CONSUMO DE PSICOFÁRMACOS ATINGE MÁXIMO EM 2025 EM PORTUGAL
2026-05-06 21:06:13

Estudo Cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos foram dispensadas por dia em 2025 em Portugal continental, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década Em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu 82% e 72%, respetivamente, enquanto as benzodiazepinas (ansiolíticos, sedativos e hipnóticos) registaram uma queda de 6,9%, revelam os dados avançados pela Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed). Especialistas em saúde mental apontam como explicações para este aumento o maior diagnóstico e o acesso mais alargado ao tratamento, a substituição progressiva das benzodiazepinas por antidepressivos e antipsicóticos, bem como fatores como o aumento de residentes e turistas e as dificuldades no acesso à psicoterapia. Os dados dizem respeito a medicamentos prescritos e comparticipados, dispensados nas farmácias comunitárias entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025, período em que as embalagens de psicofármacos aumentaram de 21,6 milhões para cerca de 29,4 milhões (+36%). Este aumento teve impacto nos encargos do Serviço Nacional de Saúde, que subiram de 123,1 milhões de euros para 156,6 milhões (+24%). Os antidepressivos foram a classe com maior crescimento, passando de cerca de 7,6 milhões de embalagens para perto de 13,8 milhões (+82%). A despesa associada aumentou de 33,7 milhões de euros para 63,6 milhões (+89%). O consumo de antipsicóticos, utilizados sobretudo no tratamento de perturbações como esquizofrenia e transtorno bipolar, também aumentou de cerca de 3,2 milhões de embalagens, para 5,5 milhões (+72%), mas a despesa pública baixou de 68,8 milhões de euros para 65,7 milhões (-4,5%). Já as benzodiazepinas registaram uma descida, passando de cerca de 10,8 milhões de embalagens para 10,1 milhões (-6,9%). Apesar da redução no consumo, os encargos aumentaram de 20,6 milhões para 23,4 milhões. Num comentário aos dados, a psiquiatra Ana Matos Pires, da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, afirmou que o aumento da prescrição de psicofármacos “é sempre um indicador” de que pode haver “mais pessoas em sofrimento”, mas também que se está “a diagnosticar e a tratar a doença mental grave mais atempadamente. “Claro que nunca é bom que haja doença mental grave, mas é muito pior que ela exista e não seja tratada”, sublinhou, ressalvando que os antidepressivos não se restringem à depressão, sendo também utilizados em perturbações como ansiedade grave, perturbação obsessivo-compulsiva e dor crónica. Ana Matos Pires destacou ainda como “boa notícia” a descida da prescrição de benzodiazepinas devido ao risco de dependência. “Estes dados descansam-me porque aquilo que era, e é, uma preocupação de saúde pública, a grande prescrição de benzodiazepinas, está a baixar”, afirmou. No seu entender, os dados também refletem maior consciencialização para a doença mental grave e uma procura mais precoce de ajuda, associada à reforma dos ser-viços e à expansão de equipas comunitárias de saúde mental, que “apanham as pessoas mais rapidamente”. O presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Albino Oliveira-Maia defendeu, por seu turno, que os dados devem ser analisados, tendo em conta fatores como alterações demográficas e a inflação. O psiquiatra e diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud afirmou que, com o aumento de residentes e turistas, é de esperar maior necessidade de cuidados, refletindo-se na venda de medicamentos, incluindo psicofármacos. Considerou ainda que parte do aumento pode resultar de substituições terapêuticas. “Há uma tendência crescente de evitar estes medicamentos”, disse, explicando que alguns antidepressivos e antipsicóticos podem ser utilizados em doses baixas para tratar insónia. Também o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Miguel Ricou, defendeu um maior investimento em psicoterapia. “O aumento [do consumo] mostra claramente a dificuldade de acesso a intervenções alternativas em saúde mental”, mas também a dificuldade de acesso a psicólogos e psiquiatras, o que leva muitas vezes os médicos de família a recorrerem à prescrição de psicofármacos como primeira resposta. ? Aumento do consumo mostra, segundo os médicos, dificuldades de acesso a intervenções alternativas