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PEDRO CARREIRO MARTINS (SPAIC): "NÃO BASTA GARANTIR BRONCODILATADORES; É FUNDAMENTAL ASSEGURAR O ACESSO À TERAPÊUTICA ANTI-INFLAMATÓRIA INALADA"

HealthNews Online

2026-05-05 21:06:21

05/05/2026 “Não basta garantir a disponibilidade de broncodilatadores de alívio; é fundamental assegurar o acesso, a adesão e a correta utilização da terapêutica anti-inflamatória inalada.” HealthNews (HN) , O documento refere que 70% dos doentes em Portugal não têm a asma controlada. Sabemos que a Global Initiative for Asthma (GINA) definiu como mote para 2026 “Access to anti-inflammatory inhalers for everyone with asthma”. Como é que o senhor associa esta realidade de mau controlo à necessidade de melhorar o acesso à terapêutica anti-inflamatória inalada, e qual o papel da literacia em saúde para desmistificar o uso regular de corticoides inalados vs. a medicação de alívio? Pedro Carreiro Martins (PCM) , O facto de cerca de 70% dos doentes não terem a asma controlada resulta, em parte, da perceção ainda frequente de que a doença só está presente quando surgem sintomas, levando a que o tratamento seja utilizado apenas nessas fases. Contudo, sabemos hoje que a asma é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas, que exige, em muitos casos, uma abordagem terapêutica regular dirigida à inflamação subjacente. Neste contexto, o mote da Global Initiative for Asthma para 2026 , “Access to anti-inflammatory inhalers for everyone with asthma” , assume particular relevância. Não basta garantir a disponibilidade de broncodilatadores de alívio; é fundamental assegurar o acesso, a adesão e a correta utilização da terapêutica anti-inflamatória inalada, que constitui a base do controlo sustentado da doença e da prevenção de agudizações. HN , O Bastonário da Ordem dos Médicos comprometeu-se a trabalhar convosco na revisão da rede de referenciação. Tendo em conta que a imunoterapia com alergénios continua por comparticipar e que existem constrangimentos graves nos Cuidados de Saúde Primários, que medidas concretas estão a ser negociadas com o Ministério da Saúde para garantir a equidade regional no acesso aos cuidados especializados em Imunoalergologia? PCM , A revisão da rede de referenciação é essencial para garantir que o acesso à Imunoalergologia não dependa da região do país onde o doente reside. Tem vindo a ser defendida a necessidade de uma rede mais estruturada, com critérios objetivos de referenciação, circuitos formais de articulação entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, e tempos de resposta ajustados à gravidade clínica. Este modelo é particularmente relevante para doentes com asma não controlada, suspeita de asma grave, anafilaxia, alergia alimentar, alergia medicamentosa ou outras patologias imunoalérgicas complexas. HN , Apesar dos avanços, os dados do Observatório Nacional de Doenças Respiratórias apontam para 34 mortes por asma em 2024 em Portugal. Sendo a asma uma doença maioritariamente tratável, a que atribui o senhor, do ponto de vista fisiopatológico e de gestão clínica, a ocorrência destes eventos fatais no SNS, e como podem os novos esquemas terapêuticos “duais” (corticóide + broncodilatador de longa duração) ajudar a mitigar este risco? PCM , Apesar de Portugal apresentar, comparativamente a outros países, uma mortalidade por asma baixa, cada morte deve ser encarada como um sinal de alerta. Em 2024, foram reportadas 34 mortes por asma no nosso país, apesar de se tratar, na maioria dos casos, de uma doença tratável e potencialmente controlável. Do ponto de vista fisiopatológico e clínico, estes eventos resultam habitualmente de uma combinação de inflamação persistente das vias aéreas, hiperreatividade brônquica e agudizações graves, frequentemente associadas a atraso no reconhecimento da gravidade. A isto acresce, em muitos casos, uma dependência excessiva de broncodilatadores de alívio, sem a utilização adequada de terapêutica anti-inflamatória inalada, que é fundamental para o controlo sustentado da doença e a prevenção de crises graves. HN , A prevalência em crianças e adolescentes ronda os 8%-9%, com um grande impacto social e escolar. A GINA enfatiza que até a maioria das crianças em idade pré-escolar deve receber corticoides inalados para prevenir crises. Como ultrapassar a barreira da “corticofobia” parental e garantir a adesão à terapêutica de manutenção neste grupo etário mais vulnerável? PCM , De facto, nas crianças, a principal barreira é frequentemente o receio dos pais em relação à utilização de “corticoides”. É fundamental esclarecer que os corticoides inalados atuam localmente nas vias aéreas, em doses baixas, com um perfil de segurança bem estabelecido. Importa também sublinhar que o risco associado a exacerbações repetidas, idas ao serviço de urgência e necessidade de corticoterapia sistémica é claramente superior ao da terapêutica