"INVESTIR EM ONCOLOGIA SIGNIFICA INVESTIR EM EQUIDADE NO ACESSO REDUZINDO DESIGUALDADES" - ENTREVISTA A MARGARIDA ORNELAS
2026-05-08 21:06:27

IPO de Coimbra Com o novo edifício a ser concluído este ano e fortes investimentos em equipamentos, como um acelerador linear e um PET - de que o hospital não dispunha - o IPO de Coimbra crê estar a contribuir para a melhoria dos cuidados prestados em oncologia e, claro, para a sustentabilidade em saúde. No fundo corespondendo, diz a sua presidente, Margarida Ornelas, para concretização da sua visão estratégica Diário de Coimbra O IPO de Coimbra tem feito um forte investimento em infraestruturas e equipamentos. Que estratégica orienta o investimento? Margarida Ornelas A visão estratégica que orienta este investimento radica na própria visão do IPO de Coimbra que se assume como uma referência regional e nacional na prevenção, diagnóstico e tratamento em oncologia, criando valor para os doentes que serve. Esta referência vai mesmo além fronteiras, já que o IPO de Coimbra é uma instituição acreditada por duas prestigiadas entidades Internacionais: a OECI (Organisation of European Cancer Institutes) e o CHKS (Caspe Healthcare Knowledge Systems) sendo reconhecidos os elevados padrões de qualidade da Instituição. No que respeita ao novo edifício. Quando é que a obra estará concluída e como contribuirá para uma utilização mais eficiente dos recursos? Perspetiva-se a conclusão este ano, sendo o investimento mais relevante do plano plurianual de investimentos e o que marcará decisivamente a instituição e a região Centro. Esta empreitada, os investimentos com ela conexos e outros a ser concretizados, contribuirão para a melhoria da qualidade e segurança nos cuidados pres-tados. Recorde-se que com a conclusão da obra se aumentará a área de prestação direta de cuidados de saúde, integrando o novo edifício os serviços de imagiologia; medicina nuclear; gastrenterologia; um serviço de medicina intensiva que constitui uma novidade face ao anterior edifício; 5 salas de bloco operatório e 1 sala adicional para cirurgia de ambulatório e 98 camas de internamento, entre outras áreas. Trata-se, certamente, de um investimento que tem retorno mensurável em saúde. Como o avaliam? Avalia-se com base no impacto do investimento em diversas perspetivas e vertentes. De destacar a perspetiva do utente, estando este investimento fortemente associado à qualidade dos cuidados prestados, sua satisfação e obtenção de ganhos em saúde. Mas a avaliação não se resume a esta dimensão. O impacto far-se-á sentir em toda a organização: do ponto de vista financeiro, importa assinalar a criação de valor de forma sustentada, com acompanhamento, entre outros, dos indicadores de produção, qualidade e eficiência. Há, ainda, a vertente dos processos e a estrutural, sendo neste último ponto de referir o grande impacto que este investimento vai ter do ponto de vista de gestão de recursos humanos, melhoria das condições de trabalho e com isso na satisfação dos profissionais. O IPO de Coimbra tem também investido em novos equipamentos para diagnóstico e tratamento. Quais são as principais apostas e como é que se podem traduzir em ganhos para os doentes e para o sistema de saúde? Para além das alterações estruturais, é de referir o processo em curso de aquisição de equipamentos, estratégicos na modernização tecnológica, diferenciação clínica e melhoria contínua da qualidade e segurança dos cuidados prestados. São muitos os exemplos a este nível. Destacaria o processo de instalação, em curso, de um novo acelerador linear. Tendo sido possível garantir a concretização da licença para instalação e o respetivo financiamento, através do PRR, encontra-se atualmente na fase de instalação um quarto equipamento, incorporando toda a inovação tecnológica, que faz o estado da arte no cuidado aos doentes oncológicos nesta área da radioncologia. Trata-se de um equipamento já adquirido, com o valor de cerca de 3,4 milhões de euros. Destaco, ainda, a recente adjudicação, pelo valor de cerca de 2,9 milhões de euros, de um equipamento PET a ser instalado no serviço de medicina nuclear do novo edifício, igualmente com financiamento do PRR. Este equipamento permite internalizar a realização de exames de PET, sendo um equipamento que o IPO não dispunha. Mas haverá outras situações a enunciar: a cirurgia robótica, por exemplo; equipamentos de imagiologia, entre outros serviços, em alguns casos com uso da inteligência artificial como ferramenta, entre tantas outras. Em abril demos nota da técnica já iniciada pelo serviço de urologia , o programa