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ENTREVISTA A ANTÓNIO MANUEL PEREIRA DOS SANTOS - A HISTÓRIA DAS MARCAS PORTUGUESAS"

Anuário Relógios & Canetas

2026-02-25 22:05:56

Ha MAIS DE 30 ANOS QUE ANTõNIO MANUEL PEREIRA DOS SANTOS INVESTIGA ASPETOS DA HISTõRIA DA GANDARA. ? SEU AMOR a REGIaO ONDE NASCEU,AS TRADIçõES FAMILIARES, A CURIOSIDADE EA TENACIDADE LEVARAM-NO A PRODUZIR INVESTIGAçaO DE GRANDE QUALIDADE, QUE FOI PUBLICANDO. ? SEU TRABALHO NO LEVANTAMENTO DOCUMENTAL DE SêCULO E MEIO DE ATIVIDADE DE OURIVES E RELOJOEIROS DESSA ZONA, COM ? REGISTO DE CENTENAS DE MARCAS A APARECEREM NOS MOSTRADORES DE RELõGIOS DE BOLSO E DE PULSO ê EXEMPLO DISSO. António Manuel Pereira dos Santos ainda não viu concluído o seu maior sonho, o Núcleo Museológico do Ourives Ambulante, do Relojoeiro e do Conserteiro de Febres, E está a acabar um livro sobre as marcas "portuguesas" e os homens que, a partin dessa zona, povoaram o país e o antigo Ultramar com centenas de ourivesarias e relojoarias. Como e porquê começou a interessar-se pela história da ourivesaria na região de Cantanhede? Diversos fatores tiveram influência, desde logo ter nascido e crescido numa família que foi praticamente pioneira da ourivesaria ambulante na freguesia de N.a Senhora das Febres do Boeiro pelo início do séc. XX. Depois, o ter convivido de perto com esta arte, quantas vezes sofrida destes homens, que na sua grande maioria, primeiro a pé e depois em bicicleta a pedais, calcorrearam todos os recantos do país, na difusão e comercialização do designado ouro popular e mais tarde da relojoaria.com o passar do tempo, começo a aperceber-me de que esta arte de comércio "aventureiro estava muito mal documentada e havia que fazer algo em sua defesa, com a agravante de constatar que, pelas últimas décadas, toda esta laboriosa vida de mais de um século estava a desaparecer rapidamente na voragem do tempo. Havia que fazer algo na sua defesa. Para tal, na viragem do século colaborei ativamente em diversas realizações, com vista a sensibilizar os poderes públicos, no sentido da preservação da história desta arte nos moldes em que foi iniciada fazendo-Ihes sentir o quão importante era necessário preservar aquilo que é nosso. Nunca esquecendo que estas terras a Gândara se desenvolveram e projetaram muito, também devido ao laborioso trabalho das classes dos ourives e dos relojoeiros. Nesse sentido, durante anos, percorri muitos dos caminhos dos ourives ambulantes para registar a sua história, que espero em breve possa vir a ser publicada. Qual a razão para ter ocorrido tal concentração de fábricas, importadores, vendedores na região, que, nomeadamente, exportou ourives, joalheiros e relojoeiros para todo o país, onde muitos ainda hoje, ou as suas famílias, estão estabelecidos? Os ourives aparecem na freguesia de N.A Senhora das Febres do Boeiro pelo último quartel do SéC. XIX, por via dos serradores braçais (ocupação maior dos homens ao tempo na freguesia) e com a sua deslocação pelo país em torno da implantação do caminho-de-ferro em Portugal, a necessidade dos madeiramentos utilizados para as infraestruturas como pontões, túneis, viadutos, sulipas para a ferrovia, com o pagamento do seu salário a ser feito em moeda de ouro pelas empresas inglesa e francesa concessionárias da ferrovia. Os gandareses, assim eram e são conhecidos os habitantes da região, nunca foram homens de se abandonarem à sua sorte, procurando sempre um melhor futuro para si e para os seus, viram na troca da moeda de ouro junto dos fabricantes de ourivesaria, vindos do Norte à feira de Cantanhede em busca de matéria-prima, a forma de ganharem mais algum pecúlio, levando algumas peças para comercializarem nas suas zonas de trabalho. Claro que incentivados pelos fabricantes (cambistas) de ouro, que assim ganhavam duas vezes. Contudo, ? nosso serrador começa a aperceber-se de que a transação das peças Ihe é muito mais favorável economicamente do que passar o dia em torno da burra na serragem da floresta. Se num primeiro período são serradores e ourives, em média, passados três anos passam definitivamente a ourives. A difusão da classe faz-se muito pela via familiar e do casamento, criando ao longo do tempo verdadeiras dinastias de ourives, transmitindo, de geração em geração, os segredos da arte. Durante mais ou menos um século (1880-1980) a classe dos ourives ambulantes, envolveu largos milhares de homens e algumas mulheres nos caminhos da volta. Se num primeiro momento os ourives ambulantes são pessoas simples, sem escolaridade, as gerações seguintes passam a ter outros meios de formação. Os mais esclarecidos e com mais posses mandam estudar os filhos dando-lhes formação superion os outros, com menos posses, mandam-nos aprender a arte de relojoeiros e de conserteiros de ouro. Vão ser eles, no futuro, os donos das ourivesarias e das relojoarias, estabelecidas por todo o país. Dado o grande movimento dos ourives ambulantes a circular pelo país, os ourives estabelecidos de porta aberta (antigos de carreira) consideravam a classe uma séria ameaça aos seus estabelecidos negócios e durante décadas houve diversas tentativas, por vários meios, de acabar com Os ambulantes oriundos de Febres. Para fazer face a estas tentativas e impedimentos, umas dúzias de ourives ambulantes, juntaram-se e constituíram em 1925 a Associação de Classe dos Ourives Feirantes e Comerciantes de Febres , Cantanhede, agremiação que foi extinta, em 949, depois de ter cumprido o seu papel na defesa da classe. Para termos uma ideia do movimento gerado por esta classe no ano de 1935, a estação de correios de Febres teve um movimento que alcançou um total de 1 37.407 cartas, 849 encomendas postais, 735 telegramas e 2101 telefonemas, numa freguesia em que o índice de analfabetismo era dominante. A partin de 895 começam os ourives ambulantes a estabelecerem-se com ourivesarias de porta aberta, nas