COMO O HIDROGÉNIO VERDE DEIXOU DE SER MIRAGEM
2026-02-27 22:09:05

Energia Sines chegou a prometer a exportação de gás renovável, mas vai agora produzi-lo para a indústria localFotos MATILDE FIESCHI Um polaco nascido no Brasil, dois portugueses e um indiano conversam em inglês, ao lado de dois grandes geradores, na sala 3 do HyLab , Green Hydrogen Collaborative Laboratory, que começou a operar em 2024 no Sines Tecnopolo, a incubadora de empresas de base tecnológica da Câmara Municipal de Sines. Luciano Bueno, oriundo do Estado brasileiro do Paraná, e Edgar Fernandes, professor do Instituto Superior Técnico e coordenador científico do laboratório colaborativo, explicam que a missão é adaptar as turbinas, que hoje usam gasóleo para produzir energia elétrica, para funcionarem 100% com metanol e hidrogénio verde (obtido a partir da eletrólise da água, com eletricidade de fontes renováveis). “Estamos a estudar todo o sistema de queima, de modo a fazer a conversão para novos combustíveis, o que não é uma coisa assim tão trivial. Vamos testar, daqui a algumas semanas, produzir energia elétrica suficiente para alimentar uma habitação”, explica Luciano Bueno, dizendo que este tipo de geradores podem ser usados, por exemplo, como salvaguarda de antenas de te-lecomunicações. Na mesma sala, há ainda um modelo que simula ofuncionamento do futuro gasoduto em “anel” 100% dedicado ao hidrogénio, que a REN vai construir em Sines e que ligará os produtores e os consumidores deste gás renovável. ê ali mesmo, em Sines, cidade alentejana que há uns anos era apontada como a grande promessa nacional do hidrogénio verde com milhares de toneladas que iam ser produzidas e exportadas para o norte da Europa que este gás descarbonizado começa finalmente a sair do papel. ê para isso que trabalham os 28 cientistas (de nove nacionalidades diferentes) deste laboratório, focado na otimização de toda a cadeia de valor do hidrogénio verde, da produção aos usos finais.com um valor angariado de projetos até 2030 no valor de EUR14 milhões, o HyLab tem como acionistas a EDP, Galp, REN, Bondalti, China Three Gorges Interna-tional, Smart Energy, Instituto Superior Técnico, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Inegi, INESCTEC, Universidade Nova de Lisboa, INL Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, CEiiA, Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia. “A ideia é fazer a ponte entre as necessidades da indústria e o desenvolvimentc científico e tecnológico gerado na academia”, diz ao Expresso Ricardo Rato, diretor executivo do HyLab, que integra a Agenda Mobilizadora do PRR Sines Green Hydrogen Valley, agora liderada pela Keme Energy, após a saída da Fusion Fuel por insolvência. O projeto mantém-se, mas com menos ambição, menos investimento e menos espaço, explica ao Expresso Miguel Matias, CEO da Keme: passou de 90 megawatts (MW) de capacidade de eletrólise (com uma produção de até mil toneladas de hidrogénio por ano) para apenas 10 MW (-89%); de um valor inicial de EUR162 milhões para EUR42,3 milhões (-74%), com um incentivo aprovado de EUR22,8 milhões; e de quatro lotes reservados na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) para apenas um (de 10 mil metros quadrados). Quanto aos eletrolisadores, já não serão fabricados em Portugal: “Estamos a testar três fornecedores diferentes, com prazos de entrega entre seis e nove meses”, entre suecos, alemães e chineses, garante. A previsão de Miguel Matias é que as obras no terreno comecem em meados de março, com a primeira produção de hidrogénio em junho ou julho, usando a eletricidade produzida por uma central solar para autoconsumo de 2,5 MW, que alimentará o primeiro eletrolisador de 1,5 MW. O projeto prevê a instalação de 3 MWh de baterias, a criação de uma comunidade de energia renovável e o uso de hidrogénio verde em veículos pesados (idealmente uma frota municipal de autocarros) e no armazenamento de energia por via deste gás renovável (enquanto “célula de combustível”), para ser usada pelos centros de dados da zona. Todos querem produzir gás