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ALGUMA VEZ VAMOS SAIR DA RODINHA DO HAMSTER?

Observador Online

2026-05-06 21:06:17

No "Realpolitik", Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro falam sobre os planos para a Defesa, sobre o pacto na Saúde e sobre o futuro do pacote laboral. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro. Eu sou o Sérgio José Pinto. E hoje vamos falar sobre dois pactos ou dois possíveis pactos: o possível pacto na saúde, que está a ser promovido pelo presidente da República, e o possível pacto na reforma laboral. Hoje houve novidades da parte da CIP, já lá vamos, mas antes, Sérgio, podíamos conversar um pouco sobre defesa. Lá fora, Donald Trump anunciou que vai retirar 5 mil soldados da base dos Estados Unidos na Alemanha e está a ameaçar fazer o mesmo noutros países europeus. Cá dentro, a AD apresentou um programa de voluntariado militar em que um jovenzinho recebe cerca de EUR 400 e a carta de condução, e em troca, aceita passar entre três e seis semanas num quartel qualquer. Imagino que é transformar-se num ranger em três a seis semanas. Dá-me a ideia que em Portugal nenhum responsável político tem a coragem de nos explicar que as coisas vão ter de mudar muito. Vamos ter de investir muito mais em defesa, vamos ter muito mais gente nas Forças Armadas. Parece-me a mim, mas não sei como é que tu olhas para isto tudo. Eu tenho uma opinião a esse respeito, mas estou disponível para evoluir e mudar a minha opinião se for confrontado com argumentos persuasivos, porque, como é evidente, não sou especialista em questões militares. Agora, o que me parece é que nas atuais condições em que a guerra é feita, não servem para nada mancebos com quatro ou seis semanas de internamento no quartel de Abrantes. É a ideia que eu tenho, mas posso estar enganado. Se calhar, saem dali diretos comandar drones para as distantes. Não julgo que isso faça nenhum sentido. Já antes de termos observado as condições da guerra atual, tínhamos consciência que uma coisa era a efetividade de um exército profissional comparado com um exército assente na conscrição, no serviço militar obrigatório. Já se tinham as maiores dúvidas sobre a utilidade do serviço militar obrigatório, já se invocavam argumentos atendíveis, mas que não tinham tanto a ver com eficácia militar, tinham sobretudo a ver com formação do espírito cívico, a ideia de incutir nos jovens uma ideia de serviço ao país. Mas diz-me só uma coisa: tu nos teus tempos da JS, apanhaste essa guerra do fim do serviço militar ou não? Se queres que diga com franqueza, eu acho que ainda apanhei, mas ela é anterior, ou seja, aos 16 anos já havia essa coisa. Mas ainda havia serviço militar, porque eu lembro-me perfeitamente de ter feito aquela inspeção, salvo erro era assim, se não era inspeção tinha outro nome. Com juramento de bandeira e não sei o quê? Não, nada disso. Fui para lá fazer uns psicotécnicos. Ah, foi? Não fizeste juramento de bandeira? Não. Eu nunca precisei de serviço militar, estava na faculdade. No meu tempo, quase toda a gente era dispensada de serviço militar. De qualquer forma, tu achas que um eventual regresso do serviço militar obrigatório não resolve os problemas da guerra moderna. Da guerra, não, mas podia ter outras vantagens. Por exemplo, eu acho muito interessante a ideia dos jovens de todas as condições sociais durante um certo período conviverem. Acho que sobretudo numa sociedade tão dual como a nossa, que experiência de Portugal, do que nós somos como sociedade e como comunidade, podemos nós hoje ter com a proliferação dos colégios privados, das escolas públicas. Portanto, isso seria mais uma experiência social do que propriamente militar. Social e cívica. Mas eu não estou a defender o SMO. Estou a dizer que há argumentos que eu acho que devem ser considerados na discussão. Uma coisa era a discussão que se tinha há 30 anos sobre o SMO, e outra é aquela que nós podemos ter hoje. E também temos que perceber o que é que aconteceu neste período. Também fomos testemunhas das transformações na sociedade portuguesa. Portanto, eu acho que esse convívio de pessoas de diferentes estratos sociais e experiências de vida tem vantagens para estreitar os laços entre todos como membros de uma mesma comunidade. Apesar dos diferentes