suas regiões da volta. Mantêm uma discreta cadência de abertura, um pouco por todo o país, com mais preponderância na província e pelos arrabaldes, em desenvolvimento, das periferias das grandes cidades, isto até à década de 60. A partin desta data o número, os seus conhecimentos e o seu poderio começam a destacar-se nas casas que montam, mas é com o 25 de Abril de 1974, com a falta de segurança para transitar com o ouro na mala verde, acompanhado do regresso dos retornados, que se dá a "explosão" de abertura de ourivesarias por todo o pais, entrando em força nas cidades para onde e com mais segurança passam a encaminhar os seus clientes da volta.com o tempo, e outro saber, as gerações seguintes, uns com formação superion e especialização na área, outros com formação técnica em relojoaria e nos consertos de ouro, os designados conserteiros, abrem novas relojoarias e ourivesarias, seguindo as pisadas familiares ou tomando-as de trespasse. Até 1974, a grande maioria dos ourives, mesmo os estabelecidos de porta aberta, não possuía oficinas próprias. Então, os consertos de ourivesaria e de relojoaria, salvo raras exceções, eram trazidos pelos ourives para os locais de partida onde eram reparados, o abastecimento da fazenda, muito por razões de conveniência, proximidade, familiaridade, confiança... era realizado na região.com todo este envolvimento, saber e a quantidade de ourives e relojoeiros em movimento, houve a necessidade de criar estruturas de apoio recuado a todo este negócio, daí a montagem das oficinas de relojoaria e de consertos de ouro, as casas de fornituras (vendiam peças para relógios), algumas oficinas dedicadas ao fabrico de peças de ouro, os importadores de ouro e de relojoaria e o estabelecimento das linhas de montagem de relojoaria. é no fundo com toda esta saga que já leva um século e meio, e ? seu verdadeiro envolvimento e dedicação, que chegamos aos dias de hoje com uma representação estruturada, sólida e bastante significativa no panorama nacional da ourivesaria e da relojoaria. Como e quando ocorreu a entrada dos relógios de marca própria no negócio? As marcas próprias de relojoaria começam a surgin incipientemente pela década de 40 do século passado, com o aparecimento e a difusão do relógio de pulso, cerca de uma década após o seu aparecimento junto das populações rurais e em torno dos grandes centros, locais percorridos pelos ourives ambulantes, e atingem o seu auge pelas duas décadas seguintes. Os pioneiros locais das marcas, ainda na década de 40 são; Manuel António Rosete com o seu nome próprio, Serafim da Silva Cavadas com a marca Mestril e a Patrão Novo e Filhos com a marca Altair. A marca própria dava ao seu detentor prestígio, junto dos seus pares, no mercado e funcionava como um argumento forte nas vendas. Temos de ser honestos e dizer que na época não existiam relógios fracos, mesmo aqueles que eram vendidos nas feiras, na candonga, pelos ciganos, eram bons. Eles vinham todos da mesma fonte, então, para os diferenciar e assim obter melhores resultados na sua venda. criaram-se as marcas próprias que, para além do argumento meramente comercial, imprimia estatuto social ao seu detenton Sabia-se que a marca x era atribuída a determinada pessoa. Em locais onde se cruzavam diversos ourives, ora na volta, nos mercados, nas feiras semanais, mensais e muito pelas feiras de ano onde se chegavam a juntan 20 ourives de barraca armada, como era o caso das feiras de ano de são Miguel, na Covilhã, o Arraial de agosto, em Arouca, a Senhora do MontAlto, em Arganil, a Feira das Cebolas em Montemor-o-Velho ou a Feira Anual de Setembro em Ferreira do Alentejo. Isto só para citar algumas e que chegavam a durar oito dias, onde os ourives estavam concentrados, cada qual procurava fazer o melhor negócio, valendo-se dos argumentos à sua disposição. Para além dos diversos artefactos de ouro, os relógios, um mercado em franco desenvolvimento, com a panóplia das suas marcas era um deles. A propósito dos relógios, recordo aqui o que me disse um ourives durante a minha investigação: Fui ao meu fornecedor habitual de relojoaria abastecer-me para fazer a Feira de São Miguel da Covilhã, isto em 1975, não queria levar tantos relógios, era um incómodo para o seu transporte, andava de motorizada, mas o meu fornecedor incentivou-me a levar aquele caixote com 90 relógios de pulso. Foi uma hora de Deus aquela. Durante os oito dias de feira vendi-os todos e não chegaram, tive de me socorrer de um colega para ter relógios até ao fim da feira. Devo também acrescentar que os ourives ambulantes foram essencialmente os verdadeiros difusores da relojoaria de pulso no país. Foram eles que levaram o relógio aos locais mais recônditos, a todas as classes e verdadeiramente o popularizaram. Possuir uma marca própria era uma das formas de possuin um produto exclusivo, prestigiar o comércio de relojoaria, e assim evitar a concorrência. No seu trabalho de levantamento das chamadas marcas portuguesas” encontrou que número? E especificamente na região onde aprofundou o seu estudo? Esta minha investigação foi realizada no espaço geográfico da Gândara (concelhos de Cantanhede, Mira e duas freguesias, Calvão no concelho de Vagos e Vilarinho do Bairro no concelho de Anadia), junto dos ourives, relojoeiros, importadores e depositários essencialmente. Da diversa documentação que me passou pelas mãos, fui anotando todas as marcas de relógios que fui encontrando. Consegui identificar cerca de 1450 marcas, que passaram pelas casas e oficinas da Gândara, registadas para venda e para reparação, a grande maioria, marcas nacionais. Destas, cerca de 350 são oriundas da Gândara, muitas delas estão deviamente registadas no Onstituto Nacional da Propriedade Industrial, outras nem por isso, muito devido a toda a burocracia do registo e aos custos envolvidos. Depois, devemos ter a noção de que à época, em determinado