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UM FUTURO SEGURO ENTRE BELÉM E KYIV?

Expresso Online

2026-02-26 09:04:04

A eleição de António José Seguro abre a porta para o desejo de que Portugal não se limite a habitar a periferia da Europa, mas que se proponha a desenhá-la com a moderação ambiciosa de quem sabe que o isolamento é o caminho mais curto para a irrelevância Dia 8 de fevereiro, o dia em que Portugal escolheu a moderação em vez do extremismo, na eleição de António José Seguro. O candidato moderado e europeísta ganha com o inequívoco apoio de mais de 66% do eleitorado e, assim, ganha a democracia liberal, ao invés do populismo e retóricas falaciosas. Mas os portugueses procuram mais que moderação e manutenção do status quo. Seguro tem diante de si o desafio de exercer uma magistratura de influência à altura de uma nação que aspira a padrões de vida equiparáveis aos melhores da Europa. Um estudo recente da Pordata revela que Portugal continua “na cauda da Europa” no que respeita ao poder de compra. É com os europeus que nos comparamos, e essa comparação, hoje, é desfavorável. Como gerar o crescimento económico necessário para convergir com os melhores padrões de vida? Num contexto de inverno demográfico iminente, só o reforço da produtividade, através de uma economia de inovação e alto valor acrescentado, poderá sustentar essa ambição. Tal como destacado no recente Conselho Europeu informal, a competitividade tornou-se uma prioridade estrutural perante a pressão demográfica e a ascensão de novos gigantes globais. Simultaneamente, a ordem global que escudava a Europa da guerra está em franco declínio. Na ponta oriental da Europa, a Rússia de Putin testa os limites da nossa resiliência neste quarto aniversário da invasão da Ucrânia em grande escala, lembrando-nos que a paz exige uma Defesa Europeia com uma musculatura e integração inéditas. Ouvimos também os gritos do Médio Oriente, do Irão, e das ruas de Minneapolis, nos Estados Unidos, com os sussurros adjacentes de tentativas de tomar, ou interferir, em territórios europeus. De uma perspetiva social-liberal e europeísta, Portugal pode posicionar-se como um laboratório de inovação ao serviço de uma Europa mais autónoma e mais segura. A urgência de reforçar a defesa europeia, aliada à necessidade de elevar a produtividade nacional, aponta para uma oportunidade estratégica: investir na base tecnológica e industrial da defesa europeia. Significa investir em setores intensivos em tecnologia e qualificação. Tal como a Airbus simbolizou a capacidade europeia de competir globalmente com spillovers duradouros, uma nova geração de projetos comuns pode mobilizar o talento português de empresas como a Tekever, o CEiiA e a OGMA. A magistratura de influência do presidente Seguro reúne as condições políticas e institucionais para capacitar os agentes que podem concretizar essa transformação: os clusters industriais portugueses e o ecossistema nacional de inovação. É nas empresas tecnológicas, nos centros de I&D e nas parcerias universidade-indústria, que se encontram os atores aptos a desenvolver projetos colaborativos com dimensão europeia, particularmente nas áreas da defesa e do duplo-uso, da biotecnologia e da medicina inovadora. Esta visão de um Portugal proativo estende-se à nossa capacidade de diálogo global. Somos um país que já navegou o mundo, e mesmo com um passado colonial e uma guerra violenta para o terminar, o campo diplomático mundial recebe-nos, ainda, com um sorriso. Mas onde está Portugal nas conversas europeias sobre o Mercosul, onde a língua portuguesa é chave? A política em Portugal pode, finalmente, devolver às pessoas um sentido de missão e propósito. A eleição de António José Seguro abre a porta para o desejo de que Portugal não se limite a habitar a periferia da Europa, mas que se proponha a desenhá-la com a moderação ambiciosa de quem sabe que o isolamento é o caminho mais curto para a irrelevância. Um Portugal que recusa o fatalismo, o saudosismo e o ruído do populismo. Jovens e cidadãos comprometidos com o projeto europeu estão prontos para esta caminhada, crentes de que a solidariedade para com nações irmãs, como a Ucrânia, é a medida da nossa própria liberdade. A Europa precisa da sabedoria de um povo que já foi o vilão, o explorador, o amigo e o diplomata. E quem melhor para representar essa voz, do que um presidente Seguro? O Expresso respeitou a grafia Kyiv usada por Inês Bravo Figueiredo em vez da forma Kiev que o jornal adotou. Inês Bravo Figueiredo Líder política e empresária, actualmente co-presidente do Volt Portugal Bravo Figueiredo