ENTREVISTA NUNO CORREIA DA SILVA - “CANDIDATO-ME A PRESIDENTE DO CDS. NÃO ME CANDIDATO A MINISTRO"
2026-05-05 21:06:21

Nuno Correia da Silva “Candidato-me a presidente do CDS. Não me candidato aministro” ENTREVISTA Ex-deputado vai disputar liderança com Nuno Melo, no congresso de 16 e17 de maio. Mas se o vencer não pedirá que saia de Governo, no qual critica a atuação das ministras do Trabalho e da Saúde. Candidata--se num momento em que o CDS participa na governação do país, das regiões autónomas, de quatro das cinco maiores autarquias e de outras dezenasd de câmaras municipais. Não vê motivos para os centristas estarem satisfeitos com este líder? Avanço com o propósito de que o CDS, além de ter presença, deixe a sua marca. A presença é importante, desde que possamos influenciar e ser protagonistas de um projeto de esperança que faz falta à política portuguesa. Uma ideia mobilizadora, que devolva confiança. Durante muitos anos tivemos um país desconfiado, a criar armadilhas a quem quer investir, quer viver do seu trabalho, não quer pedir e quer produzir. Esse é o eleitorado do CDS, que não se vê representado. Continuamos a ter um país complicado para quem investe, para quem quer ter família e para os jovens. Esta ideia mobilizadora não tem estado presente. E é por isso que me candidato. Acredita que existe uma maioria silenciosa disponível para a mudança no Congressor de Alcobaça[a 16 e 17 demaio]? Desde a saudosa AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral que há proximidade e complementaridade entre CDS e PSD. Mas hoje sente-se diluição. e julgo que é isso que os militantes, a maioria silenciosa de que fala, também pensam. Existe um descontenta-mento generalizado em relação à afirmação do CDS, que é útil por acrescentar ao PSD. Hoje não vejo que as nossas bandeiras, da família, da liberdade pessoal, dos produtores e dos contribuintes, estejam presentes. Faz falta um discurso mobilizador e vou propor ao congresso a recuperação do Partido Popular. Aquele que em 1992 tirou o CDS dos cinco deputados. Na altura dizia-se que era o partido do táxi. Passámos para 15 deputados em 1995 e fiz parte desse projeto, com orgulho e ehonra. Foi a ideia de um partido onde se acredita que Portugal só cresce com todos e não se põe a culpa dos erros de uns nos outros. Hoje ouvimos um discurso que só divide, e é na divisão que o discurso do ódio encontra terreno fértil para crescer. Nos últimos temposo CDS apresentou propostas como a proibição de bandeiras ideológicas em edifícios públicos ou restrições à mudança de sexo de menores de idade. Presumo que não é isso que tem em mente... As nossas razões de existir não são essas, naturalmente. Existimos porque procuramos que o indivíduo se realize na sociedade em toda a sua dimensão. Deixe-me dar um exemplo da agenda política atual. Discute se muito a legislação laboral, o banco de horase e o alargamento de razões que permitem a contratação a termo. Faz-: se uma alteração à legislação laboral de forma isolada, sem estar integrada numa agenda para a competitividade: como é que as empresas portuguesas podem pagar melhor e deixar a ideia de que somos uma economia de baixos salários. Na produção há três fatores: dinheiro, energia e trabalho. Estamos a olhar só para o custo do trabalho e a esquecer os outros, que nos roubam competitividade. O CDS devia estar concentrado em criar condições para as empresas terem financiamento e energia mais baratos. Teme que o CDS se esteja a tornar um instrumento da coligação para tentar conter o Chega? Quando fazemos a análise geográfica das zonas onde O Chega tem mais votos, encontramos, de Norte a Sul, concelhos onde o CDS nunca teve representação. A ideia de que o CDS pode fazer a contenção do eleitorado do Chega é errada. O Chega posiciona-se como partido que é protagonista da contestação e