período, bastava uma encomenda mínima de cinquenta unidades, para o adquirente poder ver inscrita no mostrador a sua marca de eleição. Muitas vezes era o seu nome, a inversão dele, as suas iniciais, o nome de um filho ou filha, os locais de partida ou chegada, marcas badaladas na época ou simplesmente uma designação de carácter comercial. Nas marcas de relojoaria da Gândara encontramos uma panóplia variada de denominações que hoje nos espantam, mas que à época faziam todo o sentido. Um facto curioso neste instrumento comercial das marcas era o de diversos importadores, ou simplesmente depositários, criarem diversas marcas para serem comercializadas por regiões ou clientes dedicados, evitando assim o choque entre vendedores do mesmo artigo. Embora o produto final fosse exatamente o mesmo, variava a apresentação e a marca como argumento de venda. Sem sombra de dúvida que um quarto das marcas de relojoaria em circulação pelo país, até à década de 80, eram originárias da Gândara, dos seus ourives, relojoeiros, depositários e importadores. Algumas delas, poucas, ainda hoje resistem, embora com mecanismos diferentes. Houve linhas de montagem de relógios, fale-nos delas. Existiram efetivamente entre as décadas de 60 e 80 do século passado, diversas linhas de montagem de relojoaria de pulso. A quantidade necessária para abastecimento das vendas dos ourives e a mão-de-obra especializada, disponível na altura, justificaram esse investimento, com um incremento nos últimos anos, feito também pelos retornados vindos das colónias e que estavam ligados à arte. As freguesias de Febres, Vilamar, Corticeiro de Cima, Mira, Cantanhede e Covões hospedaram diversas linhas de produção em série no setor da relojoaria. Na sua grande maioria importavam de França e da Suíça os movimentos, habitualmente vinham da Unitas e da Valjoux, da Ebauches SA. A incorporação nacional assentava essencialmente na mão-de-obra, em algumas caixas, nas pulseiras, braceletes, vidros, etiquetas publicitárias e estojos, deixando assim uma mais-valia local, tanto nos bons números das verbas faturadas, como nos ganhos de empregabilidade que fizeram movimentar toda a economia circundante, não só por isto, mas também contribuíram para um período de grande dinamismo e desenvolvimento que atravessou toda a Gândara. Não sei precisarn o número de pessoas envolvidas tanto do sexo masculino como do sexo feminino, nestas linhas de montagem. Porém, sei que as maiores e mais bem apetrechadas, chegaram em determinados períodos, com grandes encomendas, a terem mais de 100 funcionários, raramente concentrados, dado que muito do trabalho era justo à peça e feito nos domicílios, apostando as firmas num bom controlo de qualidade. Habitualmente, mantinham cerca de 35/40 funcionários, como foram os casos da M. F. Lourenço, Oliveira & Irmão e da Realux.com cerca de 10/12 funcionários e menos, existiram muitas espalhadas pelos concelhos de Cantanhede e Mira. Nestas linhas de montagem foram armadas marcas locais, nacionais e algumas internacionais. Uma fatia considerável dos relógios destinavam-se ao abastecimento dos ourives ambulantes locais, mas também aos depositários locais e nacionais, que possuíam os seus viajantes a percorren as ourivesarias e relojoarias do país e, não podemos esquecer os mercados emergentes das ilhas; Açores e Madeira , bem como os de áfrica Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe , por onde mourejavam e estavam estabelecidos nas artes de relojoaria e ourivesaria, muitos dos naturais da Gândara, que eram abastecidos regularmente pelas viagens dos seus conterrâneos. Mas também houve exportação, essencialmente de marcas internacionais, para os mercados de França, Suíça, Inglaterra e Espanha, pese embora aqui a razão fosse o baixo custo da mão-de-obra. Chegaram-se a montar e cunhar cerca de 200 marcas diferentes nestas linhas de montagem. Se algumas eram apenas comercializadas pelos seus detentores em exclusivo, outras tinham como destino o mercado nacional, das ilhas, do ultramar e do Brasil. A título de exemplo, nomeio algumas das marcas armadas nestas linhas de montagem: as locais, Mestril, Triunfo, Corticima, Marinel, Liora, Girassol, Miramar, Monumental, Topázio, Magut, Nobreza, Oriental, Geny, Ribatejo, Magistral, Silva, Xonix, Tropical, Lux, Ognol, Altair..; as nacionais Packard, Andmell, Aureus, Lishora, Belex, Dunagines, Ecert, Sergines, Silgar, Volvo...; as internacionais Malty-Waltch, Helvetia, Mathey-Tissot, Timberland... Desta forma, conseguiu-se responden às solicitações e exigências do mercado, produzindo uma maior quantidade num mesmo tempo, reduzindo o preço do produto final, dado o menor custo da mão-de-obra aplicado. Houve autênticas escolas de relojoaria entre os que estiveram envolvidos no setor. Fale-nos disso. A relojoaria na Gândara tinha muito pouca expressão até ao primeiro quartel do SEC. Xx, praticamente residual e curiosa. A classe dos ourives ambulantes já levava uns bons cinquenta anos do negócio do ouro, quando começa a surgin a venda dos relógios, alguns de bolso. A grande maioria vai para os de pulso de homem e de senhora, despertadores e relógios de sala.com as vendas sempre em crescente e com a quantidade de maquinismos progressivamente mais com-plicados, surgia a necessidade de serem limpos, revistos ou reparados, o que tornou necessária muita mão-de-obra especializada nesta arte. Os mestres relojoeiros mais antigos, incapazes de satisfazer as necessidades devido à quantidade de relógios para reparar trazidos pelos ourives ambulantes, e que tinham jeito e disposição para o ensino, viram aqui uma nova forma de negócio , o ensino da aprendizagem da arte de relojoaria e paulatinamente, vão alargando e criando mais lugares nas suas oficinas. Durante cerca de cada três anos vão formando fornadas" de relojoeiros. Estou a lembrar-me de casas como; Serafim da Silva Cavadas, Marcolino