FOTOGRAFIAS DE ANGOLA (E PORTUGAL) NA TATE MODERN
2023-10-01 19:20:10

O museu britânico Tate Modern apresenta uma grande exposição em que reúne obras de artistas naturais de diferentes países africanos. Até 14 de janeiro de 2024, a Tate Modern, em Londres, tem patente a exposição "A world in common: contemporary african Photography" que apresenta uma panorâmica de artistas naturais de vários países africanos que têm na fotografia e nas suas possibilidades, a tecnologia e o meio privilegiado para as suas produções. Com esta exposição, a Tate Modern mantém a tónica no exercício de reparação da representatividade das identidades que, ao longo de décadas, foram relegadas para segundo plano pelas estruturas de programação e criação artística ocidentais. Além das retrospetivas de artistas mulheres que temos visto marcar as programações de museus e outras instituições interessadas na reescrita na História e dos seus protagonistas, depois de séculos de colonização, é urgente um trabalho de investigação e de exposição sério e comprometido sobre o tecido criativo do hemisfério sul e sobre todos os espaços e tempos que o ocidente considerou inferiores e apenas alvos de práticas imperialistas e da mais vil exploração de recursos naturais e humanos. A geração de artistas que a Tate Modern apresenta nesta exposição tem em comum uma inscrição no que podemos designar como pós-memória ou memória pós-colonial, ou seja, artistas que não viveram diretamente a relação colonizador-colonizado, mas que procuram perceber de que forma esse tempo histórico é determinante para a manutenção de estruturas sociais onde persiste o racismo e a discriminação. Entre os artistas representados, merecem destaque três angolanos com fortes relações a Portugal, país onde residem (ou residiram) e trabalham. Começo por Edson Chagas (n.1977), merecedor do Leão de Ouro na 55ª Bienal de Veneza (2013), com o projeto "Luanda, Cidade Enciclopédica", constituído por com 23 fotografias onde se evidenciava a sua prática fotográfica marcadamente urbana, em que cruza marcas locais e globais do que é hoje Angola. Kiluanji Kia Henda (n.1979) é outro dos presentes, podendo caracterizar-se o seu trabalho pela base histórica, que apropria e manipula, e pelas diferentes representações que faz da memória coletiva, produzindo imagens complexas que surgem no espaço público, questionando os princípios do quotidiano. Délio Jasse (n.1980), atualmente a residir em Milão, fez parte do grupo de artistas que, com curadoria de António Ole (n.1951), fizeram a representação de Angola na 56ª Bienal de Veneza (2015): Binelde Hyrcan (n.1983), Francisco Vidal (n.1978) e Nelo Teixeira (n.1974). É outro dos angolanos que a Tate evoca, tratando-se, desta vez, de um artista com nacionalidade portuguesa, luta que travou por quase uma década e que determinou os fundamentos da sua produção artística que recupera, utiliza e transforma a memória da burocracia (carimbos, passaportes, documentos), do colonialismo e da Guerra Colonial (álbuns de família, aerogramas), recorrendo às várias técnicas de reprodução da imagem e da manipulação da fotografia para criar séries de trabalhos que sugerem uma reescrita da História, feita de sobreposições e não apenas da visão unilateral do colono. Um artista que é um ativista e que recupera os arquivos esquecidos da história para que o passado não se repita. A obra de Délio Jasse pode, por estes dias, ser também vista, na zet gallery, em Braga, onde este artista se apresenta com uma exposição individual. "A world in common: contemporary african photography" Tate Modern (Londres) até 14 de janeiro de 2024 Obra de Délio Jasse em exposição na Tate Modern, em Londres Helena Mendes Pereira