de biópsias prostáticas de fusão, que representa um avanço significativo face às técnicas convencionais, ao permitir integrar as imagens da ressonância magnética multiparamétrica com a ecografia em tempo real. Desta forma, é possível direcionar com elevada precisão a biópsia para as lesões suspeitas previamente identificadas, aumentando a taxa de deteção de tumores clinicamente relevantes. A inovação em oncologia tende a ser cara. Como equilibrar acesso à inovação com sustentabilidade financeira? O IPO de Coimbra tem assumido o compromisso de agilizar e fortalecer o acesso à inovação, potenciando a evidência científica que suporte a prestação de melhores cuidados de saúde. Há a assinalar dois eixos fundamentais: a inovação terapêutica, através da integração sustentável de imunoterapias e terapias dirigidas que têm vindo a transformar o paradigma do tratamento e a investigação personalizada, sendo possível a participação, no IPO de Coimbra, de doentes em ensaios clínicos, com acesso antecipado a terapias inovadoras. Conscientes de que a gestão sustentável dos recursos é algo basilar, o impacto terapêutico e financeiro dos novos medicamentos é avaliado, tendo a Comissão de Farmácia e Terapêutica do IPO um papel preponderante no processo de decisão. Ao nível dos investimentos há, de igual modo, um rigoroso processo avaliativo, sendo os processos de candidatura dependentes de uma avaliação do mérito por parte de entidades externas. Ao nível da inovação organizacional, área em que é visível o esforço da instituição, há estudos que suportam a decisão. A criação, em 2025, do centro de responsabilidade integrado em gastrenterologia é disso exemplo, tendo o IPO de Coimbra sido uma das instituições selecionadas, a nível nacional, para integrar um projeto piloto, cuja avaliação está em curso. Como definir sustentabilidade no contexto de uma instituição oncológica? O princípio do desenvolvimento sustentável é algo vital no IPO de Coimbra e está bem patente nas políticas definidas e sua prossecução. Tem-se promovido as melhores práticas clínicas quanto ao acesso, qualidade e segurança, produtividade e desempenho económico-financeiro, numa cultura de sustentabilidade, ou seja, a promoção de práticas responsáveis, equilibrando resultados financeiros com impactos sociais e ambientais positivos. Assume particular relevância a sustentabilidade ambiental, a social e a relacionada com a governança. Que projetos tem o IPO nesta matéria? Como exemplo do forte compromisso ambiental destaco o facto de o IPO de Coimbra se ter candidatado ao PO SEUR, o qual permitiu a melhoria da eficiência energética dos edifícios. Este projeto, com um valor elegível comparticipado de cerca de 1,7 milhões de euros, permitiu um acréscimo de dois níveis na classe energética e uma redução nos indicadores energéticos: energia primária e produção de emissões de CO2. Há o Programa Readaptar - Banco de próteses auditivas, de criação de um banco de próteses auditivas doadas, que permite potenciar o acesso ao processo de reabilitação auditiva para doentes oncológicos, promovendo uma economia circular e aproveitando os recursos existentes. Do ponto de vista da sustentabilidade social é de referir a interação com diversos parceiros, designadamente a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), cujo papel tem sido fundamental nesta estratégia, nomeada-mente através dos seus voluntários. E já que falamos da LPCC, não posso deixar de referir o bom exemplo do Projeto EU NAVIGATE, um consórcio internacional envolvendo o IPO de Coimbra e o Núcleo Regional do Centro da LPCC, sob a coordenação da equipa de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Este projeto introduziu a figura do "Navegador Voluntário", um mediador treinado para auxiliar os doentes em áreas como o acesso a tratamentos, organização de consultas e suporte emocional, tendo permitido a muitos doentes encontrar no conforto dos seus lares o apoio incondicional dos “navegadores”, através de visitas domiciliárias, para além de inúmeros contactos significativos, através de telefonemas regulares. Há ainda outras parcerias relevantes que poderei enunciar, entre tantas outras, a título meramente ilustrativo, neste prisma da sustentabilidade social, como é o caso do Programa HUMANIZA que visa o apoio integral a pessoas com doença em fase avançada, através de uma parceria com a Fundação “La Caixa”. Através deste programa, o IPO de Coimbra tem aumentado significativamente a sua capacidade de resposta às necessidades psicossociais dos doentes e famílias que lidam com a doença em fase