de Melo e Maia, Carlos Fernandes Patrão, Leonel de Jesus Pereira, Narciso Patrão António, Reinaldo Pereira Branco, João Augusto dos Santos Ventura, Manuel Rua da Silva, Arsénio dos Santos Aspeçada, Duarte Pires e Maia e muitos mais. Casas que, ao longo de muitas décadas, foram autênticas universidades na formação da arte de relojoaria. Destas casas saiu a grande maioria dos ourives e relojoeiros que se estabeleceram de porta aberta ou trabalharam em grandes casas relojoeiras do país e do estrangeiro, nomeadamente França, Brasil, Estados Unidos e Canadá. Se numa primeira fase todo o labor de trabalho estava concentrado nos ourives da Gândara, rapidamente se estendeu a dar apoio a diversas ourivesarias, relojoarias, importadores e depositários do país, que com frequência recorriam aos serviços especializados destas oficinas. A formação de um relojoeiro em média iniciava-se pelos I2/13 anos, salvo algumas exceções, e a aprendizagem levava cerca de três anos, com mais dois ou três de prática já numa outra oficina. Qualquer rapaz, atingindo a maioridade, ficava capaz de tomar conta de uma oficina, o verdadeiro saber dava-lho o tempo. Como era comum dizer na Gândara, a aprendizagem de um relojoeiro custava um bom boi, três, quatro contos de réis, que eram pagos ao mestre. Durante algumas décadas a procura foi tanta, por uma boa oficina para aprender, que criou listas de espera e muitos pedidos pelo meio, para se obter um lugar junto de um bom mestre relojoeiro. Com o aparecimento do relógio de quartzo, no início dos anos 1970, as pessoas começaram a trocar diretamente os seus relógios de bolso e de pulso por outros com nova tecnologia. Fale-nos da desmontagem de exemplares, para aproveitamento das caixas de prata ou ouro, deitando fora ou desprezando os mecanismos. A história do declínio das marcas da relojoaria Gandaresas e também das nacionais, de certa forma, começa mais cedo, por volta de 1965, com a entrada em força no mercado dos relógios Cauny de contrabando. Os alarmes na indústria relojoeira tocaram de tal forma, que principalmente os importadores e depositários viram os seus negócios caminharem para a ruína, e a prova disso é que reuniram diversas vezes, algumas delas em Cantanhede para debaterem e acertarem estratégias para combater aquele flagelo. Ainda este não estava debelado, como nunca esteve, pois o Cauny mostrou ser um bom relógio, como atrás disse, na época não havia relógios fracos, dá-se o aparecimento dos relógios de quartzo, que passaram a ser vendidos até em supermercados e noutros tipos de espaços comerciais. ? que até essa altura era um mercado especializado, paulatinamente deixou de o ser. Os relógios mecânicos passam a ser preteridos pela nova técnica, mais precisa e praticamente isenta de reparações especializadas. Todas estas alterações se dão num período em que os ourives ambulantes principiam a abandonar a volta definitivamente ou a fixarem-se com casas de porta aberta. A troca dos relógios foi para mim uma novidade. Constatei-a em vários locais, com diversos ourives e alguns dos seus filhos, na Varziela, em Mira, em Febres, na Poutena, em Vilaman... que me falaram e mostraram caixotes de madeira antigos de barras de sabão e de marmelada, repletos de maquinismos de relógios de bolso, de marcas consagradas como Omega, Cortébert, Tissot, Zenith, todos ferrugentos pelos anos a que estavam votados ao abandono. Explicaram-me então que foi comum, durante a década de quarenta e parte da de cinquenta, muita gente a trocar os relógios de bolso, que julgavam fora de uso, alguns com caixa de prata e de ouro, por relógios de pulso em plaquê. Era a moda que assim ditava. De uma coisa eu me apercebi todos aqueles ourives tinham andado nas voltas na Beira Baixa, Beira Alta e em Trás-os-Montes, Trocavam na maioria dos casos, perdoem-me a comparação, “Lamborghinis por Fiats”. Depois de feito o negócio, o ourives retirava as caixas que iam juntan ao cascalho, para as derreter no cadinho e os maquinismos iam para o caixote da sucata. Aquando da minha investigação reconheceram efetivamente que tinha sido um verdadeiro atentado à boa relojoaria. Porém, diziam-me que o dinheiro era pouco e que na época não havia a sensibilidade que existe hoje pela preservação das boas máquinas e muito menos mercado para os absorver Então, foi a solução encontrada, o que foi uma pena. Disseram-me alguns: "Veja a fortuna que deitámos fora, para o lixo, agora já não há nada a fazer! Qual é a situação atual no setor da ourivesaria na região? E de relojoaria? Com o tempo, a crise que nos assolou na última década, as alterações sofridas pela sociedade, com as novas tendências que surgem a cada dia, muita coisa mudou. O ouro que era o pé-de-meia do português para uma aflição, foi posto de lado, com outras prioridades a tomarem o seu lugan Atualmente são as pratas, os aços e outras combinações de materiais que se comercializam.com todo este panorama, muito do setor da ourivesaria que se concentrava na Gândara desapareceu ou reduziu drasticamente. Mantêm-se alguns depositários, mas a maior força continua a ser das ourivesarias, em números que rondarão as cerca de duas mil, de naturais ou dos seus descendentes que se situam um pouco por todo o país. Fruto de todo este caldeamento, nasceu, vai para duas décadas, uma nova geração de gandareses os designers de joalharia. Muitos deles com formação superior; outros, vindos das oficinas de conserteiros de ouro, exploram nichos de mercado. Desenham e criam joias únicas assentes nos saberes tradicionais, que vêm desenvolvendo com combinações possíveis e imaginativas. Numa manufatura particularmente notável, conjugam o ouro com novos e velhos materiais como o vidro, pedrarias, o silicone, o cabedal ou mesmo outros metais mais pobres, criando peças esteticamente equilibradas, distintas, com visual e preço apelativo, assegurando um novo olhar nos caminhos da