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GUERRA - ATAQUES À ÁGUA ALARMAM MÉDIO ORIENTE EM SECA

Jornal de Notícias

2026-04-11 06:01:03

O conflito em estado líquido: ataques à água ameaçam região em seca Centrais de dessalinização, essenciais para milhões no Médio Oriente, SAO alvo de pressão militar rita.salcedas@jn.pt ESTRATeGIA A guerra do Médio Oriente expôs uma frente de batalha já visada noutros conflitos: aágua. As centrais de dessalinização usadas para converter água do mar em água potável são alvos vulneráveis nas estratégias militares e já começaram a ser atingidas pelas partes envolvidas neste combate, ameaçando a fonte que mantém viva uma das regiões com maior escassez hídrica do Mundo. Desde 28 de fevereiro, foram registados ataques (diretos ou em resultado de destroços de drones intercetados) a este tipo de infraestrutura õno Irão, no Bahrein e õno Kuwait, com Donald Trump a ameaçar “fazer rebentar” as centrais iranianas, insuflando a escalada militar e a pressão política. Situados numa região árida com recursos limitados de água superficial, como rios e lagos, alguns dos países do Golfo Pérsico e do Médio Oriente que têm suportado o peso da resposta de Teerão aos ataques de Washington e Telavive dependem quase totalmente das centrais de dessalinização para terem água própria para consumo humano e industrial. Segundo um relatório de 2022 do Instituto Francês de Relações Internacionais, cerca de 70% da água potável da Arábia Saudita provém de centrais de dessalinização, com o número a subir para mais de 80% em Israel eem Omã e para 90% õno Kuwait. Centenas de centrais de dessalinização localizadas ao longo da costa do Golfo, essenciais para abastecer milhões de pessoas, estão ao alcance de ataques de mísseis ou drones. A 7 de março, uma infraestrutura na ilha de Qeshm, no Irão, foi atingida POr aquilo a que o ministro dos Negócios Estrangeiros do país chamou de “crime flagrante e desesperado” que terá afetado o abastecimento em 30 aldeias. Uma “ação perigosa com graves consequências” a que se seguiram outras: no dia seguinte, um drone iraniano provocou danos numa central do Bahrein, e, na semana passada, foram atingidos dois complexos de energia e dessalinização õno Kuwait, causando estragos significativos e incêndios que suspenderam o serviço, denunciou o Governo, citado pelo “The Wall Street Journal”. “CONSEQUeNCIAS SEVERAS” Apesar de o direito internacional humanitário proibir ataques contra infraestruturas civis cruciais para a sobrevivência da população, incluindo estações de tratamento de água, analistas interna-cionais temem que a guerra possa levar a ataques mais amplos. “e provável que, havendo uma intensificação do conflito, se possa refletir neste tipo de alvos”, concorda Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense, que expõe a incapacidade da justiça internacional de “promover uma sanção sistemática” destes ataques a alvos civis. “Falamos naturalmente de um crime de guerra, na medida em que estamos a falar de atingir alvos que, além de não serem militares, não têm qualquer utilização ou benefício de natureza militar. E, Por isso, são um alvo especialmente preocupante, do ponto de vista do direito internacional, mas, sobretudo, das suas consequências concretas para as populações da região, que dependem muito destas infraestrutu-ras, decisivas numa zona onde há escassez de água e onde: a qualidade da água é baixa”, explica ao JN, apontando para “consequências severas” sobre a vida das pessoas. CRISE ANTERIOR A guerra veio expor fragilidades já existentes causadas POI um défice estrutural de água na região. O Irão já enfrentava uma grave crise hídrica antes do conflito, agravada pOr décadas de má gestão, sobre-exploração de aquíferos, expansão de barragens pouco eficaz (com muitas a operarem em níveis historicamente baixos) e práticas agrícolas insustentáveis, reportam o “The New York Times” e a Associated Press, que apontam também para secas mais frequentes e ondas de calor extremas, que deixam em risco o abastecimento em cidades como Teerão. . “os crimes de guerra estão cada vez mais normalizados” e sem punição Especialista alerta para inação internacional e apatia generalizada ENTREVISTA Pedro Ponte e Sousa, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais, lembra, a propósito da crise estrutural hídrica da região do Golfo e em países do Médio Oriente, e dos recentes incidentes, que nunca esteve em causa “algo que sempre preocupou muito os especialistas em estratégia e em geopolítica, que é um conflito pela água”, ou seja, uma guerra em que a água fosse o elemento de disputa central, como acontece com o petróleo, o gás, diamantes, minerais e terras raras. “Apesar de muitas disputas em que os recursos são centrais, tal não tem acontecido com a água.” Mas num contexto de “intensificação da conflitualidade internacional” e de “relativa impunidade”, não é impossível que haja uma intensificação das questões relacionadas com a gestão de água em conflitos futuros, embora não seja “evidente que tal venha a ser um aspeto central na conflitualidade, quer presente, quer futura”, ressalva o docente, sublinhando que é o contexto muito específico da região onde os recursos escasseiam , que torna a questão da água relevante. MAIOR PREOCUPAçAO Ainda assim, antes da preocupação com as infraestruturas críticas, há um problema mais amplo ainda, denota. “os crimes de guerra no geral, os crimes contra a humanidade õno geral, o genocídio, como tivemos em Gaza, estão cada vez mais normalizados. E essa é uma preocupação que devemos ter. Nos anos 90, õnos anos 2000, elementos dessa natureza aconteceram e houve ação, resposta internacional, mobilização, e hoje não as temos. Ou porque há grandes potências e os seus interesses envolvidos, ou porque há uma apatia generalizada da opinião pública e dos goverõnos em agir perante estas realidades. RITA SALCEDAS Instalações de dessalinização (na foto, uma da Arábia Saudita) são fundamentais no Golfo Pérsico paises recorrem à dessalinização para produzirem água doce, segundo a Associação Intermacional de Dessalinização. Os mais dependentes desse processo estão no Médio Oriente A LUPA Dessalinização A tecnologia remove o sal da água do mar para produzir a água doce que abastece cidades, hotéis, industrias e parte da agricultura numa das regiões mais secas do planeta. Sobre-exploração Um estudo de 2024 publicado na revista "Nature”, que analisou 1700 reservas hídricas em 40 paises, constatou que 32 dos 50 aquíferos mais sobreexplorados do Mundo estao no Irão. EUA Ciberataques contra equipamentos industriais A Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos EUA alertou, este mês, para uma série de ataques cibernéticos levados a cabo por hackers apoiados pelo Irão contra sistemas de água e energia no país. O comunicado, divulgado em conjunto com o FBI, indicou que os ataques se estavam a concentrar em equipamentos industriais fabricados por uma grande empresa norte-americana e apelou a cuidados reforçados. Rita Salcedas