destinos individuais, existe sempre um destino coletivo de que todos somos parte. Mas lá está. Do ponto de vista militar, sinceramente, não percebo. Por outro lado, as Forças Armadas oferecem hoje em dia oportunidades interessantes, porque como elas próprias têm que se sofisticar, precisam de um tipo de pessoas, de quadros, com um nível de preparação completamente diferente e, portanto, julgo que pessoas com vocação para certas áreas tecnológicas encontrarão nas Forças Armadas um nicho aliciante. Agora, não vejo o que é que isso tem a ver com a carta de condução, mas isso vamos aguardar. É mais uma experiência social, para utilizar a tua . Sim. Vai para as Forças Armadas e volta para casa ao volante. Eu estou a imaginarOs quartéis com aqueles pinos para andarem a fazer ali manobra, a verem como é que se estaciona. Parece uma ideia. Eu acho que devemos dar o benefício da dúvida a estas empresas social. A sério? Que generoso. Eu acho que sim, por que não? Quer dizer, ao menos estão a tentar fazer alguma coisa. Mas não te parece que isto é um pobre substituto para a conversa que deveríamos estar a ter sobre o investimento que toda a nação tem de fazer em defesa, seja em dinheiro do orçamento, seja em mão de obra, em pessoas. Acho também, de fato, é preciso que as nossas Forças Armadas consigam atrair, como tu dizias, pessoas mais sofisticadas, que não sejam seduzidas apenas pela extraordinária oferta de uma carta de condução, e que possam ver ali uma carreira que lhes permita pôr em prática as coisas que as apaixonam em termos de tecnologia e de novas formas de fazer a guerra ou de preparar a paz. Nós tivemos o Gouveia e Melo no começo da campanha presidencial a falar da conversa dos tanques e da manteiga, mas depois rapidamente percebeu que era capaz de perder votos com aquilo, mal ele sabia, e começou a dizer que não havia nenhuma escolha a fazer entre os tanques e a manteiga, os tanques era para dar manteiga, a manteiga era para dar tanques, tudo aquilo era maravilhoso e não havia nenhum sacrifício a fazer. Mas não está a haver uma conversa sobre, por exemplo, para onde é que o dinheiro tem de ir. Eu até tenho ideia de que tu não alinhas nesta ideia catastrofista de que por termos de gastar, imagina, 5% em defesa, que isso implica: "Meu Deus, lá se vai o estado social." À vida. Acho que tu olhas para isso de outra maneira, não é? Acho que o investimento em defesa é necessário e acho que o investimento em defesa à escala europeia pode aproximar-se daquilo que foi historicamente o Plano Marshall, quer dizer, é um fluxo brutal de dinheiro na economia, em setores de ponta, tecnologicamente muito avançados, que podem criar uma oportunidade de emprego, atividade económica e prosperidade para profissões altamente qualificadas. Acredito nisso. Mas tu dizes: "Não achas que isso é um fraco substituto?" Pode ser verdade, acho que quase todos os temas nacionais são um fraco substituto para o que está a acontecer no mundo. Nós estamos num mundo calhonas coincidirmos com estas profundas transformações em curso. E nós andamos sempre aqui à roda dos nossos temas, que também é uma fraca substituição. Parece que aceitamos que somos espectadores dos grandes temas mundiais. Na qualidade de espectador, o que é que nos interessa estar aqui na bancada a debater os grandes temas de um mundo que está da forma da transição. Sim, mas a vidinha também é importante, mas antes de irmos à vidinha- Pronto, também a vidinha é importante, mas a gente tem que conviver sempre nas fracas substituições. Com certeza, mas antes de irmos à vidinha, mas podemos ir um bocadinho lá para fora. Mas deixa-me dizer-te um bocadinho, ainda sobre a vidinha, tentar levar a vidinha para uma outra escala. Há tempos ouvi um comentador dizer o seguinte sobre o que estava a acontecer na Alemanha. A Alemanha tem um problema de sobreprodução na indústria automóvel. Não é verdade? Tem dificuldade em escoar e, portanto, está a diversificar a sua produção em muitas instalações, antes dedicadas à produção de veículos para a vida civil, agora estão sob a alçada da Rheinmetall a produzir tanques Leopard. E dizia este comentador, certamente mais conhecedor do que este teu criado destes temas, que apesar de estarmos a constatar a diminuição da importância e papel dos