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O ENVELHECIMENTO DEVE SER ENCARADO COMO UMA CONQUISTA, MAS TAMBÉM UMA RESPONSABILIDADE DE TODOS NÓS- ENTREVISTA A RITA SÁ MACHADO

Diário de Viseu

2026-05-06 21:05:56

Entrevista Rita Sá Machado, a atual diretora-geral da Saúde em Portugal, garante que o Serviço Nacional de Saúde continua a ser um pilar essencial de coesão social e de proteção da população. A Direção-Geral da Saúde tem como missão regulamentar, orientar e coordenar as atividades de promoção da saúde e prevenção da doença em Portugal. Portugal é um dos países mais envelhecidos Europa e a tendência é para haver um fosso cada vez maior entre os mais jovens e os mais velhos. Como encarar o futuro do Serviço Nacional de Saúde face ao envelhecimento da população? O envelhecimento deve ser encarado como uma conquista, mas também como uma responsabilidade coletiva que começa muito cedo. Devemos preparar o envelhecimento desde a infância, promovendo estilos de vida saudáveis e prevenindo doença ao longo de todo o ciclo de vida. Ao mesmo tempo, é necessário adaptar o sistema às realidades da longevidade maior prevalência de doença crónica, multimorbilidade e fragi- lidade reforçando respostas de proximidade que acompanhem as pessoas no seu contexto. Podemos apontar o envelhecimento é o maior desafio à sustentabilidade? O envelhecimento é um desafio importante, mas está longe de ser o único e, isoladamente, não ex- plica a pressão sobre o sistema. A sustentabilidade resulta da conjugação de vários fatores: o aumento da doença crónica, a complexidade clínica, a inovação tecnológica, as expectativas crescentes da popu- lação, a escassez de profissionais e, sobretudo, a forma como o sistema está organizado. A isto juntam-se os determinantes da saúde, que continuam a ter um peso muito significativo nos resultados. Se não atuarmos sobre eles e se man- tivermos um modelo predominan- temente reativo a pressão sobre o sistema tenderá a aumentar independentemente do envelheci- mento. Por isso, a questão central não é apenas demográfica. É relevante como organizamos o sistema para responder melhor, mais cedo e de forma mais integrada. O atual Serviço Nacional de Saúde é sustentável a médio e longo prazo? O SNS continua a ser um pilar es- sencial de coesão social e de proteção da população. Mas a questão hoje já não se coloca apenas ao nível do SNS. A verdade é que nenhum sistema de saúde, tal como está atualmente organizado, parece plenamente sustentável a longo prazo. Temos de olhar para o sistema como um todo SNS, setor social, setor privado e comunidade e perceber como se articulam. A sustentabilidade não se resolve reforçando apenas um dos pilares. Exige alinhamento, integração e uma mudança progressiva para modelos mais preventivos e menos reativos. Quando falamos de sustentabili- dade em saúde, estamos a falar sobretudo de dinheiro ou de modelo? Quando falamos de sustentabilidade em saúde, falamos inevitavelmente de financiamento, mas sobretudo de modelo. Não é apenas uma questão de quanto se investe, mas de como se organiza o sistema para gerar mais saúde com os recursos disponíveis. Isso implica investir na prevenção, antecipar risco, evitar doença evitável e garantir que os cuidados são prestados de forma integrada. A sustentabilidade constrói-se, sobretudo, na forma como o sistema decide atuar. O aumento da despesa em saúde é inevitável? Onde estão os maiores desperdícios? Algum crescimento da despesa em saúde é expectável, mas a questão central não é apenas quanto se gasta équevalorsegeracom essa despesa. Hoje falamos cada vez mais de uma lógica de valor em saúde: isto é, avaliar o sistema não pelo volume de atividade, mas pelos resultados em saúde que con- segue produzir, tendo em conta os recursos utilizados. Nesse contexto, a maior oportunidade está em atuar precocemente. A vacinação é um exemploclarodeelevadovalorprevine doença, reduz complica- ções e evita custos futuros. O mesmo acontece com os rastreios, que permitem diagnóstico precoce e intervenções mais simples, com melhores resultados. Por outro lado, quando há fragmentação de cuidados falta de articulação en- tre níveis assistenciais, duplicação de exames ou atrasos no segui- mento estamos perante perda de valor. Melhorar a integração de cuidados é, por isso, essencial para aumentar resultados em saúde e garantir sustentabilidade. Portugal investe realmente em prevenção ou continua centrado na doença? Portugal tem áreas onde a prevenção é sólida e reconhecida, mas ainda não está plenamente integrada