A MARCA DE PICASSO NA LEICA DE HENRIQUE MANUEL
2026-05-04 08:04:03

Da amizade e admiração mútua resgata-se sempre a grata memória, isto porque a partilha dos afetos traduz-se sempre em bem-estar comum que todos podem desfrutar. Esta é a essência do património cultural. Vem a feliz rememoração a propósito do nosso amigo de infância Henrique Dreyer , assim conhecido pelo nome de sua Mãe desde os tempos do Liceu , há dias ter partilhado connosco o artigo de Paula Figueiredo (CMLisboa), na “Descendências Magazine” (Ed. 63, mar.2026), um texto evocativo do reconhecido fotógrafo e fli antropo Henrique Manuel Botelho (1909-1990), bracarense de adoção, que está representado hoje no acervo do Arquivo Fotográfci o Municipal de Lisboa. A nossa Braga sempre foi um cais, ainda que seco, de muitas partidas e chegadas, de longo curso e de surpreendentes adventos, ligando distâncias remotas, gentes e aventuras improváveis, e tantas vezes revelando protagonistas imprevistos. O texto, “Pela Lente de Henrique Manuel Botelho” enaltece a obra fotográfica de um autor ainda hoje pouco conhecido, nascido em Vila Pouca de Aguiar no início do século passado, que discorreu pela amplitude do mundo, desde o Alvão e Alturas do Barroso, expedicionando pela hoje tão cobiçada Gronelândia, passando pelo cosmopolitismo das grandes capitais, seus salões e os cabarets parisienses, até ao contacto com as maiores celebridades da época, com quem privou, até “atracar” em Braga, em meados dos anos de 1950. Qual navegante que trilhou os sete mares, aqui se estabeleceu com a Família, desenvolvendo uma atividade de antiquário até ao fni al da vida, ligado aos livros raros, às gravuras e aos mapas. Aquele transmontano contador de histórias fantásticas, na pequena cidade clerical de província, no País de nevoeiros. Mas, mais do que o amador da cousa amada, a sensibilidade, a acuidade do seu olhar, e certamente, também, a inful ência de seu primo, o reputado fotógrafo e comandante naval, António José Martins, bem como, incontornavelmente, as amizades que travou ao longo da vida e pelo mundo das artes e da cultura, nos ajudam a compreen der melhor o artista. Do plano da vivência internacional, releve-se a proximidade a fgi uras como Pablo Picasso (1954), o realizador italiano Roberto Rossellini e a atriz americana Shirley Temple, com quem privou. No Portugal enclausurado do regime ditatorial e da grande guerra, de que mentalmente se libertou, conviveu com as nossas vedetas, como as grandes atrizes, Laura Alves e Beatriz Costa, ou ainda, a erudita violoncelista portuense, Madalena Sá e Costa, bem como o distinto ceramista Jorge Colaço, e tantos outros com quem interagiu e fotografou, sobretudo, entre as décadas de trinta e cinquenta. São tudo razões ponderáveis que nos explicam o autodidatismo apurado e que marcam indelevelmente a elevada com-petência técnica e artística que desenvolveu. Pessoalmente, salientaríamos a expressividade do objeto e a diversidade dos temas da sua obra fotográfci a. Arriscaríamos mesmo, relevar o trabalho de modulação contrastante na iluminação da maior parte das suas imagens, o jogo dramatizado de claros e escuros, especialmente conseguido nos espécimes a preto & branco. Mas foi pelo ecletismo experimental dos estilos e das técnicas, das opções estéticas e da variedade dos motivos que captou, que tornam único o trabalho de Henrique Manuel. Que melhor nos ajudam a perceber o modo como suplantou o estatuto primordial de amador. Como nota, A. Pomar (2002) desde “o mais acabado gosto tardopictural do ruralismo nacional”, imbrincado à época do Estado Novo, de fortes ligações à terra, pelas personagens e pela paisagem, à expressivi-dade do retrato, ao documento etnográfico dos costumes, aos ensaios modernistas de alguns enquadramentos, mesmo da experiência da cor até à inscrição cinematográfica do seu único filme conhecido, “Porto, Cidade Remota e Pitoresca”. Revelam-se igualmente a variação de escala, que se espraia entre as naturezas-mortas, os horizontes com alinhamentos de árvores, os caminhos, numa única expressão, a paisagem cultural. Mais não bastasse, ao classicismo temático o autor juntou o pioneirismo do nu artístico feminino em Portugal. Abordagem que o coloca numa trajetória única, desvinculado de grupos, correntes, permitindo-lhe a esse propósito fazer improváveis considerações comparativas como aquela que compara a mulher portuguesa, “precocemente emurchecida”, à “graciosidade das gentis desportistas alemãs ou norte-americanas”, modelos por natureza. Ora, foi precisamente em Braga, em setembro de 2002 - vai fazer 25 anos! - que o então Museu da Imagem resgatou do esquecimento Henrique Manuel e o essencial da sua obra, com uma Exposição de “fotografai s” coordenada por Rui Prata e Isa Dreyer-Botelho, fli ha do artista e também fotógrafa. Esta exposição, com uma réplica nesse mesmo ano em Lisboa, foi acompanhada por um digno catálogo prefaciado por Margarida Medeiros, de cuja capa se recuperou a imagem com técnica a bromóleo, “Perfli judaico”, a mesma que anos antes cum-prira essa finalidade na Foto Revista, dirigida por A. Cunha Machado entre 1937 e 1939. Henrique Manuel Botelho começou por se revelar na década de trinta do século XX, precisamente através da colaboração que manteve com a imprensa ilustrada, sendo particularmente notado na capital por participar nos dois primeiros salões internacionais de arte fotográfci a (1937 e 38). Desde então mereceu reconhecimento no estrangeiro, ganhou prémios, e fez contactos frequentes por essa Europa fora, tendo vindo a casar com uma jovem austríaca, de quem teve dois filhos. Ao mesmo tempo nunca esqueceu as suas raízes transmontanas, vindo a promover a fotografia artística em Vidago e Pedras Salgadas onde, para lá do seu próprio chalé de vendas sazonais, deixou particular memória de cosmopolitismo na exposição de meia centena de fotografias no Vidago Palace, em 1937, repetindo mais tarde, no Casino das Pedras, em 1952, participando assim, ativamente, da difusão da modernidade no interior norte do País. Enfmi , um grato abraço ao Henrique Dreyer-Botelho por esta oportuna partilha, que nos permitiu revisitar o rico património cultural da fotografia em Braga, percorrer pela mão de seu Pai, Henrique Manuel Botelho, um itinerário artístico português. Curiosamente, também, na feliz coincidência da recente homenagem a Henrique Botelho (19562024), médico e fotógrafo homónimo, também ele radicado em Braga, há dias celebrado com a publicação de um livro retrospetivo , Meia Vida - organizado por Alfredo Cunha (DST, 2026). É verdade, ainda que se conheceram nesta cidade, que permanentemente não para de nos surpreender com as suas histórias, que nos une para lá dos tempos numa irmandade comum, sentido final do nosso património cultural que vale a pena insistentemente cultivar, preservar e revisitar. Porque, afinal, o que importa mesmo são as pessoas São os pequenos retalhos luminosos prenhes de intemporalidade e de arte como a que o(s) Henrique(s) Botelho(s) tão generosamente nos oferece(m). Associado da ASPA Miguel S. M. Bandeira