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SOLUÇÕES PARA A SAÚDE CHEGAM AO MERCADO ATÉ 2028

Expresso Online

2026-02-20 22:09:05

Consórcio de 87 entidades está a desenvolver 107 produtos e serviços. Mas o SNS ainda não tem prevista a sua integração Dois terços das 107 soluções desenvolvidas no âmbito da agenda mobilizadora Health from Portugal, financiada em EUR92 milhões pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), deverão estar no mercado até 2028, estima Joaquim Cunha, diretor-executivo do Health Cluster Portugal e um dos líderes do consórcio. Não há, porém, garantias de que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) esteja preparado para as integrar. O consórcio, encabeçado também pela Prológica, entretanto adquirida pela Glintt, reúne 87 parceiros (entre empresas, universidades, centros de investigação e unidades hospitalares) e está a desenvolver produtos e serviços que vão da inteligência artificial (IA) aplicada ao diagnóstico a ferramentas digitais de monitorização de doentes e apoio à decisão clínica. Algumas soluções já estão concluídas e encontram-se no mercado ou em fase de teste em Portugal e no estrangeiro. Incluem ferramentas digitais para monitorização clínica, algoritmos de processamento automático de imagens de ressonância magnética, uma plataforma de suporte à decisão em oncologia, soluções para gestão de ensaios clínicos e aplicações móveis para recolha de dados gerados pelo doente. Com o aproximar de 30 de junho, o prazo formal para a conclusão dos projetos, Joaquim Cunha não tem dúvidas de que tudo será cumprido, ainda que a fase comercial dos projetos só ocorra após essa data. Por esta altura, a taxa de execução da agenda do PRR para a Saúde ronda os 87%. Em termos financeiros, cerca de EUR58 milhões já terão sido transferidos para os parceiros do consórcio. Convicto de que “o ecossistema nacional de inovação em Saúde tem uma fase antes e depois da agenda”, o responsável destaca que o principal efeito deste projeto foi “a criação de massa crítica e de uma dinâmica de cooperação alargada entre a ciência, a indústria e o sistema de saúde, que não existia com esta dimensão”. Projetos da agenda do PRR para a saúde deverão gerar cerca de EUR100 milhões em volume de negócios até 2030 Parte das 107 soluções têm como meta contratual, no PRR, atingir níveis avançados de maturidade tecnológica, como protótipos validados ou sistemas testados em ambiente relevante, e não necessariamente a comercialização imediata. A fase de expansão comercial poderá, por isso, acontecer após 2026. Mas a expectativa é de que “essa maturidade tecnológica se traduza em receita nos anos seguintes”. Os promotores da agenda estimam que cerca de EUR100 milhões possam ser gerados em volume de negócios até 2030, com 30% a 40% a terem como destino mercados externos. O contexto é favorável. A fileira da Saúde tem vindo a ganhar peso nas exportações portuguesas: em 2024 ultrapassou pela primeira vez os EUR4 mil milhões; em 2025, até novembro, as vendas ao exterior já somavam EUR4,6 mil milhões, num novo ano recorde, novamente impulsionado pelo sector farmacêutico, que representa 6,2% das exportações totais do país e 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Olhando para a última década, as exportações da Saúde mais do que duplicaram e chegam atualmente a 183 mercados, com destaque para Estados Unidos da América, Alemanha, Espanha, França e Bélgica. As preparações farmacêuticas continuam a liderar, mas os dispositivos médicos e as soluções tecnológicas têm vindo a ganhar expressão, ainda que parte do contributo do software não seja totalmente captado nas estatísticas oficiais. É neste segmento que a agenda pretende ser um reforço. Integração no SNS “em debate” Os sistemas de saúde enfrentam pressão crescente devido ao envelhecimento da população, ao peso das doenças crónicas e à limitação estrutural de recursos públicos. Joaquim Cunha diz que “vamos ter de ser capazes de fazer mais com menos”. A chamada smart health (que combina dispositivos médicos, software, dados e IA) “vem permitir deslocar cuidados do hospital para casa, reforçar a prevenção e apoiar decisões clínicas com base em informação estruturada”. Um dos pilares menos visível