blindados nos atuais teatros de operações da guerra moderna, nós estamos a produzir tanques Leopard em grande quantidade. Por quê? Porque é o que a Rheinmetall sabe fazer. Portanto, toca produzir blindados, ainda que nós saibamos que um blindado custa não sei quantos milhões, e de repente aparece um drone que custou cinco tostões, e lá foi o nosso Leopard. E, portanto, é um debate que tem que ser feito. Como é que se organiza esse investimento na defesa, como é que ele se articula em termos europeus, como é que se cria um mercado interno de defesa, porque nós não podemos ficar cativos das grandes empresas de defesa que são praticamente monopolistas ao nível de cada Estado. É preciso que exista um ambiente competitivo para os preços descerem, porque senão é incomportável. Sim, e em Portugal estamos a ter e vamos continuar a ter uma discussão sobre onde é que vamos comprar os nossos novos caças. Exatamente. Se é aos Estados Unidos ou se é algures na Europa. Porque esta conversa sobre defesa partiu da decisão dos Estados Unidos de retirarem 5 mil tropas. Eu acho que o total é de tropas americanas na Alemanha, ou é 20 ou é 30. Não tenho a certeza e não consegui ir agora aqui ao Google, peço desculpa. Mas uma saída muito substancial, com ameaças de saírem de outras bases na Europa. Sempre esta ideia do Donald Trump, é assim hoje, para a semana pode não ser. Mas vamos admitir que, de facto, os Estados Unidos começam a retirar, aos poucos, tropas de bases europeias. Na tua cabeça, quem é queQuem é que tem mais a perder com isto? São os europeus ou são os americanos? Perde o Ocidente, porque isso é mais um momento da desarticulação da NATO e, portanto, se há algo que contribui para o poder americano global é o seu sistema de alianças e a NATO é uma peça fundamental desse sistema de alianças. A desarticulação da NATO e a destruição da NATO como medidas dessa natureza e a criação de um ambiente de desconfiança entre aliados. Já havia incerteza se os Estados Unidos apareciam, se Putin se lembrasse de uma aventura nos Países Bálticos. Imagine-se, neste quadro de decisões teatrais, para reagir a um discurso qualquer do senhor Merz, que o presidente americano não terá apreciado. O mundo contempla o Ocidente cada vez com menos respeito. Com menos respeito, também com menos temor. E, portanto, nós estamos a mudar para um mundo realmente multipolar. E se calhar estamos a caminho, realmente, de uma relação outra vez bipolar entre os Estados Unidos e a China, numa renovação do outro período histórico, desejavelmente com menos tensões e menos conflitos. O Ocidente transformou-se numa entidade estabilizadora do mundo. E o mundo, se calhar, está a ficar saturado da liderança ocidental. Antigamente convivíamos com uma realidade que sempre existiu, que era os double standards. Quando se falava em double standards, pelo menos reconhecia-se que existiam standards. Agora já não há double standards, porque já não há standards. O problema acabou. Ficou resolvido. Ficou resolvido, foi bom. Sim, mas realmente tens um problema de estar a criar dois Occidentes. Duas visões muito diferentes daquilo que deve ser o mundo ocidental. Sim, o antigo mundo ocidental são os Estados Unidos. A Europa, por enquanto, tem tido uma preocupação. Eu acho que o Macron é um presidente com sentido da história, que é uma coisa fundamental. É um homem de Estado, é um homem com sentido da história. E acho que faltam na Europa homens com sentido da história. Ele tem perfeita consciência de que o futuro da Europa depende da capacidade de nos autonomizarmos em relação aos Estados Unidos e está a tentar, com outros líderes europeus, mostrar ao mundo que a Europa e os Estados Unidos não são a mesma coisa. No atual quadro do desastre da guerra do Irão, é indispensável que a Europa se afirme como uma via diferente para a organização das relações internacionais. Um dos problemas é que, dando de barato que o Macron sabe o que está a fazer e tem um caminho, não tem tempo. Porque as presidenciais em França são em 2027. Exato. E, portanto, os franceses vão ter que escolher entre o Mélenchon, o Attal, o Bardella. Presumo que surjam mais umas figuras, imagino que surja ali uma figura à direita, eventualmente, os republicanos, não sei, mas não se vê que haja ali também nada de muito