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UMA ÁRVORE PARA EDUARDO RIBEIRO

Comércio de Guimarães (O)

2026-05-06 21:06:13

Eduardo Ribeiro, nascido no lugar da Devesa, em Gondar, em 1926, foi um dos esteios da resistência democrática em Guimarães e no distrito de Braga, nas últimas décadas da ditadura fascista. Deu os primeiros passos no combate político ativo em 1949, como apoiante da candidatura de Norton de Matos. Integrou a Comissão de Apoio à Candidatura de Humberto Delgado, foi preso pela PIDE por duas vezes, fez parte do grupo dos Democratas de Braga, ao lado de Santos Simões, Lino Lima, Victor de Sá, Armando Bacelar, Humberto Soeiro. Nos depoimentos recolhidos por César Machado para o livro singular Guimarães — Daqui houve resistência, o nome de Eduardo Ribeiro está inscrito dezenas de vezes — citado, recordado, homenageado por quem com ele combateu. Conheci-o nos dias em que a democracia ensaiava o seu caminho e guardei dele a memória da sua inteligência, cultura, sagacidade, capacidade de organização e humor transbordante. Numa das suas passagens pelas prisões do Estado Novo, esteve preso durante um mês, sem saber porquê (mesmo sabendo que razões não faltariam). Lá fui eu para a Rua António Maria Cardoso. Estive lá seis dias ou sete. Durante seis dias, submeteram-me à tortura do sono. E, a certa altura, no último dia da tortura do sono, a gente já não vê, não pode pôr os braços em cima da mesa, nem pôr a mão por baixo da cabeça, nem nada, não podes descansar coisa nenhuma. Volta e meia, levantava-me e ia passear pela sala. Os pides revezavam-se entre eles de quatro em quatro horas, mais ou menos. A seguir, foi levado para a prisão de Caxias, onde estaria mais três semanas, em isolamento. Ocupou o tempo a fazer o projeto de uma casa, que iria ser erguida na Apúlia: Eu conhecia o terreno, fiz o projeto à escala e com cotas. Pus lá a indicação a lápis: Residência de Santos Simões. Seria libertado, depois de ser conduzido ao inspetor Adelino Tinoco, classificado pelo cronista Luís Osório como “o mais talentoso torturador da PIDE”. Ficamos os dois de pé e ele contou-me a razão da minha prisão. E pediu desculpa. Pediu desculpa! Afinal, tinha sido preso por engano. A PIDE suspeitava que Eduardo Ribeiro escondia uma mala carregada de dinheiro do assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, com o qual nada tinha a ver (mas que, afinal, até nem estava muito longe do lugar onde vivia). Envolvido no combate político por imperativo de consciência, Eduardo Ribeiro foi um cidadão que pensou a cidade, que conhecia como ninguém (nunca conheci melhor cicerone). Desde sempre ligado à empresa familiar, a CARI, teve um papel relevante na construção de uma sólida reputação empresarial, que levaria a construtora a assumir algumas das obras mais emblemáticas da cidade, com destaque para a transformação do Mosteiro da Costa em pousada, projetada por Fernando Távora. A 18 de abril de 1970, Eduardo Ribeiro publicava no Notícias de Guimarães um artigo intitulado A árvore e a cidade, que abria com uma citação de um dos pioneiros da arquitetura moderna, Le Corbusier — as nossas cidades tornam-se implacáveis armaduras de macadame, de betão e de pedra — e em que que defendia que “o cuidado que é atribuído aos monumentos, pelo que eles encerram de valioso como repositório cultural, devem merecê-lo as árvores”. Porque as árvores não são ornamento, mas necessidade, não são luxo, mas cultura. O motivo deste texto era a decisão da Câmara de Guimarães de proceder à venda dos setenta plátanos que margeavam a rua da Cadeia. Como Eduardo Ribeiro era um homem de ação, não se ficou pelo desabafo. Uma semana depois, o mesmo jornal publicava um telegrama enviado ao Ministro das Obras Públicas. Protestava-se contra o arboricídio. O seu primeiro subscritor era Eduardo Ribeiro. Reunia mais de cem assinaturas, de operários, comerciantes, advogados, professores, mulheres e homens de Guimarães que não aceitavam ver destruído um dos miradouros panorâmicos da cidade, numa zona já afetada pela poluição industrial. A redação do jornal acompanhou a publicação com uma nota que desvalorizava o protesto e insinuava cumplicidades. Santos Simões — segundo subscritor do telegrama, amigo próximo de Eduardo Ribeiro, com quem partilhava convicções, viagens e batalhas — respondeu em carta aberta, datada de 11 de maio, com a precisão e a dignidade que lhe corriam no sangue. “Era preferível não ter publicado o telegrama”, escreveu, em vez de o sujeitar a considerações "inoportunas e ofensivas". Aquele ano de 1970 ficaria como um marco na história das preocupações com o meio ambiente: foi declarado, pelo Conselho da Europa o Ano Europeu da Conservação da Natureza, e, a 22 de abril, foi assinalado, nos Estados Unidos, o primeiro Dia da Terra. Mas o negócio estava feito e os plátanos da rua da Cadeia acabaram por ser derrubados. Ficaram os textos. Ficou a memória de que houve cidadãos que se importaram e disseram não. Ficou o argumento, hoje tão atual como em 1970, de que “derrubar é fácil” e que amputar as árvores “é amputar a cidade dos seus valores”. Em 2026, quando a cidade que Eduardo Ribeiro amou e interpelou é celebrada como Capital Verde Europeia, é justo lembrar que houve quem, há mais de meio século, sabia o que que estava em causa. Não eram apenas árvores. Era a nossa cidade e o nosso modo de vida. Guimarães deve muito a Eduardo Ribeiro. O seu centenário assinala-se no dia 19 de junho deste ano em que o concelho celebra a sua relação com a Natureza. Merece ser recordado com uma árvore. Um plátano, talvez. António Amaro das Neves