GUY VILLAX: “FABRICANTES DE MEDICAMENTOS GENERICOS NÃO GANHAM DINHEIRO EM PORTUGAL”
2026-05-06 21:06:06

Numa entrevista durante a conferência Economia na Saúde, o presidente do Health Cluster Portugal, Guy Villax falou do baixo preço dos medicamentos genéricos em Portugal e apontou a falta de coragem política para a resolução dos problemas atuais do Serviço Nacional de Saúde. A entrevista com o tema “O que falta para cumprir o potencial?” começou com André Macedo, diretor do Jornal Económico(JE), a recordar uma frase dita no passado recente pelo entrevistado Guy Villax, presidente do Health Cluster Portugal(HCP): “há medicamentos que têm um preço mais barato do que chocolate”. O responsável do HCP apontou que os preços baixos praticados podem levar a que nenhuma empresa tenha interesse em fabricá-los. A entrevista decorreu na manhã de terça-feira, 5 de maio, durante a conferência “Economia da Saúde , sustentabilidade e inovação”, no auditório da Morais Leitão, em Lisboa. Durante a conversa, Guy Villax disse que as empresas que fabricam medicamentos genéricos em Portugal, não ganham dinheiro no país “mas sim com a exportação”, sobretudo para os Estados Unidos. “O mercado português não compensa pelos preços baixos praticados”, sublinhou. Ainda sobre os EUA, o entrevistado foi questionado sobre as incertezas trazidas pela administração de Donald Trump, avançou que a incerteza é real, apesar de não existirem aumento de tarifas para medicamentos. “Os genéricos já estão isentos de taxa, mas o risco existe”. Indicou ainda que as empresas fabricantes de genéricos em Portugal vão continuar a ter nos EUA um “mercado desejável, grande, e sem as complicações da Europa”. O regulador como catalizador de inovação A industria farmacêutica “é um negócio com investimentos a longo prazo, com projetos de muitos anos, e um mercado é muito exigente”, explicou Villax. Apontou ainda para a regulação exigente do ponto de vista ciêntífico o que “não se compara a outros reguladores”. Críticou o Infarmed por não investir parte do seu lucro na industria apelando à atenção do ministro das Finanças. Ainda sobre o regulador, explicou que tem de fazer um “policiamento eficaz” mas também ser “um catalisador de inovação, de progresso e de crescimento”. Reforçando que no caso concreto do mercado de exportação, o Infarmaed “devia estar lado a lado a apoiar quem trabalha bem”. Guy Villax, presidente do Health Cluster Portugal entrevistado por André Macedo, diretor do Jornal Económico. “Falta coragem para resolver os problemas do SNS” Questionado sobre o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) como fator de inovação, o responsável do HCP retorquiu indicando que os diagnísticos estão claros no SNS, “sabe-se o que é necessário resolver, o que falta é coragem, decisões e fazer acontecer. O SNS é a área de gestão mais complicada que existe. Pessoas a tratar de pessoas onde o critério de sucesso é a qualidade e não a quantidade”. Alguém a certa algura teve a ideia brilhante de montar a direção executiva do SNS. O HCP disse ao Governo que são 150 mil pessoas a trabalhar no SNS, o maior empregador do país, há que gerir uma mudança com cuidado, porque o SNS tem muitas coisas boas e não se pode estragar tudo e fazer de novo. O que interessa é nomear a pessoa certa e deixar trabalhar. A primeira nomeação foi certa, mas depois foi rapidamente substituída, e assim é difícil ir a algum lado. A interferência política é muito nociva. O presidente do HCP deu um exemplo que ocorreu durante a pandema da covid-19, adjetivando-o como o “auge da inteferência política na saúde: “Em 2022 que Portugal foi o recordista dos pés amputados devido à diabetes, por falta de diagnóstico para tratamento, porque na altura a única atenção foi a covid-19?. Sublinhou que o poder político não deve intervir, “arece-me que os problemas são de gestão, são técnicos são complexos, mas as soluções são simples. Se elas não são tomadas, é porque encontram resistências”, acrescentou. Sobre a área na saúde que poderá alavancar competitividade internacional, Guy Villax sublinhou a regulação no setor e que muitas das soluções têm de vir do Governo. “Os hospitais, por exemplo, são adeptos na procura de eficácia. E estes problemas não têm cor política, mas se não há instrumentos de gestão para saber o custo das coisas, não se consegue gerir”. Apontou o Valued Base Healthcare como um dos “cavalos de batalha” do HCP com o intuito de perceber a qualidade dos resultados dos tratamentos.” Já falamos com dirigentes e secretários de estados que enquanto não perceber a importância do Valued Base Healthcare, nada muda”, defendeu. A evolução que tem existido na saúde do país No final da entrevista, pediu-se uma avaliação dos últimos dez anos da saúde em Portugal. Guy Villax indica que o país tem evoluído positivamente, “a Direção executiva do SNS foi uma peça-chave e tem se conseguido criar uma infraestrutura de recolho de dados para poder saber a quantas andamos sobre os ensaios clínicos e com isso um progresso grande no sentido de conseguir dar aos hospitais do estado alguma flexibilidade na procura de verbas que chegam pelos ensaios clínicos que, por alto, pode render cerca de 3 a 5 mil euros por paciente”, concluiu. Filipe Gil