espetacular. Aqueles que têm os pés bem assentes na realidade, ou seja, o centro-esquerda e o centro-direita, ninguém os quer ouvir, porque a realidade é dura de contemplar. Portanto, mais vale a polarização, escolher os milagreiros, quer de extrema-esquerda, quer de extrema-direita, e se isso acontecer, será uma tragédia para todos nós. Mais uma. Vamos parar só uns minutos e já voltamos para continuar a falar da vidinha. Bem-vindos de volta ao "Realpolitik". Sérgio, está toda a gente a falar do pacto da saúde. O presidente da República quer que o PSD, o PS e o Chega consigam fazer um acordo para os próximos anos, em que todos queiram a mesma coisa. Nomeou o Adalberto Campos Fernandes, que foi ministro da Saúde e de quem, pelos vistos, muita gente no PS não gosta, para tentar pôr toda esta gente a conversar. Tem aqui três dúvidas, parece-me. A primeira é se é isto que um presidente da República deve fazer. Segunda dúvida é a de saber se a solução para os problemas da saúde é um pacto. E terceira dúvida é a de saber se o PSD, o PS e o Chega algum dia poderão estar de acordo sobre o caminho a seguir, tendo em conta que são partidos diferentes, com opiniões diferentes sobre como é que se resolvem estes problemas. Ilumina-me. Evidentemente que uma iniciativa desta natureza tomada pelo Presidente da República, até pelo seu caráter inédito, acentua a dimensão presidencial do nosso sistema semipresidencialista, o que não é em si mesmo um mal, do meu ponto de vista. Acho que o presidente está perfeitamente dentro das suas atribuições e competênciasSuscitando uma discussão desta natureza sobre um plano para a saúde, acho que esteve bem na escolha do Adalberto Campos Fernandes, pessoa muito conhecedora do Serviço Nacional de Saúde e da situação dos cuidados de saúde em Portugal, que foi ministro e que pode contribuir a partir de uma posição de uma certa neutralidade, contribuir para explicar aos partidos a realidade, ou seja, colocar bem os termos das questões que neste momento se põem ao sistema, quais são os grandes centros de ineficiência, os grandes problemas. São essas matérias que têm que ser enfrentadas e resolvidas, e é sobre elas que nós vamos discutir aqui as soluções possíveis. Focar exatamente onde é que tem que haver acordo, em vez de estarem a discutir. Exatamente. A situação da semana passada. O nosso debate está muito contaminado pelas dificuldades diárias que os noticiários nos vão dando conta. Eu acho que o presidente está a criar aqui um território de discussão fora dos holofotes, espero eu, entre os partidos, que é organizado e estruturado por alguém que conhece o setor. O debate não pode ser uma cacofonia inútil, tem que ser construtivo e tem que conduzir a um resultado. E talvez se possa organizar, pelo menos, uma abordagem estruturada da realidade da situação da saúde em Portugal, sobre a qual os partidos se vão pronunciando e discutindo opções e alternativas. Eu acho que isso é útil e pode ser que, independentemente do resultado concreto que daqui venha a sair, desta experiência de diálogo sobre uma área central para o país, porque há coisas que o Estado não pode resolver, esta tem que resolver. Tem que resolver o problema da ineficiência do sistema, que é um salvador de recursos nacionais e que não presta os cuidados que os portugueses legitimamente aspiram, tendo em conta os impostos que pagam. O SNS, neste momento, consome toda a receita de IRS do país. Não sei como é que é possível conceber que continue a sua trajetória de expansão. Sempre que somos confrontados com problemas na área da manutenção do equilíbrio orçamental e derrapagens, nem é preciso perguntar onde é que está a derrapagem. Já se sabe onde é que está a máquina de derrapagens. São os dermatologistas. É o Sistema Nacional de Saúde e os eventos extraordinários. Eu encaro com otimismo e tudo aquilo que contribua para que no nosso país prevaleça, aos poucos, uma cultura de diálogo e compromisso. Em vez de cada um aspirar a deslumbrar o país com as suas posições que são tão boas e resplandecentes que são inegociáveis. E nós vivemos neste impasse entre soluções que não podem ser mitigadas, alteradas, moderadas. É bom que exista uma cultura de diálogo e uma cultura de compromisso. E como é que tu vês esta decisão, que foi tomada