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ENFERMEIROS: GERIR CUIDADOS, RESPONDER À COMUNIDADE

Diário de Coimbra

2026-05-06 21:06:30

A10.a edição do Barómetro de Internamentos Sociais deixa um sinal claro: entre março de 2025 e março de 2026, os hospitais do SNS registaram 439.871 dias de internamentos inapropriados, com uma demora média de 157 dias por episódio. Em março de 2026, 2.807 pessoas permaneciam internadas após alta clínica, ocupando 13,9% das camas do SNS e representando um custo anual estimado de 351 milhões de euros. Estes números mostram que mui-tos problemas que chegam ao hospital não se resolvem apenas dentro do hospital. Têm origem na fragilidade das respostas sociais, na falta de vagas em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, na insuficiência de cuidados continuados, na dependência, na solidão e na dificuldade de articulação entre saúde, segurança social, autarquias, IPSS e famílias. E aqui que os enfermeiros são essenciais. Pela sua proximidade aos utentes, famílias e instituições, conseguem identificar necessidades, antecipar riscos, planear altas, gerir doença crónica, prevenir complicações e construir pontes entre sectores. A gestão de projectos idênticos e o papel da enfermagem não é burocracia: é transformar problemas reais em respostas organizadas, mensuráveis e sustentáveis. O projecto “Hospital no Domicílio Sénior”, desenvolvido na região de Leiria, é um bom exemplo. Ao levar cuidados de proximidade a idosos institucionalizados, pretende evitar deslocações desnecessárias ao serviço de urgência, apoiar tecnicamente as equipas das respostas sociais e melhorar a continuidade dos cuidados. Segundo informação divulgada em 2025, no primeiro trimestre foram referenciados 53 idosos e 37 evitaram deslocação ao hospital. Em 2026, a iniciativa foi alargada, abrangendo 17 lares e inserindo-se numa região com cerca de 267 respostas sociais e aproximadamente 15 mil utentes. Estes projectos exigem liderança clínica, avaliação de resultados, protocolos, formação, comunicação e trabalho em rede. São competências onde a enfermagem tem uma palavra determinante. O Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, tem sublinhado a importância dos enfermeiros no sector social, nomeadamente em ERPI, cuidados continuados e apoio domiciliário, defendendo maior reconhecimento, melhores condições de exercício e cuidados seguros para idosos e pessoas dependentes. Num país envelhecido, com hospitais pressionados e respostas sociais sobrecarregadas, investir nos enfermeiros é investir numa solução concreta. Não basta abrir camas; é necessário condicionar internamentos evitáveis, preparar regressos seguros à comunidade e garantir acompanhamento onde as pessoas vivem. A saúde do futuro será mais comunitária, integrada e próxima. E nessa transformação, os enfermeiros não são apenas executores de cuidados: são gestores de mudança, líderes de proximidade e agentes fundamentais de coesão social. Aos decisores políticos, particularmente, dos Ministérios da Saúde e da Segurança Social, cabe agilizar soluções que promovam ganhos em saúde, segurança e qualidade nas prestações de cuidados, bem como, uma mudança de paradigma nesta área. DANIEL CAÇÃO SECçâO REGIONAL DO CENTRO DA ORDEM DOS ENFERMEIROS DANIEL CAÇÃO