ASMA GRAVE EM PORTUGAL: RESPIRAR NÃO DEVIA SER UM PRIVILÉGIO
2026-05-05 21:06:20

Com inúmeros desafios diários, quem vive com asma grave encontra nos medicamentos biológicos, que reduzem crises e internamentos, uma esperança. Porém, o acesso em Portugal é limitado Ter asma grave é como uma negociação constante com os próprios pulmões. De um momento para o outro, respirar passa a ser assustadoramente difícil, tornando o que antes era natural, como falar ou andar, em tarefas quase impossíveis, com sintomas persistentes, intensos e, muitas vezes, resistentes aos medicamentos comuns. E depois, há a imprevisibilidade: não saber quando chegará a próxima crise, mesmo cumprindo a medicação; os planos do dia passam a ser feitos em função de gatilhos, como o fumo, o pólen, o perfume de alguém ou até o ar frio. À noite, a pieira e a falta de ar interrompem o sono, e o cansaço acumula-se. As visitas frequentes ao hospital tornam-se parte da rotina. E o impacto emocional também: a ansiedade, o stress, a necessidade constante de estar alerta ao que pode desencadear uma crise. Viver assim exige uma vigilância que nunca dá tréguas. Mas há um antes e um depois para quem vive com asma grave e é elegível para medicamentos biológicos. Com estes tratamentos, o alívio vai muito além do lado físico porque permite à pessoa recuperar, finalmente, algum controlo sobre a própria vida. Estes medicamentos representam, de facto, uma das descobertas recentes mais importantes para quem vive com asma grave, uma vez que podem alterar a trajetória da doença, reduzindo drasticamente as crises da doença, os internamentos e a necessidade de corticosteroides orais, além de melhorarem a função pulmonar e a qualidade de vida. Para muitos, são a diferença entre crises constantes e a capacidade de finalmente respirar. Um estudo que avaliou a evidência científica, confirma que esta terapêutica é responsável por uma redução de 45% nas exacerbações (crises) de asma grave e de 57% nas hospitalizações relacionadas com a doença, assim como de uma melhoria da função pulmonar, um melhor controlo dos sintomas e da qualidade de vida. No entanto, apesar de todas as evidências, dos estudos e da investigação científica, as pessoas com asma grave em Portugal têm uma enorme dificuldade em aceder a este tipo de medicação. Ao contrário do que acontece com os portadores de outras doenças crónicas, que estão incluídas na Portaria nº 261 de 2024, um documento que alterou o regime excecional de comparticipação, permitindo que determinados doentes acedam a prescrições fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o que se traduz numa maior rapidez no acesso, as pessoas com asma grave estão fora desta lista. Isso significa que têm de enfrentar os longos tempos de espera para uma consulta de especialidade no SNS, que no caso da Imunoalergologia ou Pneumologia pode querer dizer esperar, em algumas regiões, um ano e meio por uma consulta, quando o tempo recomendado são 120 dias. Tempo durante o qual estes doentes vão continuar a viver com a incerteza e a incapacidade de controlar os sintomas e com os efeitos secundários dos tratamentos convencionais como os corticosteroides orais que originam outros problemas e doenças. Nem mesmo as guidelines internacionais, que enfatizam que os medicamentos biológicos devem ser o padrão de tratamento para os doentes com asma grave que permanecem descontrolados apesar da terapia inalatória máxima, parecem ser aqui considerados. A Estratégia Global para o Controlo e Prevenção da Asma (GINA) é muito clara: os medicamentos biológicos são agora uma opção central, baseada em evidências, para as pessoas com asma grave descontrolada apesar de já se ter escalado os outros tratamentos disponíveis. Também o American College of Chest Physicians, que publicou recentemente uma nova guideline clínica sobre o tratamento biológico da asma grave, recomenda estes medicamentos para os doentes que não respondem a doses elevadas de corticosteroides inalados, juntamente com a terapêutica de controlo. Para os cerca de 10% dos doentes asmáticos que vivem com a forma grave da patologia, estes medicamentos são vistos como transformadores. Não são opcionais, não são experimentais, mas antes uma parte fundamental do tratamento moderno desta forma da doença, capaz de quebrar o ciclo de crises frequentes, evitar o uso prolongado de corticosteroides orais, que também se sabe terem efeitos secundários sérios e bem documentados. A evidência existe, as guidelines internacionais são claras e a solução está, literalmente, ao alcance de uma portaria, que abriu a porta a doentes de outras patologias. Incluir a asma grave nesta lista seria um passo simples, mas transformador, a diferença entre esperar ano e meio por uma consulta ou começar o tratamento em tempo útil. Enquanto isso não acontece, milhares de pessoas em Portugal continuam a negociar com os próprios pulmões. Não por falta de solução, mas por falta de vontade política. Ana Gonçalves Presidente da Associação de Asma Grave (AAG) Ana Gonçalves