conscientemente pelo Presidente da República e que foi articulada pelo Adalberto Campos Fernandes, de: "Sim, claro que nesta conversa tem de estar o Chega. É óbvio que esta conversa não pode ser só entre o PSD e o PS e tem de incluir o Chega." Não me passaria pela cabeça fazer isto de outra maneira. Eu compreendo que o Presidente da República, tendo em conta que é ele o agente desta iniciativa, a iniciativa partiu dele, não considere que possa excluir um partido de que gosta menos da discussão sobre o Serviço Nacional de Saúde. Não, mas eu não estava a dizer ele excluir o PS. Era uma brincadeira com o partido que gosta menos. Desculpa lá. Foi um equívoco. Desculpa lá. Mas no fundo, o Presidente da República não está a passar a mensagem de que o chamado não é não, em sentido lato, deve ser ultrapassado e de que o Chega tem de passar a participar e a estar sentado nas mesas em que se fala sobre os grandes temas? O Chega já está sentado nessas mesas. Eu não estou a dizer que discorde. Ainda agora, a última vez que o Chega sentou à mesa, cozinharam uma lei da nacionalidade que se prepara para chumbar no Tribunal Constitucional. Sempre que o Chega senta à mesa, o cozinhado sai de excelência, mas vamos lá ver o que é que vai acontecer agora no Serviço Nacional de Saúde. O que eu tenho ouvido da parte dos deputados sobre o Serviço Nacional de Saúde é a habitual demagogia que se espera daquele partido. Mas também não me parece que seja má ideia tentar trazer o Chega a uma discussão mais qualificada sobre os desafios. Admitindo que o Chega tenha interesse nisso, porque na ótica, na mundividência do ChegaAs dificuldades do país são resultado de um conluio maléfico, doloso e antigo entre o PS e o PSD para arruinar Portugal. Infelizmente, verificou-se o advento histórico do partido Chega, que substituindo não só os partidos, como o próprio regime, vai conduzir-nos a um amanhã que canta ainda melhor que aquele que o PCP prometia naqueles anos da dupla eleição. Não sei se é do interesse do Chega envolver-se nos debates difíceis, nas soluções polémicas, mas às vezes necessárias, nos compromissos, nos trade-offs de que a política responsável vive. Não sei se desejam enredar-se nisso, mas se desejasse participar nessa discussão, eu ficaria satisfeito que isso acontecesse, porque uma das soluções para o fenômeno Chega seria a sua normalização. Deixar de embirrar com a Constituição, deixar de atacar os partidos, deixar de atacar os políticos, deixar de atacar os imigrantes, deixar de inventar problemas onde eles não existem, de iludir as questões essenciais, de pretender o melhor a tudo em dois mundos, ser mais socialista que o PS na área da antecipação das reformas. Para citar Passos Coelho, que ontem falou finalmente sobre a questão. Finalmente, não. Ele não é obrigado a estar a falar todos os dias, mas foi falar com alunos numa universidade e terá dito que a proposta de redução da idade da reforma, apresentada pelo Chega como contrapartida para uma negociação da reforma laboral, era o Chega a ser mais socialista do que os socialistas. Os socialistas fazem contas. Os socialistas têm noção de que isso é impossível. Nós lidamos com um dilema impossível, que vamos ter que resolver da melhor maneira possível. E eu acho que a solução para os problemas, já parece uma coisa obsessiva. Não há solução para um conjunto de problemas nacionais, entre os quais o problema das reformas, que não passe pelo crescimento da economia, pelo aumento da produtividade, pela criação de um ambiente econômico-social, com os incentivos certos para que esses admiráveis resultados se possam produzir. Fora disso, só resta fatores de sustentabilidade que vão comendo, vão devorando a expectativa de uma reforma digna e as pessoas vão sentir que passam a vida inteira a fazer descontos e depois o sistema não comporta mais do que uma cobertura do salário médio de uma vida de trabalho de 60, 50, 40. Não é possível. Isto é uma quebra do contrato social, que não é o resultado da maldade dos governos, mas da involução demográfica do país, da mediocridade do desempenho econômico do país e de condições irrepetíveis que existiam nos anos 70 e 80 na Europa e nos anos 60, de crescimento econômico, população jovem, que já não se verificam. Na realidade, aquilo que nós estamos a