BERTHA: SEM ELA NÃO HAVIA MERCEDES
2026-02-27 22:09:03

Há 140 anos, Carl Benz ganhou o seu lugar na história do automóvel ao registar a patente que foi pedra basilar para todo o mundo maravilhoso que se desenvolveu até hoje. Mas sem a força, a determinação... e o financiamento da sua mulher Bertha, talvez a história fosse bem diferente Afrase estafada diz que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Contudo, no nascimento do automóvel como ainda hoje é, genericamente, conhecido no Planeta um motor a combustão a propulsionar uma estrutura capaz de transportar passageiros e/ou carga essa expressão fica claramente aquém do que, na verdade, sucedeu. Quando se comemoram 140 anos sobre o registo, por Carl Benz, da patente do seu “veículo movido a combustível” (e que quase coincidem com os 100 anos da Mercedes-Benz, ver caixa), revisitamos os primórdios do automóvel e o papel crucial... de Bertha Benz! o trabalho técnico de abrir um novo mundo de autopropulsão foi inteiramente de Benz, originário de uma família pobre, mas que conseguiu acabar os estudos num politécnico de Karlsrhue, em engenharia mecânica, em 1864, aos 19 anos. Trabalhou em diversas fábricas como projetista e, em Viena, numa fundição. De volta à Alemanha, em 1871, criou com August Ritter, em Mannheim, uma fundição e oficina mecânica que duraria apenas um ano, antes do arresto das ferramentas, por falcatruas de Ritter.. ê a primeira aparição de Bertha “ainda-não-Benz” Ringer. Bertha Ringer, terceira de nove irmãos de uma família rica de Pforzheim, desde jovem se interessou pela mecânica e os utensílios que o pai, carpinteiro, construía. Destinada a um casamento com um afortunado herdeiro, cruzou-se, numa excursão com a mãe, com um engenheiro quase falido que falava com entusiasmo de um projeto de uma “carruagem sem cavalos”. Casouse com Carl Benz em 1872 mas, antes de se tornar Bertha Benz, salvou a fundição de Mannheim com o seu dote! A partir daí, Bertha não só apoiou Carl no “hobby” de criar o que viria a ser o primeiro automóvel , fora do trabalho, em que Benz continuava a projetar e construir máquinas estacionárias para diversas finalidades =, como chegou a financiar muito desse desenvolvimento. Por fim, a 29 de janeiro de 1886, foi apresentada a patente “DRP 37435” de um veículo movido a combustível. Que apenas seria concedida em novembro, embora a data que conte seja a do pedido, daí se terem comemorado agora os 140 anos do que se pode considerar o “nascimento do automóvel”. E Bertha Benz? Com tudo o que contribuiu, em particular com o decisivo apoio financeiro, também deveria ter o seu nome na patente. Mas pelas leis da altura, como mulher casada, não o podia requerer... EXIBIçôES TiMIDAS, TESTE CONVINCENTE Nada abalaria, contudo, a convicção e o apoio ao trabalho do marido. O Benz Patent Motorwagen, o primeiro carro nascido ainda em 1886 e apresentado publicamente a 3 de julho, em Mannheim, tinha uma estrutura em tubos de aço e painéis de madeira, três rodas em aço forradas com borracha sólida, motor de um cilindro de 954 CC com 0,75 cv às 250 rpm, molas de lâminas só no eixo traseiro, transmissão de correia simples passada a cada roda por uma corrente como nas bicicletas. As primeiras exibições, com Carl Benz ao volante, não foram convincentes, o carro era lento e barulhento. Mas não desistiu, depois do Motorwagen n.01 fez um n.o 2 já com 1,5 cv, numa altura em que, a pouco mais de cem quilómetros de Mannheim, em Cannstatt, Gottlieb Daimler, já instalara o seu motor a combustão numa carruagem, criando o primeiro automóvel de quatro rodas. Fê-lo em conjunto com Wilhelm Maybach, o engenheiro que tornaria famosa a Mercedes, pois Daimler faleceu logo em 1900. Com a Daimler-Motoren-Gesellschaf a começar a produção das novas máquinas, mas Carl Benz agarrado ao seu perfeccionismo, foi a hora de Bertha Benz entrar de novo em ação. Pronto que estava O Motorwagen n.o 3, com 2 CVe e uma velocidade de 25 km/h, saiu de casa a 5 de agosto de 1888, pelas seis e meia da manhã, com os dois filhos mais velhos, Eugen (15) e Richard (13), sem nada dizer ao marido, nem pedir autorização às autoridades. O destino era Pforzheim, a 106 km, para visitar a mãe. Bertha Benz era a primeira automobilista do mundo a fazer uma viagem de longa distância e plena de dificuldades, começando