ourivesaria e dos ourives. Praticamente todos eles laboram para os novos nichos de mercado, local, regional e nacional. Relativamente à relojoaria tradicional, o panorama é bastante mais residual, desapareceram praticamente todas as oficinas, assim como os depositários. Mantêm-se apenas umas duas ou três casas de fornituras, mas que também vendem outro leque de mercadorias. Quanto aos relojoeiros que resistem, salvo um ou outro caso, já têm todos alguma idade e estão dedicados ao restauro e a uma ou outra reparação que vai aparecendo. As últimas fornadas de relojoeiros que poderiam hoje ser mestres, pela falta de trabalho na relojoaria mecânica, tiveram de abandonar a profissão, mudar de vida e uma grande maioria deles teve que emigran para poden sobreviver e sustentar a famllia. ? futuro museu recordando décadas de atividade nestes setores abre quando? Fale-nos desse projeto. ? Núcleo Museológico do Ourives Ambulante, do Relojoeiro e do Conserteiro, já devia estar em plena atividade. A obra foi consignada com verba própria pela Câmara Municipal de Cantanhede à Junta de freguesia de Febres em 2021, com um prazo de execução de 240 dias. Passaram-se todos estes anos e pouco mais do que a consolidação de edifício foi feita. Um cartão de visita degradante e pouco abonatório para a Freguesia de Febres e, ainda menos, para o local nobre da praça principal da vila, pois fica à ilharga e bem visível do Monumento ao Ourives Ambulante. ? que dirá quem nos visita? Sou uma das pessoas que há vários anos se tem batido pon esta estrutura Devemos preservar o nosso passado e o objetivo deste projeto deve ser o de colecionar preservan interpretar e expor, no sentido de promover a compreensão desta saga histórica regional, tendo o cuidado de preservar a memória, neste campo, das freguesias e dos respetivos concelhos que foram o embrião desta difusão dos ourives ambulantes, relojoeiros e conserteiros. ê importante que no futuro este núcleo seja um local de encontro de memórias através dos contributos vivos e ativos dos seus cidadãos, assim como da recolha dos importantes registos documentais (escritos, fotográficos, audiovisuais) e orais, dos seus instrumentos e marcos etnológicos, reveladores de lembranças privadas e coletivas da identidade muito própria desta classe específica que foram os ourives, relojoeiros e conserteiros e das suas respetivas tradições. Quando abre? Não sei e duvido que alguém o saiba. Espero sim que o próximo executivo da Junta de Freguesia de Febres tenha isso na devida consideração. Não Só Febres, mas toda a Gândara exige e merece que se preserve a memória destas artes erguidas a pulso pelas várias gerações dos seus filhos. Notas: Burra Engenho construído em madeira pelos serradores, e utilizado pelos próprios, como meio de suporte para o corte da madeira, utilizando a serra braçal. Fazenda ou Mala da Fazenda Designação dada pelos ourives mais antigos ao conteúdo das malas. Gândara ê uma sub-região na zona centro do país, referindo-se o termo a um espaço de terreno arenoso, pouco produtivo ou estéril, terreno despovoado, mas coberto de plantas agrestes”. ? espaço físico da Gândara vai sensivelmente da serra da Boa Viagem até às portas de Vagos no sentido Sul / Norte. ? concelho de Mira está na totalidade integrado na Gândara, e essa região integra, também, as freguesias do concelho de Cantanhede a poente e, ainda, franjas dos concelhos de Montemor-o-Velho, Vagos e Figueira da Foz. ê esta superfície arenosa, a que a fuga do mar deu origem há muitos séculos atrás e onde terríveis ventos provocando o recuo do mar e sepultando as árvores sob o peso das dunas, quando estas sossegaram", como sugere o maior escritor da Gândara, Carlos de Oliveira, em Finisterra, que vários autores designam por Gândara, isto, apesar de não ser absolutamente consensual entre muitos cronistas. Serrador braçal , ófício daqueles que, pela floresta, se dedicavam ao derrube, traçagem e transporte da madeira. Sulipas Vigas transversais de madeira onde assentam os trilhos do caminho-de-ferro, vulgo travessas. Volta , Designação relativa ao percurso feito e tempo despendido pelo ourives ambulante no exercício do seu negócio. As voltas poderiam abrangen longas distâncias e durar dias, semanas ou até meses, dependendo da quantidade de clientes a visitar e do número de romarias, feiras e mercados onde costumavam vender. Marcas de Relojoaria da Gândara e os seus detentores* A Gândara é uma sub-região na zona centro do país, referindo-se o termo a um espaço de terreno arenoso, pouco produtivo ou estéril terreno despovoado, mas coberto de plantas agrestes” o espaço físico da Gândara vai sensivelmente da Serra da Boa Viagem até às portas de Vagos no sentido Sul / Norte. ? concelho de Mira está na totalidade integrado na Gândara, e essa região integra, também, as freguesias do concelho de Cantanhede a poente e, ainda, franjas dos concelhos de Montemor-o-Velho, Vagos e Figueira da Foz e esta superfície arenosa, a que a fuga do mar deu origem há muitos séculos atrás, e onde terríveis ventos provocando o recuo do mar e sepultando as árvores sob o peso das dunas, quando estas sossegaram , como sugere o maior escritor da Gândara, Carlos de Oliveira, em Finisterra que vários autores designam por Gândara, isto, apesar de não ser absolutamente consensual entre muitos cronistas. e neste espaço físico que se desenvolveu toda a investigação de António Manuel Pereira dos Santos. Anos 40 MANUEL ANTóNIO ROSETE e ESCUMALHA Manuel António Rosete ,Vilamar, Febres, Cantanhede. Ourives ambulante. Anos 40 = BRINCA , João António da Cruz Brinca, Balsas, Febres, Cantanhede. Ourives ambulante e estabelecido em Viseu e Coimbra. Anos 40 , ROSA D OURO = Soares & Irmã , Chorosa, Febres, Cantanhede. Ourives ambulantes e estabelecidos em Castelo Branco. 1945 MESTRIL Serafim da Silva Cavadas , Cantanhede. Mestre relojoeiro e depositário. Anos 40 = MAIA e NENAI Marcolino de Melo e Maia Cantanhede. Mestre relojoeiro e depositário. 