fazer para manter o sistema minimamente a funcionar, para haver alguma coisa que as pessoas possam receber quando se reformam, nós não estamos apenas a aumentar a idade da reforma. O Chega está a se esquecer de outro ponto, é que quase a cada segundo que passa, o dinheiro que as pessoas vão receber quando lá chegarem, é muito menor. Portanto, o ponto aqui nem é: reformam-se mais tarde e recebem o mesmo. Não. Reformam-se mais tarde e recebem menos. Neste momento, já é assustadora a percentagem do último salário que as pessoas recebem chegando à situação de pensionistas. E portanto, o Chega está a olhar para um dos pontos, acho que era o dia em que eles dirão que todas as reformas têm que aumentar. Todas. Que já é um pouquinho um subtexto do discurso do Chega. Pois, nós realmente sobre os factos costumamos estar de acordo. Fizeste uma descrição das coisas como elas são e só falta acrescentar que para moderar a degradação das pensões, são necessárias transferências do Orçamento de Estado. E como os recursos do Orçamento de Estado são sustentados pelos impostos, a solução é sempre a mesma em Portugal: aumentar a carga fiscal. A carga fiscal é inimiga do tal sistema de incentivos que permite ao país sair da cepa torta. É a rodinha do hamster. É a rodinha do hamster, só que a rodinha do hamster não se mexe. E esta é uma roda que vai ladeira abaixo. É a grande diferença com o hamster coitado, todo desorientado lá dentro. Há umas competições na Irlanda ou na Escócia, em que tu estás dentro de uma bola e vais pelo onde tem a baixa, levar pancada de todos os lados. Se chegarmos à falésia da Costa da Caparica e dares um pontapé no hamster e na roda e eles irem projetados em direção ao oceano. Por falar em rodinha do hamster, a rodinha do hamster da concertação social está há vários meses ali, parece que não sai do sítio. Nós vamos ter uma reunião suposta de radeira, a última. É sempre a última a de radeira, mas pronto. Reunião da Segurança Social na quinta-feira. Hoje, quarta-feira de manhã, a CIP deu uma conferência de imprensa. A CIP, portanto, os patrões, deu uma conferência de imprensa em que cedeu em dois pontos importantes, dois dos pontos que estavam a impedir um acordo.Prescinde da questão da não reintegração de um trabalhador após um despedimento ilícito, seria sempre decidido por um tribunal, mas prescinde dessa hipótese de alargar esta possibilidade de não reintegração que hoje em dia já existe em alguns casos, e também cede na questão do outsourcing, portanto, na capacidade de, na sequência de um despedimento, haver uma contratação por outsourcing de determinados- E aparentemente também do banco de horas, ouvimos agora no noticiário. Eu penso que no banco de horas, o ponto da CIP é o de que, na realidade, eles e a UGT pensam a mesma coisa e que há ali uma questão retórica. Mas isto volta a trazer a possibilidade de um acordo na quinta-feira, que não sabemos se vai acontecer ou não. Com certeza que a UGT pode sempre dizer que não. Agora, a dada altura, será que estas mudanças no pacote laboral são suficientes para incentivar o aumento da produtividade de que tu falavas? Presumimos que se as entidades patronais estão de acordo com o que sair dali é porque acham que é uma melhoria. Senão seriam elas a não querer avançar com o acordo. Pois, eu acho que se tem sobrevalorizado o papel e a importância da legislação laboral no que toca aos seus impactos na produtividade e na competitividade da economia portuguesa. Mas algum certamente terá. E nós estamos a discutir este tema em cima do acontecimento, ou seja, acabámos de saber. Sim, exato. Só com estes caveats todos. Nós agora precisávamos de uma revisão da matéria dada por parte dos principais protagonistas, que nos esclarecessem se o governo falou com as centrais, com a CIP, ou se não falou. Porque o governo também tem o direito de considerar que as soluções da CIP podem esvaziar de conteúdo, significado e interesse todo o combate político que está a travar. Também não sabemos o que a UGT tem a dizer sobre isto. E eu continuo a dizer o que ambos temos dito: é desejável um compromisso, é desejável um acordo. Será sempre melhor do que aquele que será obtido no Parlamento, julgo eu. Até porque tudo indica que no Parlamento não vai haver acordo nenhum. Parece-me impossível. Eu