a comunidade que servimos. Não é apenas uma obra, é uma resposta estratégica, com ganhos de eficiência e melhoria significativa da qualidade e da segurança dos cuidados materno-infantis na região. Estamos a trabalhar para conseguir lançar o concurso de construção ainda este ano. É um projeto cuja necessidade é inegável, mas muito complexo e exigente em termos de planeamento e execução. Implica uma articulação consistente e próxima, não só com o Governo, mas também com a autarquia, uma vez que deve ser integrado no mo-delo de mobilidade e planeamento urbano. É uma prioridade inequívoca do nosso mandato. Estamos a acompanhá-lo de forma continuada, mantendo sempre uma relação de transparência e realismo com os profissionais e com os cidadãos, comunicando com rigor os desafios de cada passo do processo, sem perder de vista o objetivo final, que é dar a Coimbra uma maternidade moderna, segura e alinhada com as necessidades atuais e futuras. A sustentabilidade também depende das pessoas. No que respeita à ULS de Coimbra, tem sido razão para melhorar ou tornar mais difícil a sua gestão? As pessoas são o ativo mais importante, mas também o fator mais crítico. A integração pretende simplificar processos e criar oportunidades para um maior envolvimento, potenciando o trabalho em equipa e a motivação individual e coletiva. Identificamos alguma escassez de profissionais em áreas-chave e um desgaste acumulado, que exige medidas efetivas de reconhecimento e retenção de talento, entre as quais a reorganização das formas e modelos de trabalho. Uma das nossas prioridades inequívocas é valorizar, fixar e cuidar dos nossos profissionais, garantindo ambientes de trabalho seguros, motivadores e respeitadores, onde são parte ativa do projeto e se identificam com o seu propósito. Uma organização é, acima de tudo, as suas pessoas. E o contributo dos nossos profissionais é central para o sucesso do modelo. Os hospitais são grandes consumidores de energia e recursos. Que mudanças já foram implementadas? Existe monitorização da pegada carbónica da instituição? Que papel têm compras públicas sustentáveis (medicamentos, equipamentos, alimentação)? Estima-se que o setor da saúde seja responsável por cerca de 5 a 6% das emissões de gases poluentes, globalmente. É um problema grave, que tem também impacto direto na saúde das pessoas. A ULS de Coimbra integra o projeto Green Hospitals, uma cooperação transfronteiriça que se centrou neste tema importante. Temos implementado solu-ções de eficiência energética, centrais de cogeração, substituição de caixilharia e melhoria do isolamento das instalações, bem como uma gestão mais eficiente de resíduos, quer nos hospitais, quer nos centros de saúde. A monitorização da pegada carbónica é uma área em desenvolvimento, alinhada com boas práticas internacionais. As respostas de proximidade em que estamos a apostar, ao deslocarmos profissionais a casa dos utentes, invertem o modelo tradicional, evitando a deslocação de milhares de pessoas aos polos centrais em Coimbra, com ganhos para todos. Temos exemplos desta mudança de paradigma nas Equipas de Saúde Mental Comunitária, no aumento da monitorização remota (como no caso da DPOC), assim como no reforço da capacidade da hospitalização domiciliária. O atual modelo do SNS é sustentável a 10,20 anos? O SNS é sustentável, desde que continue a adaptar-se, o que exige reformas estruturais, integração de cuidados, valorização dos profissionais, aposta na prevenção e uma utilização inteligente e ética da tecnologia que temos ao dispor. Não nos podemos esquecer de que esta-mos, todos os dias, a construir o futuro. E foi essa a grande motivação para aceitar este desafio. Que reformas estruturais considera inevitáveis? O nosso mandato não vai ser feito de promessas fáceis, mas sim de trabalho contínuo, diálogo permanente e envolvimento dos parceiros. As nossas prioridades estão definidas. Trabalho concreto no projeto da nova maternidade e nas condições de mobilidade nas zonas envolventes às unidades de saúde. Queremos respostas acessíveis, seguras e ágeis, que deem tranquilidade às famílias e garantam equidade no acesso aos cuidados de saúde. Igualmente importantes são as pessoas: valorizar, reter talento e cuidar dos nossos profissionais. E a excelência assistencial, que inclui várias dimensões fundamentais, como a redução sustentada das listas de espera, a robustez das respostas de proximidade, a articulação entre níveis de cuidados e uma aposta na inovação. Estas prioridades estão interligadas e têm um objetivo comum: prestar melhores cuidados, com maior eficiência, num modelo centrado nas pessoas, que promove a sua participação ativa na decisão operacional e estratégica. Francisco Maio de Matos é presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra A evidência mais robusta está nos ganhos de efciência, qualidade e coordenação, que são os verdadeiros determinantes da sustentabilidade a médio e longo prazo A cultura de integração entre cuidados hospitalares e primários ainda está em curso e exige alinhamento, confança e cooperação ULS está a investir na interoperabilidade dos sistemas, desmaterialização de processos e em ferramentas de apoio à decisão clínica O SNS é sustentável, desde que continue a adaptar-se, o que exige reformas estruturais, integração de cuidados, valorização dos profssionais, aposta na prevenção e uma utilização inteligente e ética da tecnologia que temos ao dispor Não nos podemos esquecer de que estamos, todos os dias, a construir o futuro. E foi essa a grande motivação para aceitar este desafo