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O ELÉCTRICO DA LAMBORGHINI MORREU ANTES DE NASCER - E A FERRARI AGRADECE

Observador Online

2026-02-25 22:03:45

Enquanto a Ferrari acelera para o seu primeiro modelo 100% eléctrico, o Luce, a Lamborghini põe travões a fundo no Lanzador: projecto está (indefinidamente) suspenso. Visão curta ou decisão sábia? Era de prever, face às hesitações e muitas reservas vindas de Sant Agata Bolognese, mas não deixa de surpreender que a Lamborghini tenha decidido suspender o Lanzador, aquele que seria o primeiro superdesportivo 100% eléctrico do construtor italiano. Isto numa fase em que a sua arqui-rival Ferrari vai colhendo os louros de, pouco a pouco, ir desvendando o Luce, o primeiro Cavallino Rampante sem tubo de escape, pois não recorre a motores a combustão. Mal ou bem, quando for apresentado no segundo semestre deste ano, o Luce ficará para sempre na história da marca fundada por Enzo Ferrari. Já o Lanzador, cujo protótipo foi revelado em 2023 e deixou “água na boca” dos amantes de superdesportivos, recebe uma certidão de óbito antes mesmo de ver nascer a sua versão definitiva que, recorde-se, primeiramente foi apontada para 2028 e depois derrapou para 2029. Agora, o projecto foi indefinidamente para a gaveta, abrindo espaço para (novas) comparações. O facto de a Lamborghini recuar, enquanto a Ferrari avança vai, decididamente, acentuar o contraste entre ambas, reposicionando os pratos da balança na disputa tecnológica que as caracteriza desde sempre. Para já, o que é certo é que não há certezas de que o Lanzador venha sequer a ver a luz do dia. O ponta-de-lança na ofensiva eléctrica da Lamborghini fica congelado indeterminadamente, conforme assumiu o CEO Stefan Winkelmann, em declarações ao jornal britânico The Sunday Times. Isto porque uma marca de luxo não se pode dar ao luxo de ter hobbies que consomem muito dinheiro “Investir fortemente no desenvolvimento de veículos eléctricos quando o mercado e a própria base de clientes não estão para aí virados/preparados, seria um passatempo oneroso e financeiramente irresponsável para com os accionistas, os clientes, e até para com os nossos empregados e as suas famílias”, declarou Winkelmann à referida publicação. Estranho é que a conterrânea Ferrari não tenha esta mesma “sensibilidade” e não seja tão prudente. Pelo contrário, o fabricante de Maranello parece apostado em aproveitar o momento para arriscar e tomar as rédeas da liderança tecnológica dos superdesportivos do futuro. Quando é que já ouvimos isto? Um cronograma que recua em planos de electrificação total, alegando-se para tal falta de interesse dos consumidores e um mercado pouco maduro, não é novidade para o Grupo Volkswagen. O recuo da Lamborghini alinha pela marcha-atrás da Porsche, marca que também pertence ao conglomerado alemão e que tem vindo a adiar o lançamento de eléctricos-chave, como os futuros 718 Cayman e 718 Boxster totalmente eléctricos, desenvolvidos desde 2022 e originalmente previstos para chegarem ao mercado em 2026 (ou, no mínimo, no início de 2027), mas cujo calendário sofreu sucessivos atrasos. E não é evidente que se fique pelas derrapagens, pois o construtor de Estugarda estará mesmo a ponderar abandonar ambos os projectos para reduzir custos. Este reposicionamento quer da Lamborghini quer da Porsche não deverá ser alheio às dificuldades técnicas e industriais que o Grupo Volkswagen tem vindo a acusar rumo à electrificação, tudo levando a crer que a estratégia destas duas marcas para os próximos tempos é dar prioridade aos híbridos plug-in, rentabilizando ao máximo os motores a combustão (até que a legislação o permita?) e minimizando apostas de risco. Assim, poupa-se (muito) em investimento e “poupar” é dos verbos mais conjugados nos últimos tempos para os lados de Wolfsburg. Recorde-se que o Grupo Volkswagen está a implementar cortes massivos de custos e potenciais reestruturações a que nenhuma das suas marcas está imune. Até 2028, o conglomerado alemão planeia uma redução de custos de 20%, com reorganização interna, racionalização de projectos e uma apertada vigilância sobre investimentos de risco. Aparentemente, o Lanzador não valia (para já) o risco. Resta saber se o que se ganha com este recuo compensa o que se perde, em termos de imagem e de reputação. É que o Lanzador pode ter sido provisoriamente descartado por ser um “capricho caro”, mas o preço do atraso poderá vir a revelar-se elevado. Regra geral, tal como em pista, no universo dos superdesportivos quem hesita perde. A Ferrari não hesitou. A Lamborghini decidiu esperar. E o futuro não costuma esperar por ninguém Simone Carvalho