inalada quando corretamente utilizada. A comunicação deve ser simples e centrada em objetivos concretos: não se trata de “medicar por medicar”, mas de permitir que a criança tenha uma vida normal , durma bem, brinque, pratique atividade física e frequente a escola sem limitações. A adesão terapêutica melhora significativamente quando existe um plano escrito, treino adequado da técnica inalatória, reavaliação periódica e envolvimento ativo da família no processo de controlo da doença. HN , O documento refere a existência de medicação inovadora para as formas graves, mas com desafios de acesso. Olhando para os dados mundiais que indicam que a falta de disponibilidade ou o alto custo dos inalantes contribui para 96% das mortes por asma em países de baixo e médio rendimento, como avalia o acesso em Portugal para os doentes com asma grave eosinofílica ou T2-high? Sentimos ainda um “gap” no acesso a biológicos? PCM , Portugal dispõe atualmente de terapêuticas biológicas eficazes para a asma grave, particularmente nos fenótipos T2-high, incluindo as formas eosinofílicas e alérgicas. O principal desafio não reside na inexistência de opções terapêuticas, mas sim em assegurar uma referenciação atempada, uma confirmação diagnóstica rigorosa, uma adequada caracterização fenotípica e um acesso equitativo a centros com experiência na abordagem destes doentes. Persistem, contudo, assimetrias no acesso, relacionadas sobretudo com atraso na referenciação, desigualdades regionais e constrangimentos organizacionais. Importa sublinhar que os fármacos biológicos não substituem uma abordagem global estruturada da asma, incluindo otimização da terapêutica inalada, controlo de comorbilidades e promoção da adesão. No entanto, constituem uma opção fundamental para um subgrupo de doentes com asma grave não controlada, permitindo reduzir agudizações, melhorar a qualidade de vida e, em muitos casos, diminuir a necessidade de corticoterapia sistémica. HN , As comorbilidades como a rinite alérgica afetam uma larga percentagem da população e estão associadas a um pior controlo da asma. Tendo em conta o “one airway, one disease” (uma via aérea, uma doença), como é que a SPAIC tem trabalhado para integrar o rastreio da asma no manejo da rinite alérgica na prática clínica diária, especialmente nos cuidados primários? PCM , Apesar de a rinite alérgica ser frequentemente percecionada como uma doença menor, em muitos doentes constitui um elemento central no mau controlo da asma. O conceito “uma via aérea, uma doença” relembra que o nariz e os brônquios integram o mesmo continuum inflamatório e devem ser abordados de forma integrada. Na prática clínica, sempre que houver rinite persistente, sintomas nasais sazonais relevantes ou necessidade frequente de medicação, deve realizar-se uma pesquisa ativa de sintomas de asma, nomeadamente tosse, pieira, aperto torácico, dispneia ou limitação ao exercício. A SPAIC tem procurado reforçar esta abordagem integrada através de iniciativas de formação, da elaboração de recomendações clínicas e da promoção da articulação com os cuidados de saúde primários, com o objetivo de melhorar o diagnóstico precoce e o controlo global da doença alérgica respiratória. HN , Para além da medicação, o controlo ambiental é crucial. Com as alterações climáticas a prolongar as estações polínicas e a aumentar a exposição a poluentes, e havendo projetos como o biomarcador digital e-DASTHMA da FMUP a surgir, que ferramentas ou estratégias de “telemonitorização” ou “exposoma” considera mais promissoras para a Portugal Continental para prevenir as crises sazonais nos próximos 5 anos? PCM , Nos próximos anos, a prevenção das crises sazonais terá de combinar medicina personalizada, dados ambientais e ferramentas digitais. As alterações climáticas tendem a prolongar as épocas polínicas e a aumentar a exposição simultânea a pólenes, poluentes e eventos meteorológicos extremos. Ferramentas como diários digitais de sintomas, alertas personalizados de pólen e poluição, integração com dados da Rede Portuguesa de Aerobiologia, avaliação da técnica inalatória por meios digitais e biomarcadores digitais, como o e-DASTHMA, podem ajudar a antecipar a perda de controlo e ajustar precocemente a terapêutica. O e-DASTHMA foi desenvolvido e validado como ferramenta eletrónica para avaliação diária do controlo da asma, podendo apoiar a monitorização clínica e a decisão partilhada. Vídeo de informação Aqui   Entrevista de Miguel Múrias Mauritti   Setenta por cento dos doentes em Portugal não têm a asma controlada, um cenário que exige melhor acesso à terapêutica anti-inflamatória inalada e mais literacia em saúde. Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Pedro Carreiro Martins, presidente da SPAIC, analisa barreiras como a corticofobia parental, assimetrias regionais no acesso a especialidade e o potencial dos novos esquemas duais e biológicos na asma grave