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O “INVERNO DOS ELÉTRICOS” ESTÁ A TORNAR-SE GLOBAL. NEM A TESLA ESTÁ IMUNE

AEIOU.pt Online

2026-02-19 22:06:08

Jure Divich / Depositphotos Os elétricos chegaram a ser vistos como o futuro nos EUA. Agora, correm o risco de entrar em curto-circuito. Mudanças de política, tarifas e perturbações nas cadeias de abastecimento despertaram receios de um congelamento profundo do sector - que se prepara para um “inverno dos veículos elétricos”. Os veículos elétricos enfrentam uma tempestade perfeita nos EUA - e isso ameaça lançar a indústria num verdadeiro “inverno”. Uma combinação de alterações nas política de apoios e tarifas, e convulsões na cadeia de abastecimento levou construtores que antes definiam metas ambiciosas para os elétricos a reverem estratégias, despedirem trabalhadores e a reforçarem a aposta em veículos híbridos e a gasolina. Este “inverno” dos elétricos está agora a tornar-se global, e a afetar particularmente a Tesla, diz o Business Insider. Tanto os EUA como a China registaram uma queda acentuada nas vendas de elétricos depois de reduzirem o apoio público. As vendas da Tesla na China atingiram, em Janeiro, o valor mais baixo desde 2022, e a fabricante de Elon Musk também enfrenta dificuldades nos EUA e na Europa. As vendas de veículos elétricos em toda a indústria automóvel caíram 3% em todo o mundo em Janeiro, face ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Benchmark Intelligence publicados na sexta-feira, numa altura em que as mudanças de política nos EUA e na China ameaçam lançar o sector num “congelamento” prolongado. Na América do Norte e na China, as vendas recuaram 33% e 20%, respetivamente, no mês passado. Nos EUA, as vendas de elétricos afundaram-se desde a eliminação, em Setembro, do crédito fiscal de 7.500 dólares para novos veículos elétricos, e vários CEO e especialistas do sector têm avisado que os próximos anos serão atribulados. Na China, os elétricos representaram cerca de metade de todos os veículos vendidos no ano passado. Mas as empresas chinesas enfrentam também desafios próprios, depois de o Governo ter avançado para o fim de uma isenção fiscal importante na compra de elétricos e de ter ajustado o programa de retomas, tornando-o menos generoso para veículos a bateria. A fabricante de Elon Musk vendeu menos de 20.000 veículos na China em Janeiro, segundo dados da China Passenger Car Association, o valor mais baixo desde o final de 2022. Ao contrário de muitos outros construtores ocidentais na China, a Tesla tem conseguido, em grande medida, travar a vaga de concorrentes locais e proteger a sua quota num mercado que é o maior do mundo. Ainda assim, o abrandamento do mercado de elétricos e a falta de novos produtos (descontando atualizações e variantes, a Tesla não lança um novo modelo na China desde o Model Y, em 2021) deixaram a empresa norte-americana mais vulnerável. Dados do sector divulgados na semana passada pela CNBC sugerem que, em Janeiro, o Model Y foi ultrapassado em mais do dobro pelo YU7 da Xiaomi, um modelo que foi amplamente saudado como um rival sério do elétrico mais vendido da Tesla quando a fabricante de smartphones o lançou, em Junho do ano passado. Em 3 minutos após o lançamento, a empresa recebeu 200 mil encomendas. E no ano passado, a BYD tirou à Tesla a coroa de maior vendedora mundial de veículos a bateria, embora a empresa chinesa tenha também visto as suas vendas cair 30% em Janeiro, em termos homólogos, sinalizando um arranque difícil para 2026. Fora da China, o cenário também não é animador para a Tesla. A empresa continua a debater-se na Europa, depois de ter enfrentado, no ano passado, uma forte contestação devido às intervenções de Musk na política local. Em novembro de 2024, após o colapso da então coligação de centro-esquerda de Olaf Scholz, Musk chamou tolo ao chanceler alemão e apelou ao voto na AfD. Em janeiro do ano passado, apelou a Carlos III que dissolvesse o parlamento, e criticou o primeiro-ministro Keir Starmer - que acusou de “proteger gangs de violadores”. Apesar de uma recuperação em alguns mercados, como Espanha e Itália, em Janeiro , os registos da Tesla colapsaram 42% em França e desceram para apenas 82 carros na Noruega, um país particularmente favorável aos elétricos. No Reino Unido, onde os concorrentes chineses da Tesla não enfrentam tarifas, a BYD vendeu quatro vezes mais automóveis do que a Tesla no mês passado, depois de os registos da construtora sediada em Austin terem caído para metade. Em 2025, a BYD vendeu, pela primeira vez, mais veículos 100% elétricos a bateria do que a Tesla. A quebra persistente surge apesar de a Europa ser uma das poucas regiões a registar, até agora este ano, um aumento da procura por elétricos. As vendas cresceram quase 25% em Janeiro, em termos homólogos, segundo os números da Benchmark. As dificuldades da Tesla na China e na Europa significam que a tentativa de voltar ao crescimento, após dois anos de quedas anuais nas vendas, começou de forma atribulada. A empresa atravessou também um período complicado nos EUA desde o fim do crédito fiscal: as vendas no último trimestre de 2025 caíram 15% face ao ano anterior, segundo dados da Cox Automotive, embora as vendas de Janeiro tenham ficado apenas 2% abaixo das do ano passado. A Tesla está longe de ser a única construtora norte-americana a sentir o impacto do “inverno” dos elétricos. As três grandes de Detroit - Ford, GM e Stellantis - anunciaram em conjunto mais de 50 mil milhões de dólares em encargos associados aos seus negócios de veículos elétricos nos últimos meses, à medida que mudam de rumo para vender mais automóveis a gasolina e híbridos. Em Janeiro, foram vendidos apenas 90.000 veículos elétricos na América do Norte, segundo os dados da Benchmark. Ainda assim, este “inverno dos elétricos” pode não preocupar a gestão da Tesla, numa altura em que a empresa está a desviar rapidamente o foco para lá da indústria automóvel tradicional. No mês passado, a Tesla anunciou que vai acabar com os modelos Model X e S, para criar uma nova linha de produção para o seu robô humanoide Optimus, e previu que o futuro Cybercab, o robotáxi da empresa, tornará obsoletos os atuais métodos de transporte. “Estamos literalmente a dizer o que vamos fazer e já o dizemos há algum tempo”, afirmou Musk. “Acho que, a longo prazo, os únicos veículos que iremos fabricar serão veículos autónomos, com a exceção do Roadster da próxima geração”, acrescentou. ZAP // ZAP