avançada, sendo que, de entre as iniciativas da Equipa de Apoio Psicossocial, se incluem, também, ações de suporte aos trabalhadores do IPO. O projeto “Música no Lugar Certo”, uma colaboração entre o IPO de Coimbra e a Orquestra Sem Fronteiras, com o apoio do BPI | Fundação “La Caixa”, que promove concertos de música de câmara, com periodicidade mensal e ainda o protocolo de cooperação estabelecido com a Palhaços d Opital cujo alcance, além dos doentes visa, também, os profissionais. Ao nível da governança, destacaria a gestão do medicamento; a utilização racional de recursos e o compromisso como “Hospital Verde”, adotando medidas conducentes à promoção do seu uso eficiente, através de procedimentos e comportamentos assentes na desmateriali-zação, reciclagem, valorização dos materiais, numa preocupação ambiental, alinhada com o plano de ação para a economia circular. Que desafios enfrenta o SNS na área da oncologia nos próximos anos? Segundo o relatório Globocan de 2022, dados divulgados pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro (IARC) da OMS, Portugal apresentava, por ano, 69.567 novos diagnósticos e 33.762 mortes. Os números revelam que o cancro afeta de forma diferente homens e mulheres, com maior mortalidade nos homens. O cancro do pulmão é o que apresenta a maior mortalidade e o cancro do intestino (colorretal) é atualmente o diagnóstico mais comum no país. Esta informação não corresponde apenas a dados estatísticos, é o "motor" que poderá orientar as políticas públicas, de modo a prevenir o que é evitável, detetar o que é tratável e tratar com equidade para reduzir a mortalidade. Uma coisa é certa: todos os dados existentes apontam para o aumento da incidência da doença oncológica, com base nas características da população, nomeadamente no que diz respeito ao envelhecimento e aos hábitos de vida. Neste enquadramento, as necessidades assistenciais serão maiores, pelo que este será, em minha opinião, o principal desafio. O segundo grande desafio prendese com o impacto que têm os novos medicamentos, em termos de peso económico, para além das tecnologias inovadoras, aos quais se associam, igualmente, ganhos em saúde consideráveis. Como é que os investimentos do IPO de Coimbra contribuem para a sustentabilidade do sistema de saúde e melhores resultados em oncologia? O investimento contribui para a sustentabilidade pois, como diria Michael Porter, é capaz de acrescentar valor. A chave para o IPO de Coimbra e qualquer organização, ser sustentável, no contexto de recursos naturalmente escassos, é exatamente esta , ser capaz de criar valor. Pode dizer-se que investir em oncologia é investir na sustentabilidade do SNS? Olhando para o número crescente de casos de cancro, o esforço contínuo de investimento nesta área é primordial para assegurar a capacidade de resposta, presente e futura, e com isso contribuir, também, para a própria sustentabilidade do SNS. O investimento passa por uma forte aposta na prevenção da doença, dada a elevada percentagem de casos de cancro que são evitáveis: 40% de acordo com o Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, sendo, no âmbito da prevenção, a literacia em saúde uma medida prioritária. Por outro lado, destaca-se a importância de alargar e consolidar os programas de rastreio oncológicos de base populacional existentes, como tem sido preconizado. Investir em Oncologia significa investir em equidade no acesso, reduzindo desigualdades e investir na acessibilidade, fomentando cuidados de proximidade. O desenvolvimento sustentável implica respostas humanas e inclusivas, promovendo o bem-estar das pessoas, sob o lema da ONU: “não deixar ninguém para trás”. Outro aspeto a destacar, neste âmbito, é o da importância das redes de referenciação que desempenham um papel fulcral, bem como a integração em redes de investigação internacionais, algo essencial se queremos ter instituições competitivas e inovadoras. Por último, gostaria de deixar, para terminar, uma nota positiva, destacando o aumento da esperança de vida e a conversão de doenças de elevada letalidade, como é o caso das doenças oncológicas, em patologias crónicas controláveis. Atendendo ao aumento dos sucessos terapêuticos, o número de sobreviventes continua e continuará a crescer. Nessa medida, se falamos de investimento em oncologia, teremos necessariamente de falar da realidade dos sobreviventes, garantindo o seu acompanhamento, apoiando políticas, designadamente ao nível laboral e iniciativas que promovam a sua qualidade de vida. Margarida Ornelas é presidente do Conselho de Administração do IPO de Coimbra