NAS MARGENS DO TEXTO
2026-05-08 21:06:27

educação da tristeza de Valter Hugo Mãe Inicio hoje, a-qui, um espaço que pre tende ser antes de mais de partilha e de desafio, respondendo a um repto do Notícias de Ourém, a quem agradeço a confiança e a oportunidade que me é dada de falar acerca de livros, de escritores e de leitura. Cada mês, trarei a minha leitura de um livro, sem a preocupação de olhar apenas para a actualidade editorial, mas antes para obras de que quero, convosco, falar. São, assim, as minhas impressões de leitura que vos deixo, na esperança e desejo de despertar a vontade de partirem à descoberta de textos e de autores que fazem parte da minha biblioteca. Os mais distraídos poderão pensar: qual a utilidade destes assuntos, para que serve a literatura? Uma resposta a estas questões não cabe neste texto, é antes tema de estudos aprofundados e teses científicas. Ficam apenas alguns apontamentos acerca da riqueza dos mundos criados pelos escritores e do papel central que a literatura, e a cultura de modo geral, tem na construção das identidades individual e colectiva. Em abono deste argumento, socorrome das palavras de José Tolentino Mendonça. Na obra elogio da sede (2018), o cardeal-poeta inscreve uma frase de grande concisão e perfeita precisão: «A literatura é, de facto, uma ferramenta sapiencial». Esta afirmação tem o poder de ir ao essencial, destacando o paralelismo entre literatura e saber/ conhecimento, apresentando-a como instrumento de acesso ao conhecimento. E porquê? Porque se constitui como um registro da experiência humana ao longo do tempo, dando, nessa medida, um contributo riquíssimo para a apreensão da representação da História de indivíduos e nações. Ao preservar tradições, mitos, valores e a memória colectiva de uma sociedade, ao dar testemunho desse viver histórico, a cultura, nomeadamente na sua dimensão literária, é um instrumento essencial para a formação da consciência e da humanidade. E vão, felizmente, surgindo exemplos e provas do papel central da cultura no bem-estar social, veja-se a acção e o depoimento de José Teixeira, o famoso presidente do grupo de engenharia e construção DST de Braga, por ocasião da inauguração do museu de arte contemporânea que criou na sua cidade, afirmando: «A cultura pode salvar a economia». Vale a pena pensar nisto! É tendo em mente estes pressupostos que chego à proposta de leitura que hoje trago, educação da tristeza (2025) de Valter Hugo Mãe (VHM), que este ano celebra 30 anos de vida literária, sendo o autor homenageado no festival literário Bibliotecando em Tomar nos dias 8 e 9 de Maio. Nesta sua mais recente criação literária, a certa altura, podemos ler este pensamento que em tudo se aproxima do que antes escrevi: «Além do que a biologia decide, tudo resto é cultura e a cultura tem de ser liberdade» (p. 26).com uma vasta, multifacetada, ecléctica e premiada obra, VHM é autor de romances, poemas, contos, crónicas, textos de pendor autobiográfico, textos infanto-juvenis, editor, artista plástico, cantor. O livro, que inaugura a colecção de não ficção «Escola É Casa Aberta», é constituído por 27 textos com ritmos e registos diferentes, mas que partilham uma mesma linha temática, que podemos designar como vários modos de dizer o sentimento de perda, inscrito desde logo nas dedicatórias, colocadas em abertura dos textos, endereçadas a duas pessoas que «est[ão] na morte» (p. 18): Eduardo Lemos, o sobrinho do autor, e Isabel Lhano, a eterna amiga. Se o ponto de partida é o luto, a forma mais extrema de perda, de que nos falam os textos acerca da doença e morte do sobrinho , «Educação do milagre» ou «O Eduardo educou a morte» , das saudades que tem de Isabel , «Isabel Lhano» e «Aniversário de Isabel Lhano», ou da morte do pai , «Ouvir o pai» e «Notas incompletas sobre assuntos do tempo», outras há que expressam a angústia da efemeridade da vida e a tomada de consciência da passagem do tempo com a consequente entrada numa outra idade , «Anos velhos» ou «Setembro», ou infortúnio de ter a casa em obras , «Obras» ou ainda a morte da verdade em «Fantasmas». No entanto, desengane-se quem pense encontrar o retrato de um universo marcado pela escuridão associada ao luto. O que o autor oferece aos seus leitores é um livro para ler, mas também para ver, um objecto gráfico luminoso de grande beleza e originalidade, que se constrói num jogo entre o traço da palavra escrita e a linha dos desenhos, que ritmam a nossa leitura. Cada um dos textos que compõem a colectânea é introduzido pela representação