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@ DIGA LEITOR - QUANDO APAGAR ABRIL É APAGAR A LIBERDADE

Açoriano Oriental

2026-05-07 21:09:03

Há datas que não são apenas datas. Há momentos na história de um país que guardam a memória de muitos silêncios, medos e coragem. O 25 de Abril é um desses momentos. Não foi apenas uma mudança de regime. Foi o dia em que Portugal começou a sair de décadas de ditadura, censura, guerra colonial, pobreza escondida e falta de direitos fundamentais. Foi o dia em que um povo começou a respirar com mais liberdade. Porisso, custa ver o 25 de Abril tratado como se fosse uma cerimónia incómoda, uma obrigação protocolar ou uma memória que se pode pôr de lado quando não dá jeito. Abril não é um detalhe da nossa história. Abril é a raiz da democracia portuguesa. Quando um governo desvaloriza esta revolução ou a coloca num lugar secundário da memó- ria coletiva, não estamos apenas perante falta de sensibilidade. Estamos perante uma escolha política. E escolhas que mexem com a memória democrática devem ser olhadas com atenção. Nos últimos tempos, tem-se tornado visível um certo desconforto com o significado profundo do 25 de Abril. E isso preocupa-me. Porque quando se tenta diminuir Abril, não se está apenas a falar de uma data comemorativa. Está-se a mexer na memória de um povo e na lembrança de tudo aquilo que foi conquistado por quem viveu antes de nós. A pergunta impõe-se: que intenções tem um governo que parece incomodado com a celebração da revolução que tornou possível a própria democracia onde hoje governa? Que país se quer construir quando se tenta esvaziar Abril do seu significado? Um país que esquece como conquistou a liberdade torna-se sempre mais frágil. E um povo que acredita que os direitos sempre existiram pode, um dia, não perceber quando eles começam a desaparecer. Desvalorizar o 25 de Abril é perigoso porque abre espaço ao revisionismo histórico. E o revisionismo nem sempre aparece de forma evidente. As vezes começa devagar, quase sem se dar por isso. Começa quando se diz que “isso já passou”, ou quando se tenta tratar a ditadura como se tivesse sido apenas mais uma fase da história portuguesa. Mas não foi. Antes do 25 de Abril havia censura, polícia política, perseguição, medo de falar, guerra colonial, mulheres com direitos limitados, pobreza, silêncio e obediência forçada. Isto não pode ser suavizado, relativizado ou varrido para debaixo do tapete. Depois de Abril abriu-se caminho à liberdade de expressão, ao voto livre, à participação política, aos direitos laborais, à escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde e a uma ideia de país mais justo e mais digno. Nada disto nasceu por acaso. Foi conquistado. Talvez seja por isso que Abril ainda incomoda. Porque Abril lembra-nos que o povo pode levantar-se, que nenhum poder é eterno e que a liberdade exige memória, vigilância e participação. O 25 de Abril não pertence a um partido, nem apenas à esquerda, nem a uma geração. Pertence ao povo português. Mas os seus valores , liberdade, justiça social, igualdade, dignidade, participação e resistência ao autoritarismo , entram em choque com todos os projetos políticos que preferem uma sociedade mais cala-da, obediente e menos crítica. Quando se tenta apagar Abril, não se apaga apenas uma data. Tenta-se apagar uma consciência. Tenta-se tornar normal aquilo que nunca deve ser normal: o desprezo pela história, a relativização da ditadura e a ideia perigosa de que a liberdade está garantida para sempre. E não está. A liberdade precisa de ser cuidada. A democracia precisa de ser defendida. A memória precisa de ser transmitida, sobretudo às gerações mais novas, que não viveram a ditadura e podem ser levadas a pensar que tudo isto é apenas passado distante. Porque Abril não é passado morto. Abril é raiz. ê aviso. ê herança. ê compromisso. E enquanto Abril continuar vivo na consciência do povo, haverá sempre quem se recuse a aceitar o silêncio, o medo e a injustiça como destino. MÁRCIA PIMENTEL Os textos enviados para publicação nas rubricas “Diga Leitor” e “Carta ao Diretor” devem indicar nome, morada e telefone. Não publicamos os artigos assinados com pseudónimos ou iniciais. o Açoriano Oriental reserva-se ao direito de selecionar ou resumir por razões de espaço ou clareza. Envie para o email: corianoriental@acorianoorienta.p MÁRCIA PIMENTEL