1947 = ALTAIR , Patrão Novo & Filhos, Lda. ,Vilamar, Febres, Cantanhede. Depois daquela data, surgem as marcas; GENY; MIRAMAR; MULCO; RIALTO... Importadores, montadores, exportadores e depositários, também de ouro. 195 , OTAR Fernando dos Santos Heleno Rato, Vilamar, Febres, Cantanhede. Depois daquela data surgem as marcas: AILUX; JAGUAR; LUSITANO; NOBELUX,TRABEL; ZUNDAP.. Mestre relojoeiro, importador, exportador, montador e depositário. Anos 50 ARGIL; MARVIL; TROPICAL... = Carlos Fernandes Patrão Cantanhede. Mestre relojoeiro e depositário. Anos 50 DuNIA Narciso Patrão António , Sanguinheira, Febres, Cantanhede. Depois surgem as marcas: BASILAR; ISABELA; MIRAC... Mestre relojoeiro, importadon e depositário. Estabelecido em Mira. 1957 = VANGUARD Leonel de Jesus Pereira , Fontinha, Febres, Cantanhede. Depois daquela data surgem as marcas: GIRASSOL; LIORA; MAYAL; MIRASSOL; RABOR... Mestre relojoeiro, importadon e depositário. | 958 TRIUNFO = Reinaldo Pereira Branco Febres, Cantanhede. Mestre relojoeiro, importadon e depositário das marcas: BOMANI; COLONIAL; CONFIANçA; DUREX; LUTADOR; MIRAL; REINAL; TRIANON; TRIUNFLEX.. 1958 MARGINAL Manuel Fernandes Lourenço, Balsas, Febres, Cantanhede. Mestre relojoeiro, importador, montador, exportador e depositário posterion das marcas: ALTER,ALTERMATIC; CORTICIMA; FUJI; HORA-CERTA; LOTUS; UTINA.. Anos 60 = BBB , João Augusto dos Santos Ventura , Vilamar Febres, Cantanhede. Mestre relojoeiro e montadon Anos 60 MARINEL , Manuel Rua da Silva , Febres, Cantanhede. Depois surgem as marcas: ARGO; BOM-DIA; TRIBUNO... Mestre relojoeiro, importadon, exportador depositário. Anos 60/70 Algumas das cerca de 200 marcas armadas e cunhadas pela Realux, Lda., de Cantanhede: Aldo; Alpero; Altair; Altamira; Amecar; Andmell; Apollo;Argil; Arsa;Arsan; Ascote; Astro; Asvil; Atlântico; Aureus; Beirão; Belex; Boxer; Capital; Castelo; Champion; Celfer; Cortina; Cronómetro Otap; Cruzeiral; Dagui; Distinto; Dunagines; Durival; Ecert; Eduardos; Futrica; Girassol; Gordine; Helvetia; Hotastar; Hudson; Humbert; Imperial; Jales; Java; Jocar; Josmar; Jousert; Júnior; Kadett; Kianga; Korting: Latino; Limoge; Lishora; Lobito; Luingo; Lux; Lux-Real; Malty-Waltch; Manata; Mathey-Tissot; Mestril; Mildor; Miramar; Mirazul; Mondego; Mundi; Náutica; Mundy; Nautico; Nobreza; Oidige; Orcil; Oiram; Oriental-Watch; Oriente; Oten; Packard; Pirelle; Primar-Watch; Primor; Reacel; Real-Hora; Realito; Realux; Rialto; Ribatejo; Ricar; Romur; Sagres; Saitam; Sandro; Sanitas; Sergines; Siarom; Signo; Sileno; Silva; Silgar; Sital; Solano; Sora; Sputnic; Super-Alen; Sussex; Swiss Made; Taunus; Temex; Tirrote; Timberland; Tropical; Tudor; Ultra; Volga; Volvo; Wistar e Zorba. Detentora das marcas próprias: Lux; Lux-Real; Pulsitex; Real-Hora; Realito; Realux. Raúl Loisas da Silva, mestre relojoeiro, importadon, montador e depositário, a alma da Realux. Anos 70 , Oliveira & Irmão (José e Venâncio Pessoa de Oliveira) Febres, Cantanhede. Relojoeiros, importadores, montadores, exportadores e depositários das marcas: ARGOS; CERGAL; GROVANA; MIKADO; MUNDORA; VILAR... Anos 70 Ferreira, Diogo & Louro , Porto de Covões, Covões, Cantanhede. Relojoeiros, importadores, montadores, e depositários das marcas: BELEX; JOSIL; MARTINI; MILER; REPõRTER; ZITURA; ZURIL; XONIX... Anos 70 Rosete, Antunes & Grosso Leitões, Mira. Relojoeiros, importadores, montadores e depositários das marcas: IMPERIAL e ROANG. Marcas de relojoaria detidas pelos ourives e relojoeiros, apuradas no espaço físico da Gândara, cerca de 350, até esta data. *Levantamento efetuado por António Manuel Pereira dos Santos Duarte Pires e Maia Imagens de documentação referente à Relojoaria Confiança, de Duarte Pires e Maia e ao seu estabelecimento, em Febres. Hoje, o espaço, agora chamado de Alma do Tempo, é ocupado por outro relojoeiro, João Vinhas que, também ele, tem produzido relógios de pulso com marca própria , Febres . Duarte Pires e Maia foi um relojoeiro ativo em Febres, Cantanhede, durante 70 anos. Começou a sua atividade em 1953 e só deixou de trabalhar dias antes de falecer, no início deste ano. Parte do seu espólio documental veio parar às mãos do editor-chefe do Anuário Relógios & Canetas, o jornalista e investigador Fernando Correia de Oliveira, por intermédio de um outro relojoeiro, João Vinhas, que intercedeu junto da família. Nas imagens, Duarte Pires e Maia, na sua oficina. Referência a Duarte Pires e Maia em Relógios e Relojoeiros Quem é Quem no Tempo em Portugal (Ancora Editora, 2006): MAIA, Duarte Pires e Mestre relojoeiro de Febres (Cantanhede), nasceu em Oiã (Oliveira do Bairro) em 1939. àos 12 anos começou a aprender o ofício na sua terra, onde permaneceu até 1942, ano em que foi trabalhar para uma relojoaria de Estarreja. Em 1945 fixou-se em Febres tornando-se num dos mais conceituados mestres relojoeiros reparadores da região. Disputava-se entre OS candidatos a relojoeiro a possibilidade de ser ensinado por este mestre, ainda a trabalhar em 2006. Referência, na mesma obra, a mais dois relojoeiros da região: FAUSTINO, Augusto da Cruz Relojoeiro e ourives ambulante natural de Febres (Cantanhede) iniciou a atividade em 1944, percorrendo, por conta doutrem, as áreas da Figueira da Foz, Pombal e Leiria a vender ouro e relógios, pernoitando em casas particulares que o acolhiam durante a volta. Em 29 de Julho de 1955 abriu loja-oficina em Monte Redondo (Leiria), continuando a vender por mercados e feiras, numa área de 20 a 30 Km com a caixa verde no suporte da bicicleta cheia de ouro e relógios. Era relojoeiro e ourives muito conhecido na região pela sua amabilidade e modo de negocian Mandou para Febres o seu filho Manuel, hoje também ele um bom relojoeiro, que se tornou o seu braço direito e continuou o negócio, estabelecendo-se na Guia (Pombal). Manuel