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HUMANIZAR OS CUIDADOS: UMA AÇÃO NECESSÁRIA NO TEMPO QUE FALTA AOS ENFERMEIROS

Correio do Minho Online

2026-05-05 21:06:22

Fala-se muitas vezes da humanização dos cuidados de saúde como um ideal desejável, quase intuitivo, porém raramente se discute com profundidade aquilo que a torna verdadeiramente possível: o tempo. No centro desta questão tão sensível estão os enfermeiros, profissionais de saúde que, pela natureza da sua função, se encontram na linha da frente do contacto com os cidadãos, acompanhando-os não somente na dimensão clínica, todavia igualmente nas suas vulnerabilidades, medos e incertezas. Humanizar os cuidados não passa por ser um conceito abstrato, tampouco um luxo ou um acessório. É, antes, uma componente essencial da qualidade assistencial. Um doente que se sente ouvido, compreendido e respeitado, tende a aderir mais ao plano de recuperação, a melhorar com maior e melhor confiança e a estabelecer uma relação mais sólida com as dinâmicas de saúde. Neste processo, o papel dos enfermeiros é insubstituível. São estes profissionais aqueles que escutam, que traduzem, muitas vezes, linguagem técnica em palavras simples, que confortam nos momentos de maior fragilidade e que permanecem quando muitos outros já passaram. Contudo, a realidade quotidiana mostra um cenário bem diferente daquele que seria desejável. Nos contextos de saúde, particularmente no Serviço Nacional de Saúde, a pressão nos cuidados é elevada, os rácios enfermeiro/doente são frequentemente desajustados e o tempo disponível para cada pessoa é cada vez mais escasso. O resultado é algo preocupante: os enfermeiros, profissionais altamente qualificados e profundamente comprometidos com o cuidar, mostram-se impedidos de exercer plenamente a dimensão humana da sua profissão. O tempo tornou-se um recurso crítico e insuficiente. Entre procedimentos técnicos, registos informáticos, cumprimento de protocolos e resposta a situações urgentes, sobra pouco espaço para aquilo que muitos enfermeiros consideram ser o núcleo da sua intervenção: estar com os doentes. Não apenas fazer, porém, ser. Não apenas tratar, porém, cuidar. Esta distinção, aparentemente subtil, é, na verdade, fundamental e define em parte a essência da Enfermagem. Quando o tempo é escasso, a comunicação torna-se apressada, o olhar perde-se na rotina, e o toque - tantas vezes terapêutico - é substituído por gestos automatizados. Os doentes passam a ser mais um número, mais um processo, mais uma tarefa a cumprir. E, embora os cuidados possam manter a sua qualidade, perde-se algo que não é quantificável, contudo que é profundamente sentido: a dignidade do encontro humano. Perde-se também a oportunidade de detetar sinais precoces de agravamento da doença, de compreender melhor o contexto social e familiar do doente, ou de prevenir complicações através de uma simples conversa. Importa sublinhar que esta não é uma falha individual dos profissionais de saúde. Pelo contrário, no caso dos enfermeiros, estes continuam, na sua grande maioria, a demonstrar uma enorme capacidade de empatia e resiliência, muitas vezes à custa do seu próprio desgaste emocional. O fenómeno de burnout, cada vez mais presente entre os enfermeiros, é um reflexo direto de um sistema que exige disponibilidade constante, porém sem garantir condições adequadas. Cuidar dos outros, sem tempo para cuidar de si próprio, torna-se insustentável a médio prazo. O problema é, portanto, estrutural. O nosso sistema atual de saúde exige cada vez mais, com recursos frequentemente limitados, onde nem sempre é reconhecido que o tempo para cuidar é tão importante quanto qualquer tempo para o uso de tecnologia ou de intervenção clínica. Mais, a crescente digitalização dos serviços, embora traga benefícios inegáveis, veio também aumentar a carga administrativa, afastando ainda mais os enfermeiros do contacto direto com os doentes. Humanizar os cuidados implica, portanto, uma mudança de perspetiva. Exige que se reconheça o valor do tempo como parte integrante do processo terapêutico. Exige investimento em recursos humanos, melhor organização dos serviços e o desenvolvimento de políticas que valorizem verdadeiramente o papel dos enfermeiros. Todavia, exige também liderança eficaz e eficiente, promoção da autonomia profissional e o desenvolvimento de uma cultura institucional que não veja a humanização como um extra, porém como um critério de qualidade. Dar tempo aos enfermeiros não é um desperdício. É, sim, um investimento inteligente e necessário, garantindo que cada doente, que cada cidadão, seja visto como pessoa, com história, emoções e necessidades únicas. É também devolver sentido a uma profissão que, mais do que olhar para a doença, existe para cuidar de pessoas - e que continua a ser uma das mais próximas, mais exigentes e mais humanas dentro dos sistemas de saúde. No fim, humanizar os cuidados é, talvez, lembrar o mais simples: que ninguém deveria ser tratado como um caso clínico, quando é, antes de tudo, uma pessoa. E que, para que isso aconteça, é preciso algo tão básico quanto frequentemente esquecido: tempo. Analisa Candeias