renovável Quem também está de olho na produção de hidrogénio verde em Sines, mas neste caso em maior escala e para uso próprio, são dois dos maiores pesos-pesados da região: Galp e Repsol. A petrolífera portuguesa tomou a decisão de investir EUR650 milhões na sua única refinaria no país para construir uma fábrica de hidrogénio verde de 100 megawatts (a maior da Europa) e uma unidade de produção de biocombustível avançado (HVO) e combustível sustentável para aviação (SAF).com OS 10 eletrolisadores da americana da Plug Power já em Sines (cada um com 42 toneladas), as obras na zona sul da refinaria avançam neste momento a todo o vapor, como comprovou O Expresso no local esta semana. A Galp prevê começar a produção de hidrogénio verde no segundo semestre de 2026. O objetivo é atingir 15 mil toneladas por ano, para abastecer 20% do consumo de hidrogénio poluente da refinaria, obtido a partir do gás natural. A empresa quer ainda construir um novo parque eólico na região com 19 turbinas, num total de 129 MW e uma produção anual estimada de 308 GWh. Quase ali ao lado, a espanhola Repsol tem já em marcha o seu projeto Alba, um investimento que disparou de EUR657 para EUR820 milhões, com vista a ampliar o complexo petroquímico em 120 hectares, construir duas novas fábricas de polímeros (materiais plásticos derivados do petróleo) e aumentar a produção de 250 para 850 mil toneladas por ano. No hidrogénio verde, a empresa investirá EUR15 milhões para ter 4 MW de eletrolisadores e produzir 600 toneladas por ano. Somam-se ainda 6,5 MW de produção fotovoltaica para autoconsumo. já aprovados, que deverão aumentar para 21 MW em 2027 e para 62 MW no futuro, diz Salvador Ruiz López, diretor-geral da Repsol Polímeros.com 84% do projeto Alba construído, a Repsol prevê iniciar a operação das novas unidades no terceiro trimestre. Nacorrida ao hidrogénio verde de Sines está também a Madoqua Renewables, com o seu consórcio internacional português, dinamarquês e neerlandês MadoquaPower2X, que reservou mais 60 hectares na ZILS para futuras unidades de produção de hidrogénio e amoníaco verdes (que terão uma capacidade de produção superior a 1 GW no final da década), num investimento de EUR2,8 mil milhões. Quem não tem tanta certeza do potencial do hidrogénio verde (em Sines ou noutro lado qualquer), é a EDP, cuja central termoelétrica a carvão teve “durante mais de 35 anos, um papel estruturante no desenvolvimento económico e social da região, sendo um dos principais empregadores locais”, diz ao Expresso fonte da empresa. No entanto, com o fecho da central, no oinício de 2021, esse papel transformou-se, mas a empresa mantém as suas raízes em Sines. As chaminés de 225 metros já foram derrubadas, em outubro de 2025, e neste momento está em curso o desmantelamento das caldeiras e da sala de máquinas. “A fase de demolição tem conclusão prevista para 2028”, refere a mesma fonte, acrescentando que a área será preparada para “acolher projetos alinhados coma crescente procura por energia com origem renovável” A EDP diz que “mantém o seu compromisso com o desenvolvimento de projetos de hidrogénio verde em Sines”. No entanto, o projeto GreenH2Atlantic, da EDP e Galp, em consórcio com parceiros nacionais e internacionais, “encontra-se numa fase de aprofundamento técnico e de avaliação da sua viabilidade económica”. silva@expresso.impresa.p 2026 ê O ANO EM QUE ARRANCAM OS PROJETOS DE HIDROGêNIO VERDE DA KEME, GALP E REPSOL EM SINES EDP E GALP ESTáO A AVALIAR A VIABILIDADE ECONoMICA DO PROJETO GREENH2ATLANTIC No laboratório HyLab trabalham 28 pessoas de nove nacionalidades que estudam toda a cadeia de valor do hidrogénio verde SINES PORTUGAL PRODUZ é uma série de 12 trabalhos que o Expresso publica ao longo de 2026, ao ritmo de um por mês, sobre algumas das regiões que mais se destacam na economia nacional e que estão a afirmar-se enquanto espaços de criação de emprego, atração de investimento e dinamização das exportações. Na série damos a conhecer o que de melhor se faz nas várias regiões, como têm crescido e que desafios enfrentam.BÁRBARA SILVA