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A MEDICALIZAÇÃO EXCESSIVA DO SOFRIMENTO: EIS A RAZÃO DO AUMENTO DE PSICOFÁRMACOS

Público

2026-05-06 21:06:31

Foi notícia um número que impressiona pelas piores razões: cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos são dispensadas diariamente. Outro que me inquieta é o valor da despesa pública anual com os mesmos, que ascende aos 152 milhões de euros. A “normalização” da medicação como solução de base parece que se tornou o caminho a seguir. Mas não é. Como toxicologista, preocupa-me muitíssimo a forma como tratamos o sofrimento psíquico em Portugal. Perante estes dados, a reação instintiva foi procurar explicações na capacidade de se diagnosticar melhor ou na insólita indexação ao aumento do número de turistas. É o sacudir a água do capote. Como é que estes argumentos justificam aumentos, numa década, de 82% e 72% na venda de antidepressivos e antipsicóticos? Devemos antes falar em razões multifatoriais. Desde logo, a “americanização” da medicina: uma cultura em que o desconforto emocional se transforma rapidamente em diagnóstico (alegadamente, bem feito) e este, por sua vez, em prescrição. É algo que, no contexto português, começa a tomar forma. Portugal não é os Estados Unidos. Não há publicidade direta ao consumidor de antidepressivos, não há a mesma pressão da indústria farmacêutica sobre médicos e doentes, e o Serviço Nacional de Saúde continua a ser um sistema regulado, com fortes mecanismos de controlo. Ainda assim, algo está a mudar, e os números mostram-no com clareza. Na psiquiatria, em particular, a esmagadora maioria da literatura científica relevante vem dos Estados Unidos, onde a tradição dominante tende a organizar o sofrimento em categorias diagnósticas (como o DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e a associar diagnósticos a intervenções padronizadas, frequentemente farmacológicas. Porque é que a resposta ao sofrimento mental continua a ser esta? E com riscos toxicológicos? Porque é a solução mais disponível e a mais ensinada nas universidades. Há um “encadeamento automático” (sofrimento mental-diagnóstico-tratamento quase sempre farmacológico) que é aprendido sem, no entanto, se sublinharem suficientemente os limites da medicalização do sistema nervoso central esta é uma área que não tem hoje o mesmo peso epistemológico no currículo académico. Num sistema pressionado, com consultas rápidas e recursos limitados, o medicamento torna-se a solução mais imediata. O médico, confrontado com um doente em sofrimento, sem acesso rápido à psicoterapia e com listas de espera prolongadas, faz o que pode (não necessariamente por convicção): prescreve. Assim, o aumento do consumo de psicofármacos não é apenas um fenómeno clínico. É um reflexo estrutural. Um espelho das limitações do sistema. Quanto aos turistas, raramente contam nesta matéria para estatísticas relevantes. Os dados referem-se a medicamentos prescritos e comparticipados pelo sistema nacional de saúde, e, como tal, dispensados nas farmácias comunitárias. Ora, os turistas, além de procurarem consultas pontuais, tipicamente trazem a medicação do país de origem. É, pois, um argumento sem sustentação, que evita o incómodo e não responsabiliza o sistema nem as práticas clínicas. Nestas notícias ainda surge um aparente enaltecimento da substituição de benzodia-zepinas por antidepressivos. Qual é a base científica que nos diz que os antidepressivos são mais seguros toxicologicamente que os sedativos e hipnóticos clássicos para condições clínicas em que nem sempre são necessários? Estamos a substituir um problema por outro “mais aceitável”? Muda o fármaco, mas não se corrige o problema. Em vez de darmos estas notícias como vitórias a favor do melhor diagnóstico, é importante sabermos que transformar a medicação na resposta padrão para problemas (que são, muitas vezes, mais complexos do que uma alteração neuroquímica) é um erro. A ansiedade, a insónia e a tristeza persistentes podem ter raízes sociais, económicas e relacionais. E nenhuma dessas dimensões se resolve exclusivamente com comprimidos que atuam em órgãos-alvo, como o sistema nervoso central, com risco de toxicidade irreversível. Talvez, por isso, a questão mais importante não seja se estamos a diagnosticar melhor. É outra: estamos a oferecer o suficiente para além da prescrição? Certo infelizmente é que o caminho traçado é o da medicalização excessiva do sofrimento humano. Professor catedrático de Toxicologia e Ciência Forense Ricardo Dinis-Oliveira