de uma figura estilizada, da autoria de VHM. Quer os textos, quer os desenhos, dãose a ver numa preponderância do azul substituído pelo vermelho nas crónicas centradas na figura de Isabel Lhano, o que nos leva a repensar o simbolismo cromática à luz da predilecção que a ar-tista plástica tinha por essa cor. Nesse momento, surge como uma evidência que a opção pelo vermelho não é senão outro modo de homenagear a amiga. VHM já habituou os seus leitores a uma escrita luminosa e poética, mesmo nos textos em prosa, a uma construção frásica subversiva que nos desafia a parar, a reflectir, a antecipar sentidos. Assim acontece, desde logo, com o título desta obra, educação da tristeza, que se escapa ao entendimento imediato. Apresentando uma cadência binária, a expressão indicia a ideia de um percurso de aprendizagem de um sentimento, ou seja, cria um horizonte de expectativas onde deslumbramos uma viagem emocional e introspectiva de desconstrução de sentimentos e emoções ligados à perda e a construção de um modo outro de olhar e sentir a saudade. O primeiro texto oferece-nos novas e elucidativas indicações, que nos orientam no caminho de leitura que nele se inicia, dando o mote das crónicas seguintes e marcando-lhes o tom do discurso. Na expressão «Fazer a alegria», assim se intitula a primeira crónica, inscreve-se uma dimensão de vontade própria, de decisão de conduta em ordem a um objectivo definido, o de interromper um ciclo marcado por profunda tristeza, substituindo-a por alegria, deste modo enunciado: «Quero muito que acabe e me deixe só a dignidade de lembrar quem perdi com uma saudade que seja mais festiva. A saudade cresce para ser uma festa em redor de quem amamos. Porque a dor tem de descer para serviços mínimos e nós temos de usar o que existiu como alegria repartida pela eternidade. Nossas pessoas eternas têm de significar alegria porque jamais aceitarei que o meu pai ou o meu sobrinho, a Isabel ou o meu irmão signifiquem tristeza. A morte não lhes pode fazer tão grande injustiça. ( ) é fundamental a bravura de alegrar, exactamente porque quem nos falta não pode ser ferido de tristeza. A saudade tem que vir à festa e ser presença que celebra. (pp. 11-12) Entramos neste maravilhoso livro como quem entra num lugar secreto. Em discurso na primeira pessoa e em nome próprio, ponteado de fina ironia, num tom intimista e emotivo, como se segredado fosse, desvendamos os recônditos mais íntimos do pensamento do autor, num livro em que nos é dado ver a tristeza que educa, mas também, e sobretudo, a tristeza que é educada. Fernando António Nogueira Pessoa ou simplesmente Fernando Pessoa é uma das figuras centrais da literatura portuguesa e europeia do século XX. Poeta, ensaísta e pensador, construiu uma obra singular muito baseada nos seus heterónimos com identidade literária, estilo e visão do mundo próprias. Viveu discretamente em Lisboa, trabalhando essencialmente como tradutor e correspondente comercial enquanto criava uma das produções literárias mais complexas e inovadoras da modernidade. A sua escrita explora temas como a identidade, o desdobramento do eu, o tempo e a inquietação existencial, fazendo de Pessoa um autor universal, mas profundamente ligado à cidade onde viveu e morreu. Em Campo de Ourique podemos visitar a Casa Fernando Pessoa, a última morada do poeta e onde viveu entre 1920 e 1935, ano da sua morte. O edifício é hoje um museu dedicado à vida e obra do poeta, reunindo parte significativa do seu espólio pessoal, incluindo livros, manuscritos, objetos do quotidiano e documentação relacionada com os seus heterónimos. Para além do carácter museológico, o espaço funciona também como centro cultural, promovendo exposições temporárias, debates e atividades literárias. Aí podemos encontrar também (como na fotografia) alguns objetos de Joaquim de Seabra Pessoa, pai de Fernando Pessoa, falecido prematuramente em 1893, quando o poeta tinha apenas cinco anos. O estojo em couro com o nome gravado, a caderneta com registos manuscritos e o alfinete de uso pessoal são testemunhos de uma “presença ausente”, mas determinante. A morte precoce do Pai marcou profundamente a dimensão memorial e fragmentária da escrita pessoana, através de um fundo emocional e simbólico constantes. Foto: João nuno oliveira lisboa | 2016 Joaquim Pessoa “ Entramos neste maravilhoso livro como quem entra num lugar secreto. Em discurso na primeira pessoa e em nome próprio, ponteado de fina ironia, num tom intimista e emotivo, como se segredado fosse (...) AGRIPINA CARRIÇO VIEIRA