como eixo estruturante do sistema. A prevenção continua, muitas vezes, a coexistir com um modelo predominantemente orientado para o tratamento. O Plano Nacional de Saúde estabelece essa orientação de forma clara colocando a prevenção, a equidade e os determinantes da saúde no centro das políticas públicas. O de- safio está na execução: garantir que essa visão estratégica se traduz de forma consistente na organização dos cuidados e nas decisões do dia a dia. Que medidas concretas já estão no terreno? É possível dar alguns bons exemplos? Portugal tem bons exemplos: o Programa Nacional de Vacinação, os programas de rastreio, a vigi- lância epidemiológica, a resposta em saúde pública, a estratégia para alimentação saudável, a promoção da atividade física, a prevenção do tabagismo e as respostas nas doenças crónicas. O que importa agora é consolidar, medir impacto e garantir que estas respostas chegam efetivamente a quem precisa. Que importância tem a literacia em saúde para a sustentabilidade do sistema? O conceito de literacia em saúde evoluiu significativamente. Hoje sabemos que não basta transmitir informação é necessário pro- mover mudança de comportamento. E é precisamente aí que está uma das maiores dificuldades. As escolhas individuais não acontecem num vazio: são fortemente influenciadas pelos determinantes de saúde, incluindo os comerciais desde a forma como os produtos são disponibilizados, promovidos e comunicados, até aos contextos em que as pessoas vivem e trabalham. Isso significa que não podemos limitar a resposta à informação. É necessário criar ambientes que fa- cilitem escolhas saudáveis, alinhar políticas públicas e garantir coerência entre aquilo que se reco- menda e aquilo que está disponível no dia a dia. O objetivo não é apenas que as pessoas saibam mais, mas que tenham condições reais para agir sobre esse conhecimento. A fragilidade da confiança dos cidadãos e a desinformação existente em matéria de saúde tem vindo a causar grandes preocupações. Que riscos trará? A desinformação é hoje um dos maiores riscos em todas as áreas do saber, incluindo a saúde. O seu impacto é direto: compromete de- cisões individuais e fragiliza respostas coletivas. Sem confiança nas instituições, na ciência e nos profissionais o sistema perde eficácia.Por isso, investir em confiança é uma prioridade estratégica. Isso faz-se com transparência, consistência na comunicação e presença ativa nos espaços onde a informação circula. Têm vindo a aumentar as críticas em relação às desigualdades no acesso no acesso ao SNS Fazem sentido as críticas? Fatores como o território, as condições socioeconómicas ou questões associadas à nacionalidade influenciam o acesso e os resultados em saúde. A resposta não pode ser uniforme tem de ser de proximidade, ajustada às realidades locais. Que medidas estão ou podem ser tomadas para reduzir as diferenças? Reduzir desigualdades exige intervenção direcionada. Implica conhecer bem as populações, atuar localmente, adaptar respostas e trabalhar em rede com diferentes setores. A equidade não se garante apenas com oferta garante-se com adequação. A sustentabilidade em saúde é também ambiental. Em que medida? A saúde também tem pegada ambiental: energia, resíduos, transportes, compras, medicamentos e dispositivos. Reduzir essa pegada é parte da sustentabilidade. Neste âmbito, e como contributo, a DGS está a desenvolver uma orientação que permitirá classificar dispositivos inalatórios de acordo com o seu impacto ambiental, apoiando decisões clínicas mais informadas e sustentáveis, sem comprometer a eficácia. Como imagina o sistema de saúde português daqui a 10 anos? Daqui a 10 anos, o verdadeiro critério de sucesso não será termos mais atividade, mas termos mais saúde. O futuro exige uma mudança clara de paradigma: um sistema que antecipa risco, que atua sobre os determinantes da saúde, que reduz a incidência de doença evitável e que acompanha as pessoas de forma próxima e contínua ao longo da vida. Isso implica também usar melhor os dados, integrar cuidados e alinhar todos os intervenientes do sistema em torno de resultados em saúde e não apenas de produção. A sustentabilidade não se vai resolver com mais do mesmo. Vai depender da nossa capacidade de fazer escolhas diferentes hoje, com impacto nos próximos anos. ? Rita Sá Machado é médica especialista em Saúde Pública “Melhorar a integração de cuidados é essencial para aumentar resultados e garantir sustentabilidade” A sustentabilidade do SNS vai depender da capacidade de fazerem escolhas diferentes hoje