aprendeu com Duarte Pires e Maia (ver) ainda a trabalhar, e um dos mais conceituados relojoeiros de Febres. Faustino nasceu a 8 de agosto de 1920 e faleceu em Monte Redondo a 13 de dezembro de 1990. PATRàO NOVO & FILHOS S.A. Empresa de Vilamar, Cantanhede, que durante grande parte do séc. Xx se dedicou à montagem de relógios, que depois comercializava no mercado nacional com marcas próprias, como "Altair , "Rialto, "Miramar , Mulco ou "Geny". Ainda existe, mas apenas mantém atividade no comércio de ouro e prata. A região de Cantanhede, mas especialmente as localidades de Vilamar e Febres, foi, nos anos 40, 50, 60 e 70 do séc. Xx um importante centro de montagem de relógios de pulso, dando trabalho a centenas de operários. Outras marcas "portuguesas dessa região e desse tempo eram " Satif", "Otar, "Jaguar , "Nobelux", Trabel ou "Sandro", muitas vezes o nome do proprietário da linha de montagem, escrito ao contrário. No interior desses relógios, havia movimentos suíços ou franceses. As caixas, essas, eram de fabrico nacional. ? motivo desta política era o facto de os relógios pagarem mais direitos alfandegários se importados já completos, situação que se agravava quando as caixas eram de metais preciosos. ? papel da Escola da Casa Pia Portugal tem uma escola de relojoaria a funcionar na Casa Pia, em Lisboa. ? carácter autodidata dos relojoeiros de Febres ou do resto do país muda um pouco em 1963, com reflexos que se sentiram até hoje. Como se recorda em História do Tempo em Portugal (Diamantouro, 2003), é nesse ano que um consórcio designado genericamente por Indústria Relojoeira Suíça, formado pela Federação Relojoeira Suíça e pelo Grupo Ebauches SA, estabelece com a Provedoria da Casa Pia um Acordo de Cooperação Técnica com a finalidade de reestruturar, modernizar e alargan o âmbito do ensino da relojoaria em Portugal. Nesse sentido, a parte suíça equipou completamente a antiga Escola, e enviou para Portugal um mestre de elevado gabarito, Jean-Pierre Delay, que tinha a vantagem de ter passado uns anos no Brasil, pelo que dominava o português. Durante dez anos, e a partir deste acordo, a Indústria Relojoeira Suíça assegurou todas as despesas de funcionamento da Escola, incluindo os vencimentos do mestre e do adjunto do Curso. A partir dessa altura, a Escola de Relojoaria, além de formar relojoeiros, passa também a promover o aperfeiçoamento e reciclagem tecnológica dos profissionais de relojoaria portugueses, através de cursos ministrados gratuitamente não só em Lisboa, mas nos mais diversos pontos do país, como Porto, Coimbra, Faro, Cantanhede, Portimão, Ponta Delgada e Funchal. Cauny | , o “inimigo” das marcas “portuguesas” Quantos portugueses, dos 50 anos para cima, tiveram como primeiro relógio um Cauny? Muitos. ? seu aparecimento no mercado, como nos refere na entrevista o investigadon António Manuel Pereira dos Santos, ameaçou diretamente as marcas que se tinham registado em Portugal. As raízes da Cauny estão na fundação da La Preparación Textil SA. Estampados y Aplicaciones Lyon-Barcelona, a 30 de abril de 1929. Os sócios iniciais são Alfredo Tey Marfà (um comerciante com escritório em Barcelona), Henri Grebler (um comerciante suíço que vivia na cidade), e Achille Laborge, Pierrer Chavrier e Alberto Poucet (três franceses, produtores de têxteis da região do Rhône-Alpes). Para a questão dos Cauny, interessa-nos seguin a história da família Grebler. Henri Grebler Weissmann nasceu em Kolomy, região austríaca da Galicia, em 1896. Era o segundo filho de uma família judaica de origem polaca. Os Grebler emigraram em 1903 para a Suíça e obtiveram em Genebra a nacionalidade helvética, em 1911.A maior parte dos seus membros foi viver para La Chaux-de-Fonds, com grande tradição em relojoaria. Dois deles, Albert e Henri decidiram expandin a sua actividade para fora da Suíça e foram viver para a vizinha região fronteiriça francesa de Rhône-Alpes, onde estabeleceram fortes laços comerciais e industriais, Em 1922, os dois irmãos são expulsos de França, acusados de terem feito negócios com países inimigos durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de longa demanda judicial, os dois irmãos são autorizados em 924 a atravessar a França, para virem a estabelecer-se em Barcelona. Henri radicou-se na cidade, enquanto Albert escolheu ir viver para o que então era considerado uma zona internacional, a cidade de Tângen Henri, o co-fundador da Lyon-Barcelona, nome por que era conhecida a têxtil, tinha uma irmã mais nova, Mireille Franz-Grebler, que passa a dirigir a Cauny, fundada em 1927. Ninguém sabe ao certo a escolha do nome Cauny para a nova marca, que teve como emblema a flor-de-lis. Talvez influência dos sócios franceses na têxtil, pois há uma localidade com esse nome em França. Além de que o emblema, a flor-de-lis, é um símbolo tipicamente francês, Quanto ao facto de a Cauny ter sido muitas vezes vendida no circuito do contrabando, ou a bordo de navios de cruzeiro no Mediterrânio, talvez se explique por Albert estar a viver em Tânger, zona franca, cidade livre de impostos de consumo. ? certo é que Mireille Franz-Grebler é uma das poucas, se não a única, mulher nessa época em cargo de direção numa manufatura relojoeira suíça. A Cauny cedo ganhou notoriedade nos mercados espanhol e português, bem como em alguns países da América Latina, como a Argentina.com calibres suíços (Valjoux, Landeron), e uma estética apurada, conseguia ter um preço competitivo face a marcas mais fortes como a Omega, a Longines ou a Tissot, mas tendo o mesmo tipo de fiabilidade helvética. Com a crise do quartzo, a Cauny sofreu, como outras pequenas marcas, a concorrência de relógios muito mais exactos e baratos, vindos do Oriente. Mudou de dono, fechou, teve a atividade interrompida durante décadas. Até que, há uns anos, um grupo empresarial português com grande experiência no setor da Relojoaria, se lembrou