mas mais estruturante da agenda é o desenvolvimento de ferramentas para utilização secundária de dados clínicos: a ideia passa por estruturar e anonimizar informação gerada no sistema de saúde, como exames, diagnósticos, histórico clínico, permitindo que seja utilizada para investigação, desenvolvimento de novas terapêuticas ou melhoria de políticas públicas. “Isto é ouro”, resume Joaquim Cunha, sublinhando que o desafio está em garantir níveis elevados de anonimização sem perder a possibilidade de acompanhar o percurso clínico do doente ao longo do tempo. Inovação financiada pelo PRR poderá chegar mais aos grupos privados de saúde do que ao próprio SNS O ponto mais sensível continua, no entanto, a ser a integração das soluções no SNS. Ao contrário do que acontece com medicamentos, cujo processo de aprovação, entrada no mercado e comparticipação está claramente definido, “não existe ainda um percurso institucional equivalente para aplicações digitais ou software clínico”. Vários países europeus criaram modelos específicos para integrar aplicações digitais nos seus sistemas de saúde. Em Portugal, “o debate está em curso”, mas ainda sem um instrumento operacional definido. A questão não é apenas tecnológica, mas também regulatória. No sector público, as “regras da contratação pública acrescentam complexidade a processos que exigem rapidez e adaptação tecnológica”. O diretor-executivo admite que, sem um mecanismo de integração, parte da inovação financiada com dinheiro público poderá encontrar maior penetração no mercado internacional ou nos grupos privados de saúde do que no próprio SNS. “O que nasceu aqui não acaba em 2026”, diz. Vários parceiros da agenda Health from Portugal apresentaram já projetos às miniagendas do Portugal 2030, procurando dar continuidade a desenvolvimentos iniciados no âmbito do PRR ou explorar novas aplicações comerciais das tecnologias criadas. Estas candidaturas têm menos financiamento e foco mais direcionado, mas permitem manter o investimento em inovação e a lógica de consórcio empresarial. O responsável afirma que a execução da agenda decorreu sem sobressaltos institucionais relevantes e saúda a articulação entre o IAPMEI - Agência para a Competitividade e Inovação, entidade gestora destes projetos, e os parceiros do consórcio. Na sequência das tempestades que assolaram o país nas últimas semanas, revela que foi feito um levantamento, mas que “não haverá necessidade de reprogramação” Termómetro deteta otites mais cedo O Otitest parece um termómetro de ouvido comum, mas vai mais longe. Além de medir a temperatura, analisa a cor do tímpano para identificar sinais de otite logo numa fase inicial. Liga-se a uma app e faz a leitura automaticamente, mostrando um resultado simples: positivo ou negativo. Foi pensado para ser usado em casa e quer ajudar as famílias a agir mais cedo, evitando complicações, sobretudo nas crianças. Desenvolvido na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e levado ao mercado pela Metablue, o dispositivo está na fase final de validação e certificação. Sensor simplifica exames urológicos O HydruSensor é um pequeno sensor integrado em cateteres e stents urinários que permite medir, de forma contínua e sem fios, a pressão no trato urinário. Desenvolvido pela portuguesa Hydrumedical, o dispositivo recolhe dados ao longo de mais de 24 horas (ao contrário dos exames tradicionais, feitos apenas no hospital e por curtos períodos), dando aos médicos uma imagem mais completa e realista do problema. A informação é enviada para um software de apoio ao diagnóstico. O objetivo é tornar os exames menos invasivos para o doente. Capacete hospitalar contra infeções O Centro Hospitalar Universitário São João e o CEiiA criaram, no âmbito da agenda do PRR para a Saúde, um capacete hospitalar, com ventilação própria, para proteger melhor médicos e enfermeiros em contextos de risco infeccioso. Além de funcionar como uma barreira contra vírus e bactérias, garante circulação de ar no interior, tornando mais confortável o uso durante cirurgias longas. A solução quer aumentar a segurança das equipas de saúde e deixar os hospitais mais preparados para enfrentar futuras crises sanitárias. Mariana Coelho Dias Jornalista Mariana Coelho Dias