logo pela configuração do Motorwagen com três rodas: os caminhos da altura estavam feitos para carroças ou carruagens e o centro da via era um monte de ervas, com pedras escondidas e outros obstáculos... Havia ainda o problema de o depósito ser muito pequeno. A primeira paragem foi em Wiesloch, no que ficou apelidado como o primeiro posto de combustível do mundo: uma farmácia, onde Bertha Benz comprou dez litros de benzina, tendo usado um gancho do chapéu para desentupir um tubo da alimentação. Haveria mais duas paragens em farmácias de Langenbrúcken e Bruchsal e ainda a resolução de um curto-circuito, com uma liga das meias a servir como isolante. ultimo contratempo foi uma íngreme subida em que os 2 cv do Motorwagen não foram suficientes. Mas com a ajuda dos dois filhos mais uns miúdos contratados numa quinta, lá chegou ao topo e, daí, até Pforzheim, onde chegou ao fim de onze horas, enviando um telegrama a sossegar Carl Benz. A LIçâO DE BERTHA: TESTAR ANTES DE VENDER Poucos dias depois, foi a viagem de regresso, desta vez por outro percurso, com menos subidas. Teve, no entanto, de parar num sapateiro que lhe arranjou novas “pastilhas” em couro para os tambores dos travões. E num ferreiro para reparar uma das correntes. Ao todo foram 196 km, ôno final dos quais Bertha Benz apresentou um relatório detalhado ao marido, do que deveria alterar, como uma mudança mais curta para as subidas e travões mais resistentes. E, mais importante: o lado decisivo de os carros serem testados antes de serem vendidos ao público! A contribuição de Bertha Benz para o lançamento do primeiro automóvel não se ficou por aqui. Foi também a primeira grande “ marketeer”! Porque os ecos da sua viagem espalharam-se pela Europa e fizeram com que, finalmente, Karl Benz começasse a receber encomendas que o levaram a erguer um complexo fabril. Até ao final do século XIX ainda haveria de lançar os primeiros modelos mais à semelhança do que concebemos hoje como automóvel, primeiro O Benz Victoria (1893), depois o Benz Velo (1894), ambos com quatro rodas. Ao mesmo tempo começava também a vender os primeiros furgões e autocarros, estes ainda bem diferentes daquilo que hoje conhecemos. Na viragem do século, a Benz era o maior produtor de automóveis do Mundo, com 572 unidades vendidas em 1899! o FOI COM O TERCEIRO PROTôTIPO DO MARIDO, CARL, QUE BERTHA BENZ CHAMOU A ATENCAO DA EUROPA PARA O AUTOMôVEL! São BEM VISíVEIS AS EVOLUçõES ENTRE O N. O 1 EON. O 3 COM QUE BERTHA BENZ FEZ A SUA VIAGEM HISTORICA! PASSOS CRUCIAIS A patente inicial DRP 37435, o primeiro posto de reabastecimento da viagem de Bertha Benz, na farmácia de Wiesloch, Carl Benz ao volante do Motorwagen N.01 e os seus filhos com dois modelos mais evoluídos da Benz, o Velo de 1894 eo Phaeton de 1895 CONTRASTES Na sua extrema simplicidade, o Motorwagen N.01 encerrava os princípios dos complexos automóveis de hoje. Um banco, um comando para dirigir a única roda dianteira, motor de um cilindro e sistemas de uma simplicidade desarmante. Assim nasceu o automóvel CENTENâRIO DA MERCEDES-BENZ A s rivais Porsche a BMW aproveitaram a efeméride dos 140 anos do Benz Patent-Motorwagen para felicitarem a Mercedes-Benz nas redes sociais... mas em bom rigor erraram em quarenta anos e cinco meses. A Benz e a Daimler eram duas empresas concorrentes e com uma rivalidade bem acesa. Ao ponto de, contrariando a vontade de Carl Benz, a sua empresa ter mesmo de alinhar na competição, onde a Daimler estava a obter bons resultados, catapultando vendas. Foi, como é por demais conhecido, por causa do sucesso nas corridas que os carros da Daimler, devido a uma encomenda de 36 carros do diplomata e empreendedor austríaco Emil Jellinek, passaram a ser batizados de Mercedes [nome da filha), a partir de 23 de junho de 1902. só depois da | Guerra Mundial, numa fase em que a economia alemã estava de rastos e ambas as empresas em dificuldades, houve uma aproximação entre a Benz e a Daimler, com um acordo de colaboração para contenção de custos, em 1924. No entanto, dois anos depois, a 28 de junho de 1926, as empresas acabaram mesmo por se fundir (tal como os símbolos), formando a Daimler-Benz que passou a produzir os carros Mercedes-Benz Que assinalarão, portanto, o seu primeiro centenário dentro de cerca de quatro meses. SÉRGIO VEIGA