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PEDRO NUNO TEM RAZÃO

Observador Online

2026-05-05 21:06:21

Há uma coisa que Pedro Nuno Santos percebeu e tentou fazer: enquanto o PS não romper com o legado de Costa, dificilmente voltará ao poder. Isolá-lo e convidá-lo a sair do partido é só poucochinho. Existe uma tese - criativa mas crescentemente maioritária no universo socialista - de que o PS só se encontra na posição em que está hoje por causa de um homem: o imprevisível, impreparado e irascível Pedro Nuno Santos. Se este não se tivesse atrevido a suceder a António Costa, o partido continuaria a sua triunfante cavalgada rumo ao Portugal prometido, capaz de reproduzir um estado social nórdico, com uma carga fiscal irlandesa e uma capacidade produtiva alemã. Mas é isso mesmo: uma tese criativa e, acrescente-se, conveniente, porque isola Pedro Nuno e desresponsabiliza todos os outros que, fazendo parte dos oito anos de António Costa, podem assim dizer-se inocentes. Pedro Nuno Santos é responsável por muita coisa, claro. Pelo aeroporto de papel. Pela indemnização iMessage. Pelas incompreensíveis campanhas eleitorais. Pelas (pobres) equipas que reuniu. Pelas ideias que priorizou. Pelo psicodrama orçamental em que se embrulhou. Por ser demasiadas vezes mais forma do que conteúdo. Pelos excessos de confiança e por ter caído na armadilha da moção de confiança. E, finalmente, por ter sido o líder que levou o partido a um inacreditável terceiro lugar parlamentar. O cadastro político é longo e, num partido exigente, seria o suficiente para tornar qualquer ambição de regresso num sonho de uma noite de verão. Mas Pedro Nuno Santos, para lá das muitas coisas erradas que fez e que disse, tem inteira razão num ponto. O fim do glorioso ciclo socialista não começou com a sua eleição como secretário-geral do PS. Aconteceu no dia em que se encontraram 75 mil euros no gabinete do homem que António Costa, apesar dos muitíssimos argumentos para que não o fizesse, escolheu para ser seu chefe de gabinete. Até se pode dizer que começou antes, quando o mesmo Costa escolheu o “melhor amigo” para se meter em tudo que era assunto de Estado. Mas aquilo a que uns quantos incautos chamam de “golpe de Estado” e tentam reduzir a um “parágrafo” foi, na verdade, um golpe profundo na credibilidade do partido e do Governo - e do qual, como o próprio António Costa assumiu sempre, primeiro-ministro algum poderia sair incólume. Pedro Nuno, o menos costista daquele friso de governantes, herdou o partido nestas circunstâncias. Outros não quiseram ou ficaram a ver. E é preciso não esquecê-lo. Para o choque de algumas almas mais sensíveis, no regresso à ribalta, Pedro Nuno Santos ajustou umas quantas contas internas contra aqueles que efetivamente nunca o gramaram - exceção feita a Duarte Cordeiro, rival recente - e fez questão de lembrar que o legado de António Costa não foi, afinal, tão radiante como muitos insistem em fazer crer. Nunca o tinha feito com aquela violência, é certo, mas não foi sequer a primeira vez que ousou criticar os oito anos de governação socialista (de que também fez parte). A 23 de janeiro de 2025, em entrevista ao Expresso, o então líder socialista fez o mesmo, assumindo que o PS tinha cometido erros na (des)valorização da Administração Pública, no SNS, na Educação, na Habitação e, ultraje máximo, na regulação da imigração. Na altura como agora, a reação de uma influente ala do partido foi tentar excomungar Pedro Nuno Santos. Desta vez, sem grandes reservas, até se sugere que deixe o PS e vá criar um novo partido para outra freguesia. Porque reconhecer que os oito anos (dois de maioria absoluta) deixaram muita coisa por resolver e muitos eleitores profundamente desiludidos é também reconhecer que eles próprios falharam. E reconhecer os erros obriga a refletir. E refletir deve ter como resultado prático propor receitas diferentes, outros caminhos. E isso dá trabalho. Quando se acha que se fez tudo bem e que a culpa foi de um único homem ou de uma conspiração que derrubou o chefe, fica tudo mais fácil. É ver a birra que o PS está a fazer por António José Seguro estar a tentar promover pactos para a Saúde e, pior, por escolher Adalberto Campos Fernandes para o efeito. Escolhe-se Mariana Vieira da Silva, que, como ministra, chocou de frente com o seu então colega de Governo, para ser o interlocutor do partido com Belém. Sugere-se que Adalberto foi o grande responsável por Costa ter falhado a sua lendária promessa de atribuir um médico de família a todos os portugueses e que foi despedido por isso mesmo. E até se recorda, como símbolo máximo desse desterro, que Adalberto foi o único antigo governante que Costa não quis na sua festa de despedida - e, já agora, que foi Mariana Vieira da Silva quem fez a lista de convidados. Porquê esta birra? Porque o PS acha que o grande problema do SNS tem três letras: PSD. Antes estava tudo bem e quando o PS regressar ao poder tudo ficará bem. Dir-se-á que o PSD fez o mesmo e também prometeu resolver tudo num piscar de olhos. É um facto e Luís Montenegro será julgado por isso. Mas pedia-se outro pudor e humildade a quem governou durante oito anos com os resultados conhecidos na Saúde. Tal como estava tudo bem com a Habitação e se diz que o problema agora é deste Governo e das suas políticas. E diz-se isto sem que ninguém core de vergonha por ouvir António Costa dizer que o país não pode aceitar que “jovens adultos tenham de pagar 100% dos seus salários, durante 20, 30 anos ou mais, para conseguir comprar uma casa” - o mesmo António Costa que prometeu usar a bazuca para dar habitação digna a todos até 2024 e que se despediu do país com um desemprego jovem de 20%, um salário médio líquido de 1.090 euros e um parque habitacional público de apenas 2%. Até Pedro Nuno Santos, que teve efetivas mas curtas responsabilidades na pasta, fez o seu mea culpa. Os exemplos podiam repetir-se em tantas outras áreas. Mas voltando a Pedro Nuno Santos. Ninguém sabe o que o move. No limite, até pode estar só a tentar ajustar contas com os adversários internos. E, se for o caso, será avaliado pelo que fizer e disser neste momento difícil que o partido atravessa. Mas há uma coisa que Pedro Nuno percebeu e tentou fazer: enquanto o PS não romper com o legado de António Costa, dificilmente voltará a reunir condições para regressar ao poder. Isolar Pedro Nuno, achar que é o único e maior responsável pela profunda quebra eleitoral do PS e convidá-lo a sair do partido é muito poucochinho. Miguel Santos Carrapatoso Editor Adjunto de Política do Observador Miguel Santos Carrapatoso