de aproveitar a notoriedade da Cauny em gerações e gerações de portugueses e espanhóis e decidiu comprar os direitos da marca, relançando-a. Uma crónica com Cauny.. [..] Em 1971, no meio de algumas atribulações académicas que suspenderam o meu percurso universitário, e como forma de evitar que os meus pais continuassem com encargos derivados das trapalhadas universitárias do filho, decidi empregar-me. E fiz concurso para a Caixa, que admitia algumas centenas de novos funcionários. [..] ? trabalho era sereno, burocrático, sem surpresas. Nem muito exigente, nem deixando tempo para "calaceirices". Essas ficavam para colegas antigos, "primeiros oficiais", com mais "ronha", alguns eternamente parados nas suas secretárias ou saltitando em conversas, sempre sob o olhar crítico do senhor Marques, que perscrutava as várias áreas do imenso "open space" por onde nos distribuíamos. Os contínuos, o Rui e o Abrantes, forneciam-nos, regularmente, uma caneta Bic. Quando a respetiva carga acabava, trocávamo-la por outra igual, devolvendo a velha, claro está! Nas horas vagas, tentavam impingir-nos relógios Cauny, com preços "de favor". [..] Embaixador Francisco Seixas da Costa, no blogue duas ou três coisas” O nosso primeiro Cauny Entrámos em Setembro de 1960 para a Escola Primária Nossa Senhora da Conceição (estabelecimento paroquial, pertencente à freguesia dos Mártires, em pleno Chiado lisboeta). Em junho de 1964 fazíamos o exame de admissão ao Liceu. Como era tradição por essa altura em Portugal, OS pais ofereciam aos miúdos o seu primeiro relógio. Que, invariavelmente, era um Cauny (de contrabando, que os direitos alfandegários eram na altura muito elevados). Foi o nosso caso. Esse relógio acompanhou-nos durante todo o Liceu, ainda hoje o temos, ainda hoje funciona. As peças Cauny dos anos 1930 a 1960 têm calibres diversos, desde os mais simples aos triplos calendários com cronógrafo e fases de Lua e caixas de ouro. Há em Portugal muitos colecionadores de Cauny. Como nos dizia um deles há já alguns anos, o Cauny foi, na sua época, O Timex “pi-pi-pi de quartzo” dos anos 1970, o Swatch dos anos 1980. Fernando Correia de Oliveira DURANTE MAIS OU MENOS UM SéCULO (1880-1980), A CLASSE DOS OURIVES AMBULANTES ENVOLVEU LARCOS MILHARES DE HOMENS E ALGUMAS MULHERES NOS CAMINHOS DA VOLTA. / ANTÓNIO MANUEL PEREIRA DOS SANTOS / O DECLINIO DAS MARCAS DE RELOJOARIA NACIONAIS COMEçOU POR VOLTA DE 1965, COM A ENTRADA EM FORçA NO MERCADO DOS CAUNY DE CONTRABANDO. Um apaixonado pela Gândara António Manuel Pereira dos Santos (1952, Fontinha, Febres, Cantanhede) é filho de ourives ambulante e de uma agricultora. Tem investigado e publicado regularmente nos últimos 20 anos sobre a sua região natal. Rosa Maria Mota, na sua tese de doutoramento o uso do ouro popular no Norte de Portugal no século XX (Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, 2014), agradece a António Manuel Pereira dos Santos pelas “preciosas informações e pistas de investigação dadas , fruto da "alargada investigação sobre a vida e percurso profissional dos homens que integraram a classe dos ourives e relojoeiros” da região da Gândara. Em 2006, António Manuel Pereira dos Santos foi um dos fundadores da Associação Nacional de Ourives e Relojoeiros (ANOR), com sede em Febres, sendo o seu primeiro presidente. Ele e outros 13 cidadãos ligados ao setor de ourivesaria e relojoaria, por atividade direta, tradição familiar ou interesse científico e histórico, assumiram o desafio, através deste organismo, de concretizar e apoian iniciativas de formação técnica, certificação, estudo e promoção, capazes de projetar os ofícios abrangidos pela associação, em reconhecida decadência. Segundo os dados divulgados então pela ANOR, estão espalhados por todo o país, mas também pelo mundo, com especial expressão no Brasil, Estados Unidos da América e Canadá, mais de meio milhar de estabelecimentos de ourivesaria e relojoaria, propriedade de originários da região da Gândara. Consciente da importância do setor na economia da região no último século, o grupo fundador da ANOR indicava como objetivo próximo a instalação e desenvolvimento de um núcleo museológico. A ideia do museu, germinada desde o início do século XXI, passado um quarto de século, ainda não foi concretizada. ? futuro Museu do Ouro e da Relojoaria, obra finalmente iniciada em 2021, localizado no edifício adjacente à sede da freguesia de Febres, ainda não tem data de inauguração. António Manuel Pereira dos Santos tem no prelo Ourives e Relojoeiros da Gândara , Sécs. XIX XX , XXI. Um Soares de corda manual Exemplar de carga manual ,"Cronómetro Soares", dos anos 1950 ou 1960. Mais um caso das chamadas "marcas portuguesas". Relata-nos João Vinhas: "o meu falecido avô, Amadeu, foi empregado do dono desta marca, Manuel Soares, de Pedreira de Febres. Ele teve um dos primeiros vw carochas, era ourives ambulante na zona de Galveias e Benavila. Os representantes da marca Soares eram, normalmente, outros ourives ambulantes, que Ihe compravam a preço de revenda, para depois venderem noutras zonas do país. "Nos meus 33 anos de profissão, já me passaram alguns pelas mãos. Estas máquinas, com 5, 6 ou até 7 décadas, são fabulosas. "Manuel Soares terá dito uma vez ao meu avô; "Eh Amadeu, a minha malita (do ouro), mais a tua malita, que também é minha, e mais um poucochinho que tenho lá em casa, não dariam para compran uma propriedade?" SATIF ou FITAS? SAID ou DIAS? A colocação no mostrador do apelido, ao contrário, foi uma das práticas mais frequentes entre os criadores das marcas "portuguesas. Na imagem, postal com publicidade aos relógios SATIF e SAID, e fotografia, de Luísa Ferreira, do interior de uma das últimas fornituras da baixa lisboeta, já desaparecida, com relógio de parede dessa marca. Alguma publicidade aos chamados relógios portugueses, sobretudo da zona da Gândara. FERNANDO CORREIA DE OLIVEIRA