absorve o descontentamento. e nós devemos estar do lado oposto. Devemos ser o partido da esperança e de quem acredita que é possível fazer melhor. Para a decisão de se candidatar contribuiu saber que a moção da Juventude Popular também faz referências a um “partido politicamente menos sreconhecível", sem agenda partidária estruturada” e “politicamente diluído”? A Juventude Popularé, claramente, o reduto de esperança do CDS. Tem um discurso que me recorda os bons momentos do partido dos valores e das convicções. ê a Juventude Popular a que pertenci [e liderou, entre 1994 e 1996], de que a idade me expulsou, mas em que me revejo e que contribuiu para a minha candidatura. Revê. se no grupo parlamentar? Sim. Não há nada de que me recorde que colida com o que entendo dever ser o posicionamento do partido. Mas, do ponto de vista de iniciativa política, o CDS deve dar aos seus deputados a possibilidade de irem mais além. Caso seja eleito presidente do CDS, qual será a maior mudança narelaçãor como o PSD? Pretendo uma grande afirmação do CDS, mas não temos que mudar a relação com o PSD. Temos é que mudar a nossa relação como país, que tem de olhar para o CDS como o partido da esperança que falta. Não é possível constituir família quando um apartamento em Lisboa, com 100 metros quadrados ou dois quartos, custa 50 anos de salário médio. Não podemos ficar à espera de que as coisas: se resolvam sozinhas. Numa primeira conversa com Luís Montenegro solicitariaa substituição dos atuais governantes centristas? Isso não faria qualquer sentido. Seguramente que os governantes do CDS serão sempre bons intérpretes das estratégias definidas pelo Congresso e pelos órgãos do partido. ê uma questão absolutamente secundária. O importante élevantar bandeiras e as pessoas perceberem que o CDS que foi o partido das causas e dos valores voltou a ter voz. Seja numa câmara municipal, numa Secretaria de Estado ou no Conselho de Ministros. O importante é a voz ser ouvida e não o dono da voz. Considera que Nuno Melo estáa a ser melhor ministro da Defesa do que presidente do CDS? Isso são análises que competem ao líder do Governo. A minha disponibilidade e a minha vontade é criar um partido que recupere a nossa matriz. Candidato-me a presidente do CDS, não me candidato a ministro. ê muito importante que isso fique claro. Estivessec CDS fora do Governo e a motivação seria a mesma. Se ganhar o Congresso, não farei qualquer diligência para substituir quem está no Governo. Quem estará na sua equipa? Ainda não está fechada. A seu tempo será revelada. Sendo crítico do pacote laboral, que avaliação faz de Rosário da Palma Ramalho, a ministra que o procura implementar ê um elo fraco deste Governo? Politicamente, anda em contramão. Quando olha para a legislação laboral, e só vê o lado da flexibilização, não percebe o que se está a passar. A maioria das empresas tem problemas de recrutamento e não de dispensa de trabalhadores. Não conheço a ministra pessoalmente, mas acho que é uma pessoa com uma perceção muito limitada do país. êum defeito que deteta noutros membros do Executivo? Penso que a ministra da Saúde também chocou com a realidade. Apresentou-se com soluções fáceis, que não conseguiram vencer problemas difíceis. O CDS ficou sem representação parlamentar em 2022 e elegeu dois deputados em listas conjuntas com o PSD em 2024 e 2025. O partido mais interventivo que defende é possívels ir avotos em listas próprias? Com certeza. Até diria o contrário: só faz sentido ir em coligação um CDS interventivo. Um CDS passivo é que não faz falta à AD. PAGS. 6-7 FOTO PAULO SPRANGER "Quando fazemos a análise geográfica das zonas onde o Chega tem mais votos, encontramos, de Norte a Sul, concelhos onde O CDS nunca teve representação. A ideia de que O CDS pode fazer contenção do eleitorado do Chega é errada"” LEONARDO RALHA