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“QUEREMOS MOSTRAR AOS EUROPEUS QUE SOMOS TAMBÉM PARCEIROS LOCAIS”, DIZ CEO DA CHERY AUTO PARA A EUROPA

Negócios Online

2026-05-06 21:06:32

Em entrevista ao Negócios, Zhu Shaodong, vice-presidente Executivo da Chery International e CEO para a região europeia, explica a estratégia multimarca do grupo, o compromisso com a eletrificação e a aposta firme no mercado europeu, independentemente das tarifas. Com 25 anos de presença internacional e operações em mais de 130 países e regiões, a Chery consolidou-se como uma das marcas automóveis chinesas com maior projeção global. Desde o início da sua internacionalização, em 2001 e, ao longo de duas décadas e meia, o grupo percebeu que um único perfil de marca já não bastava para responder à diversidade emocional e funcional dos consumidores globais. “Os clientes de hoje querem mostrar o seu caráter, a sua filosofia, a sua diferença”, sublinha Zhu Shaodong. Foi a partir desta constatação que o grupo estruturou um portefólio multimarca. A Omoda, pensada para a geração mais jovem, aposta numa estética ligada ao mundo digital e aos videojogos. A Jaecoo posiciona-se no segmento “off-road” e de aventura ao ar livre. Estão ambas representadas em Portugal pelo grupo JAP. Já a marca-mãe Chery mantém o ADN familiar - focada na responsabilidade, na segurança e na eficiência económica. “Antes, acreditávamos que alguns modelos podiam satisfazer toda a procura. Hoje percebemos que as pessoas são muito mais exigentes com as suas emoções”, reconhece o executivo em entrevista ao Negócios na sede da empresa em Wuhu (China). Na Europa, esta diferenciação reflete-se também nas preferências regionais: nos mercados da Polónia, Alemanha e República Checa predomina a procura por automóveis de maior dimensão, enquanto Portugal, Espanha e Itália favorecem os modelos compactos. A estratégia passa por adaptar a gama a cada mercado, sem impor um portefólio uniforme a todas as regiões. Eletrificação com baterias em evolução A Chery apresenta-se hoje como um fabricante com uma gama completa de motorizações - motores de combustão interna (ICE), híbridos (HEV), plug-in híbridos (PHEV) e veículos totalmente elétricos (BEV). Para a Europa, o foco está nos PHEV e nos BEV, considerados os mais adequados à procura local e aos objetivos de descarbonização. “A tecnologia de bateria está a evoluir a uma velocidade impressionante”, afirma Zhu Shaodong. O grupo dispõe de uma linha própria de produção de baterias na China e está a investir em capacidade produtiva noutros países. Em paralelo, desenvolve internamente tecnologia de baterias de estado sólido - com progressos que, segundo o executivo, mostram ganhos de eficiência de 40% a 50% face às baterias convencionais. “Esperamos ter produtos semissólidos em fase de testes até ao fim deste ano ou no próximo”, avança. Fabricante chinesa com raízes europeias Para contrariar a perceção de que as marcas chinesas são estranhas ao ecossistema industrial europeu, a Chery investe há anos na sua presença local. O centro de design e engenharia em Munique existe há 18 anos, com equipas experientes que trabalham diretamente para os produtos europeus da marca. Em Espanha, a parceria com a EBRO - uma marca automóvel com história no país - resultou numa “joint venture” que já iniciou a produção local. “Queremos mostrar aos europeus que somos também parceiros locais”, diz Zhu Shaodong. Queremos ser para a Europa o que a Volkswagen é para a China. Zhu Shaodong, vice-presidente executivo da Chery International A fábrica espanhola emprega diretamente mais de 1.200 pessoas, com um impacto económico indireto significativo, e tem o apoio quer do governo espanhol quer das autoridades chinesas, que a consideram um modelo exemplar de cooperação bilateral. O executivo traça um paralelo com o sucesso da Volkswagen na China através das suas “joint ventures”: “Queremos ser para a Europa o que a Volkswagen é para a China - um parceiro que contribui genuinamente para o tecido industrial local.” Investimento de longo prazo, além tarifas Num contexto em que as tensões comerciais entre a China e a União Europeia marcaram os últimos anos, a Chery sempre apostou numa abordagem de longo prazo. “Há três anos já estávamos a negociar a fábrica em Espanha. Há 18 anos instalámos centros de I&D na Europa. A globalização é uma estratégia central da Chery desde 2001”, recorda Zhu Shaodong. Com o entendimento recentemente alcançado entre Bruxelas e Pequim sobre as tarifas aplicáveis aos veículos elétricos chineses, a Chery vê confirmada a viabilidade da sua estratégia. O executivo mostra-se confiante: “Apoiamos fortemente o projeto em Espanha e mantemos o compromisso de investimento a longo prazo. É uma demonstração de confiança de ambas as partes no futuro.” Concorrência pelo preço não é sustentável Questionado sobre a competitividade em preço face à concorrência europeia e às regras de eletrificação da UE, Zhu Shaodong é direto: “A concorrência pelo preço não é um caminho sustentável. O consumidor europeu, com mais de um século de cultura automóvel, é exigente e pragmático. Sabe o que quer e avalia o valor real do que compra.” Os modelos híbridos são hoje os maiores contribuidores para os volumes da marca na Europa. A justificação é simples: comparados a um veículo de combustão equivalente, os PHEV da Chery permitem reduções de consumo que se traduzem em poupanças significativas para o consumidor - com um depósito cheio de 40 a 50 euros em vez dos habituais 90 euros, para distâncias similares. [Consumidor europeu] sabe o que quer e avalia o valor real do que compra. Zhu Shaodong, vice-presidente executivo da Chery International A tecnologia surge também como diferenciador. A Chery apresenta funcionalidades como o estacionamento autónomo - que permite ao condutor sair do veículo em dias de calor intenso e deixar o carro estacionar sozinho, permanecendo no conforto do ar condicionado. “A tecnologia tem de trazer valor real para a vida das pessoas”, conclui Zhu Shaodong. “É isso que nos guia”, remata. Adriano Oliveira aoliveira@netcabo.pt Adriano Oliveira aoliveira@netcabo.pt