bem sei que André Ventura não terá nenhum problema em mudar de opinião de terça para quarta-feira. Não terá nenhum problema com isso, mas eu realmente não vejo o que é que possa sair dali de útil, de um diálogo com o Chega sobre revisão laboral. Parece que não há ali consistência nenhuma. E suspeito que seria especialmente perigoso para o PS, porque o Chega iria colocar-se na posição de ser ele o grande defensor daquilo que as centrais sindicais e os sindicatos estão a defender. O Chega tem desde sempre a ambição de entrar no mundo sindical. Fez pelo menos duas investidas fracassadas. Fracassadas também porque fazer uma coisa dessas implica trabalho, paciência e persistência, que são coisas que não existem no Chega e não basta fazer uma proclamação e um discurso para conseguir de repente controlar não sei quantos sindicatos, não é assim que as coisas funcionam. Mas eu suspeito que o Chega aproveitaria esta oportunidade para, pondo-se o PS de lado depois de um chumbo por parte da UGT, ser o Chega a apresentar-se como: "Não, eu é que sou o novo representante dos trabalhadores. Esqueçam lá o PS." Mas repara que também há outro risco para o PS. É o de ficar a ideia de que o PS é o partido da inércia, ou seja, é o partido que, por definição, é contra qualquer reforma. E que é um partido que tem uma filosofia ou uma ideologia que fundamentalmente consiste em maximizar a arrecadação de impostos para depois derramar através de apoios, subsídios, programas, planificações, organizações, discriminações nos benefícios fiscais para os que fazem as coisas boas. Essa ideia do PS como partido que é por definição, vocação e escolha, o partido que é contra todas as mudanças, também não é bom para o Partido Socialista. O Partido Socialista também tem que disputar o centro político, toda esta parte significativa do país, que não está só no centro, aliás, provavelmente até uma parte importante dos polos políticos, mas que não se resigna, que está farta, que está cansada deste desempenho modesto da economia, que não cresce, das oportunidades que não existem, dos salários que não crescem, dos impostos que não baixam, das casas que já não podemos comprar, qualquer dia não podemos comprar automóveis. Que vida é esta? Se o que o PS tem para dizer ao país é: "Vamos já criar aqui mais um fundo de apoio à aquisição, não sei o quê." O grande ponto dos últimos dias do PS foi novamente uma medida da qual tu és muito crítico, que é do IVA zero no cabaz alimentar. Eu não sou crítico, eu acho é que a Alemanha está neste momento em pé de vento por causa do IVA que está nos 19. Nós vivemos com o IVA em 23, somos muito mais pobres que os alemães.Eu acho que a generalidade dos impostos é uma fábrica de eleitores do Chega. Ninguém está bem, ninguém está contente. Quem paga IRS não está contente. Uma das grandes reivindicações do patronato é a redução do IRS, porque diz que é impossível aumentar os trabalhadores e depois ver o Estado absorver uma parte desproporcionada do aumento. O patronato está mais preocupado com o IRS do que com o IRC. Mas, de facto, é penoso quando tu falas com alguém que vai ter um aumento salarial e quando dizes a essa pessoa qual é o aumento bruto, portanto, qual é o aumento antes de impostos, e depois qual é o aumento líquido depois de impostos. No fundo, quem é aumentado é sempre o Estado, mas vale avisar o Estado: "Está, vais ser aumentado." Parece uma anedota. É verdade. Eu acho que cada vez que uma empresa faz um aumento devia receber um telefonema do ministro das Finanças a agradecer. "Olhe, muito obrigado por mais este contributo." Eu pergunto: um compromisso nacional, um pacto nacional. Nós só podemos ter margem de manobra para agir na área fiscal se nós resolvermos os buracos sem fundo, ou seja, os focos de ineficiência dos subsistemas públicos. Por isso é que a questão da saúde é tão importante, não só porque o serviço é insuficiente para as expectativas legítimas dos portugueses, mas também porque é insustentável. O custo do sistema tal como está não consente também mexidas na política fiscal. Enfim, vamos ver. Nós voltamos na próxima quarta-feira, em direto ao meio-dia e em podcast. Vamos ver se nessa altura já conseguimos sair da rodinha do hamster. Sérgio, até para a semana. Adeus, Miguel. Miguel Pinheiro