ARRANQUE DE 2026 - SNS COM MENOS CIRURGIAS, MENOS CONSULTAS E MAIS TEMPO DE ESPERA
2026-05-06 21:06:31

Ano arranca com menos cirurgias e consultas, e doentes mais tempo à espera Até Fevereiro, com mais médicos, mais enfermeiros e mais trabalho extraordinário, SNS reduziu a resposta assistencial. “É decepcionante”, lamenta o presidente dos administradores hospitalares É um tropeção na actividade assistencial e um balde de água fria naquela que era uma das principais bandeiras deste Governo na área da Saúde: reduzir a espera por cirurgias. Nos primeiros dois meses do ano, o SNS realizou menos consultas nos cuidados primários e nos hospitais, e fez menos intervenções cirúrgicas programadas. Em resultado, há cada vez mais doentes inscritos para cirurgia que já ultrapassaram os tempos recomendados. “É decepcionante”, constata o presidente dos administradores hospitalares. No passado dia 22 de Abril, no Parlamento, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu a quebra da actividade no SNS, mas os números em que se terá baseado ainda não eram conhecidos. Segundo dados agora disponíveis no Portal da Transparência, em Fevereiro deste ano, o SNS realizou 130.439 cirurgias, menos 10.394 (7,4%) do que no mesmo mês do ano passado. Recuando a Fevereiro de 2024, a redução é de 2,2%. Com a redução da actividade cirúrgica, o número de doentes inscritos para cirurgia cresceu e, em consequência, aumentou significativamente a percentagem de doentes à espera de cirurgia, e cujos tempos máximos de resposta garantidos (TMRG) já foram ultrapassados. Assim, em Fevereiro havia 273.871 doentes em lista de espera para cirurgia (mais 1,4% do que no mesmo mês de 2025). Daqueles doentes, 84.593 tinham ultrapassado os TMRG, um agravamento de 15,1% face a Fevereiro de 2025. Com esta deterioração, a percentagem de doentes da lista de inscritos para cirurgia que aguardam dentro dos TMRG baixou para 69,1% em Fevereiro. No mesmo mês de 2025 eram 72,8% e em 2024 totalizavam 71,6%. O combate às listas de espera do SNS foi uma bandeira do actual Governo, que, inclusive, criou programas de melhoria do acesso a cirurgia oncológica e não oncológica, com duração limitada. Esses planos tiveram efeito quando estiveram em vigor, mas não evitaram que os resultados se degradassem. As consultas hospitalares também diminuíram significativamente, em especial as primeiras consultas: nos primeiros dois meses deste ano realizaram-se 650.288 primeiras consultas, menos 19 mil (7,3%) do que no mesmo período de 2025. Olhando ao total de consultas, naqueles meses deste ano realizaram-se 2,42 milhões, menos 90 mil (3,8%) do que no ano anterior. Comparando com o período homólogo de 2024, observa-se uma redução de 4,7% das primeiras consultas de especialidade, mas ainda assim há uma ligeira melhoria no total de consultas hospitalares (0,5%). Nos cuidados de saúde primários também se constata uma redução. Os dados acumulados de Janeiro e Fevereiro deste ano mostram que se realizaram 5,6 milhões de consultas, menos 370 mil do que nos mesmos meses de 2025, representando uma redução de 6,1%. Face a Fevereiro de 2024, a diminuição é de 5,9%. Apesar da quebra na assistência, o SNS conta com mais profissionais do que no passado. Em Fevereiro, os recursos humanos totalizavam 157.094 (mais 2,3% do que em 2025 e mais 4,1% do que em 2024). Ou seja, aumentaram os médicos, aumentaram os enfermeiros, aumentaram as horas de trabalho extraordinário (mais 8,2% face a Fevereiro 2025), mas a produção diminuiu e as listas de espera cresceram. “Redução pontual.” Foi assim que a ministra da Saúde se referiu à quebra da actividade no SNS no início de 2026 face ao ano de 2025, justificando-a com o impacto do “pico da gripe”, que obrigou à “suspensão da actividade programada”. É certo que o pico da gripe neste ano foi mais acentuado do que em anos anteriores, mas ocorreu na última metade do mês de Dezembro de 2025. Tal como o PÚBLICO noticiou, o número de casos começou a diminuir na segunda semana de Janeiro e em Fevereiro a actividade gripal já estava praticamente controlada. Gripe há todos os anos, e não é razão suficiente para justificar a quebra da actividade, diz o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Aliás, se o problema dos internamentos inapropriados que ocupam 14% das camas hospitalares fosse resolvido, o impacto da gripe nem se sentia na produção. Xavier Barreto diz que é “decepcionante ver que praticamente todos os indicadores de desempenho do SNS se degradaram”. “Temos mais recursos humanos, temos mais médicos e temos uma diminuição da actividade, das cirurgias e das consultas”, constata. Além dos internamentos inapropriados, “que urge resolver”, Xavier Barreto avança outros problemas que podem justificar os maus resultados: subfinanciamento das unidades locais de saúde, falta de gestão intermédia nas unidades, contratos programa com os objectivos das unidades de saúde que continuam por assinar, nomeações de pessoas para cargos de administração “sem experiência e sem percurso” no sector. “Acham que ter boas chefias intermédias não tem grande influência nos resultados, mas tem. E ter um conselho de administração com conhecimento e capacidade para mobilizar as unidades em torno de objectivos faz a diferença”, assegura o presidente da APAH. No Parlamento, numa interpelação sobre o SNS, Ana Paula Martins assumiu que, até Fevereiro, “o número total de consultas hospitalares registou uma ligeira diminuição face a 2025”, destacando, contudo, que a actividade se manteve “acima da de 2023”. A governante reconheceu também “uma redução das primeiras consultas e das consultas subsequentes em termos homólogos, bem como uma quebra nas referenciações provenientes dos cuidados primários”. Ao mesmo tempo que “aumentaram os pedidos em lista de espera para consulta”, o que, no seu entender, se deve a uma “maior pressão sobre o sistema, apesar de uma ligeira quebra pontual em Fevereiro”. Ainda assim, a ministra referiu que os resultados são melhores quando comparados com a actividade realizada em 2023. “Temos mais consultas, mais estratégias e maior capacidade de resposta global”, afirmou Ana Paula Martins. Os dados disponíveis apontam melhorias na afluência às urgências (reduziu 10,3%), nos recursos humanos (mais 2,4% tanto de médicos como de enfermeiros) e nos internamentos (menos 6,6%). Já na perspectiva económico-financeira, segundo dados do site da Administração Central do Sistema de Saúde, os resultados também deixam a desejar. Em Janeiro e Fevereiro, as unidades locais de saúde acumularam resultados operacionais negativos de 504,7 milhões de euros, um agravamento de 18,9% face ao mesmo período de 2025. A dívida vencida a fornecedores também aumentou para 862,4 milhões de euros (mais 13,8%). Uma parte terá ficado saldada com a injecção financeira de 1230 milhões de euros que o Governo fez no SNS no final de Março. Sociedade, 13 Temos mais recursos humanos, mais médicos e temos uma diminuição das cirurgias e das consultas Xavier Barreto Presidente da APAH Nos primeiros dois meses deste ano,realizaram-se 650.288 primeiras consultas, menos 19 mil (7,3%) do que no mesmo período de 2025 Inês Schreck