NAGORNO-KARABAKH - ACABOU A AVENTURA DO PAÍS QUE NUNCA CHEGOU A SÊ-LO
2023-10-08 07:02:04

A República Artsakh chegou ao fim 32 anos depois, capitulando face a mais uma investida militar do Azerbaijão, provocando mais de 100 mil refugiados e um realinhamento geopolítico na região rsferreira@medianove.com F ormalmente, a autoproclamada República Artsakh assinalará, em dezembro, 32 anos de existência, antes da dissolução decidida pelo governo separatista para 1 de janeiro de 2024, mas. na prática, já não haverá nada a registar, porque a quase totalidade da população abandonou rapidamente as suas casas, refugiando-se na Arménia, depois da operação militar desencadeada pelas forças armadas do Azerbaijão, que foi concluída em 24 horas. com o controlo total da região. Nagomo-Karabakh era um enclave de maioria étnica arménia dentro do Azerbaijão, numa região montanhosa, que gozava de autonomia no tempo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mas que ambicionava a autodeterminação e que, com a queda do Muro de Berlim, acabou por constituir-se como República Artsakh em 1991. Após um período de luta de guerrilha, a primeira guerra convencional ocorreu em 1992 e prolongou--se por dois anos. terminando com uma vitória de Artsakh. apoiada pela Arménia. A República Artsakh nunca foi reconhecida internacionalmente, nem pelas instituições multilaterais, como a Organização das Nações Unidas, que sempre insistiram na integridade territorial do Azerbaijão, nem sequer pela própria Arménia ou pela Rússia, com quem Erevan se alinhava. Uma paz relativa foi conseguida por 25 anos até ao segundo conflito de larga escala, em 2020. em que o Azerbaijão reconquistou território, que acabou num armistício moderado pela Rússia, mas nunca significou uma paz duradoura; o que aconteceu agora é o seguimento da ofensiva azeri deste ano. que resultou numa vitória. O que aconteceu é igualmente "o resultado do fracasso da diplomacia da Arménia em dar saliência internacional ao assunto ao longo das últimas três décadas, mas é também consequência do trabalho ineficaz e inoperante do Grupo de Minsk da OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa]", diz ao NOVO Tiago André Lopes, professor de Diplomacia da Universidade Portucalense. "Há ainda outra questão relevante: enquanto a Arménia pós--Revolução de Veludo [em 2018] optou por uma estratégia diplomática difusa, que se tenta aproximar do Ocidente, mesmo dependendo economicamente e do ponto de vista securitário da Rússia, o Azerbaijão trabalhou para manter o apoio de Ancara. ganhar o apoio de Teerão e garantir um não bloqueio de Moscovo", acrescenta. Realinhamento regional A ofensiva azeri de 19 de setembro, que incluiu um bombardeamento e, a seguir, um movimento terrestre, resultou na morte de 192 militares azeris e 511 feridos, cerca de 200 mortos, incluindo dez civis, e cerca de 400 feridos do lado contrário, segundo fontes oficiais. Resultou também em mais de 100 mil refugiados na Arménia. Nagomo-Karabakh tinha uma população de cerca de 120 mil pessoas de etnia arménia e os seus responsáveis apontam que terão restado menos de mil no território. A missão da ONU que se deslocou à região para avaliar a situação humanitária manifestou-se "impressionada com a forma repentina como a população local fugiu das suas casas". A ofensiva e ocupação reconfiguraram o mapa, de facto, do Azerbaijão, mesmo que, de jure. o território fosse já reconhecido como legalmente seu. Em termos geopolíticos, é o "reforçado o eixo Baku-Ancara--Teerão, enquanto Teerão também se aproxima de Moscovo. O antigo eixo ortodoxo Moscovo--Tbilisi-Erevan está desfeito, o que levará a Rússia a ser mais pragmática na escolha de aliados e parceiros no Cáucaso e menos civilizacional", considera Tiago André Lopes, acrescentando que esta situação será "um novo estímulo para que a Geórgia continue a encetar esforços para normalizar as relações diplomáticas com a Rússia". Erevan acusa Moscovo, que mantém militares no enclave, de ter abandonado os arménios, o que o Kremlin recusa. "A Rússia não saiu reforçada desta dinâmica, mas também não sai derrotada porque conseguiu tacitamente aproximar--se do Azerbaijão", aponta ainda o professor da Portucalense. A questão passará também por saber como se organizarão 120 mil arménios do Nagorno--Karabakh na Arménia. "Não podemos excluir que venham futuramente a radicalizar-se em torno de um projeto irredentista [de procura de integração de territórios no país] mais violento e menos acomodacionista". finaliza Lopes. "A Arménia fica marginalizada no quadro geral do Cáucaso e não ganha saliência no espaço europeu, porque o foco de Bruxelas é Kiev, Chisinau e, eventualmente, Sarajevo", diz Tiago André Lopes A ONU regista que mais de 100 mil pessoas terão fugido para a Arménia