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25 DE ABRIL: A REVOLUÇÃO FEZ-SE. O PAÍS FICOU POR FAZER

Jornal de Santa Marinha

2026-05-07 21:07:26

Nasci em fevereiro de 1974. Vivi a ditadura durante dois meses , sensivelmente o tempo que hoje demora a marcar uma consulta no SNS. Não tenho memórias da censura, nem da PIDE, nem do medo de falar alto. Não conheci o país amordaçado. Conheço-o pelos relatos, pelos livros, pelas histórias , e, felizmente, pela distância. E é precisamente por isso que começo pelo óbvio, antes que venham os fiscais da revolução de cravo na mão e indignação automática: o 25 de Abril foi uma conquista histórica. Libertou-nos de uma ditadura, deu-nos democracia, deu-nos voz. Mas não nos deu um país à altura dessa liberdade. O problema de Abril não foi o que fez. Foi o que prometeu. Prometeu igualdade, prometeu justiça, prometeu um país mais digno. E, como em qualquer promessa política portuguesa, a execução ficou... em fase experimental permanente. Abril não se cumpriu quando os retornados chegaram a um país que não os queria, tratados como um problema administrativo que convinha arrumar rapidamente. Abril não se cumpriu quando os antigos combatentes foram esquecidos, homens que deram anos de vida ao país e que depois foram devolvidos à sociedade como quem devolve material fora de uso. Abril não se cumpriu quando a democracia ainda mal sabia andar e já tropeçava , não numa pedra, mas numa pedreira inteira de escândalos. ? aqui entramos no verdadeiro ADN do regime: a corrupção não como exceção, mas como prática recorrente, quase institucionalizada. Portugal não tem um problema pontual com corrupção. Tem uma relação estável, duradoura e, diria até, confortável com ela. Uma relação onde há sempre um escândalo novo para substituir o anterior, sempre uma comissão de inquérito para entreter, sempre um “não sabia de nada” pronto a ser debitado com ar sério. Abrem-se processos, fecham-se processos, arquivam,se responsabilidades, prescrevem crimes , eo país segue, como se nada fosse. Mudam OS governos, mudam os protagonistas, mudam os discursos... mas o guião é sempre o mesmo. Um verdadeiro clássico nacional. Uma espécie de fado político onde já todos sabem a letra, mas continuam a fingir surpresa no refrão. Abril não se cumpriu quando percebemos que estudar em Portugal é, muitas vezes, preparar a saída. Quando 30% dos jovens qualificados fazem as malas não por gosto, mas por necessidade. Exportamos talento com a mesma eficiência com que importamos problemas. Formamos para fora. Pagamos para perder. Abril não se cumpriu quando o Estado se lembra dos emigrantes apenas quando precisa de receita, transformando a saudade num atiVo fiscal. Nem quando abre generosamente os cofres para tudo e mais alguma coisa. exceto para quem cá está, trabalha, desconta e espera sentado, de preferência. Abril não se cumpriu quando o salário mínimo passou a ser celebrado como grande conquista nacional, em vez de ser encarado como aquilo que é: um sinal de fragilidade económica. Quando a reforma se tornou um exercício de sobrevivência mensal. Quando olhamos para a Europa e percebemos que estamos lá.. mas sempre na fotografia de grupo, nunca na linha da frente. Abril não se cumpriu quando a saúde vive em estado de urgência permanente, quando a justiça é lenta para uns e conveniente para outros, quando a política se transforma num circuito fechado onde se entra por convite, se sobe por lealdade e se mantém por conveniência. Todos os anos nos dizem que a festa foi bonita, pá”. E foi. Mas há uma diferença entre celebrar a liberdade e viver agarrado a ela como desculpa para tudo o que falhou depois. Abril não pode ser um escudo eterno contra a crítica, nem uma espécie de certificado moral que invalida qualquer discussão sobre o presente. Porque a verdade é esta: Abril cumpriu-se. Cumpriu-se porque posso escrever isto. Cumpriu-se porque o posso dizer sem medo. Cumpriu,se porque ninguém me vai bater à porta por causa destas palavras. Mas isso, hoje, já não chega. Não chega para quem nunca viveu esse Abril e não se alimenta de memórias emprestadas. Não chega para os jovens que querem mais do que liberdade , querem oportunidades. Não chega para quem está farto de discursos épicos e contas bancárias vazias. Não chega para quem ouve todos os anos que Abril é que é.. e no dia seguinte não tem dinheiro para pôr comida na mesa. Abril libertou-nos do medo. Mas não nos libertou da mediocridade. E talvez esteja na altura de perceber que celebrar Abril não pode ser apenas olhar para trás com orgulho. Tem de ser, sobretudo, olhar para a frente com exigência. Porque um país que vive apenas da sua revolução. acaba prisioneiro do seu próprio passado. ARTIGO DE OPINIão JOÃO FERRÃO