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ESPAÇO, A NOSSA NOVA FRONTEIRA: OS OITO PROJETOS QUE PROMETEM PÔR OS PORTUGUESES A OLHAR O CÉU

Expresso Online

2023-09-25 12:41:07

A corrida ao Espaço também passa por Portugal através de oito consórcios que pretendem lançar satélites para órbitas baixas entre 2024 e 2026. Os sucessores do PoSat têm por destino órbitas baixas e quase sempre a vastidão dos oceanos Os primeiros lançamentos estão previstos para 2024, mas tudo indica que será 2025 a dar o tiro de partida para uma corrida ao Espaço como nunca se viu em Portugal. Trinta anos depois do lançamento do famoso PoSat, cujo lançamento é assinalado esta segunda-feira, há pelo menos oito consórcios que receberam fundos públicos e que estão bem posicionados para o lançamento de mais de 30 satélites com objetivos comerciais e científicos. As primeiras descolagens estão agendadas para o primeiro trimestre de 2024 e deverão ser levadas a cabo por um satélite de um consórcio liderado pela Thales-Edisoft Portugal e por uma segunda missão protagonizada pelos alunos do Instituto Superior Técnico. Há ainda três projetos que, tendo levado a cabo os trabalhos de fabrico das máquinas voadoras, ainda terão de encontrar financiamento e boleia num foguetão nos próximos tempos. Todos os projetos destinam-se a órbitas baixas, que andam à volta dos 500 quilómetros de altitude e quase todos envolvem pequenos satélites que têm como função primordial a recolha de dados dos oceanos. Entre todas estas missões, a grande fatia das atenções está centrada nas três que garantiram uma boleia financeira de EUR137 milhões do Programa de Resolução Resiliência (PRR) , e que, no caso de captarem os necessários investimentos de privados, também prometem abrir caminho a uma nova unidade de fabrico de satélites e até à instalação de uma antena no Polo Norte. Neste trio de consórcios encontra-se uma constelação liderada pela LusoSpace que deverá descolar no próximo ano com o lançamento de pequenos satélites que localizam navios. Para 2025 e 2026, aguardam-se os dois projetos de maior envergadura no Programa de Recuperação e Resiliência: uma constelação liderada pela IdD Portugal Defence que pode reforçar a segurança nacional, e a descolagem dos primeiros satélites do consórcio liderado pela GeoSat que vão integrar a futura Constelação Atlântica, que é desenvolvida por Portugal e Espanha. “A Constelação é uma iniciativa de Portugal e Espanha, mas já estão a ser feitas diligências para alargar a outros países”, informa Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. A constelação ibérica vai ser lançada e operada por entidades comerciais, com o propósito de disponibilizar dados de observação da Terra que podem ser úteis para o combate a incêndios, o ordenamento do território ou a monitorização dos mares, entre muitos outros negócios. “Ainda vai ter de ser definido um modelo de governação que determina como é que os intervenientes de diferentes países acedem aos dados”, acrescenta. A constelação ibérica pretende seguir uma “lógica cooperativa”. Ricardo Conde recorda que os participantes nacionais vão ter acesso aos dados recolhidos por todos os satélites que compõem a constelação quando passam sobre a área de soberania nacional , mesmo que sejam operados por entidades espanholas. A mesma lógica se aplica aos satélites portugueses quando sobrevoam território espanhol. Altas resoluções Calhou ao consórcio liderado pela Geosat a maior fatia de financiamento e também o maior protagonismo. Além de fornecer um máximo de seis satélites para a Constelação Atlântica, o consórcio está a trabalhar numa parceria com o centro de engenharia CEIIA e com a alemã OHB para avançar com uma unidade de fabrico de satélites, que pode evoluir para encomendas de terceiros no futuro. Para a GeoSat é um reforço do estatuto atual: “Na Europa, só há duas empresas que conseguem captar imagens de muito alta resolução a partir de satélites: a Airbus e a GeoSat”, sublinha Vilhena da Cunha. Em 2021, a GeoSat entrou no restrito clube das empresas que gerem satélites com câmaras de alta e muito alta resolução ao comprar, a preços de saldo e na sequência de uma falência, dois satélites já em órbita. Um deles garante resoluções de 20 metros em faixas de 600 Km de largura, mas há um segundo que capta imagens de muito alta resolução (até 40 centímetros ou cm) com a ajuda de Inteligência Artificial (IA). O consórcio quer evoluir agora para a construção de três satélites com câmaras que alcançam resoluções óticas de 50 cm, mas que podem ser refinadas abaixo dos 40 cm com o recurso da IA. Também se prevê a construção de oito satélites que captam imagens de alta resolução (1 a 2 metros), e que se distinguem por fazerem “revisitas” do mesmo local a cada seis horas. Com dois metros de altura e um de diâmetro, os satélites meio-arredondados da Geosat deverão pesar entre 150 e 200 Kg. A empresa tem como meta fazer os primeiros lançamentos em 2025. No roteiro, também constam centros de dados e, possivelmente, uma antena no Polo Norte. O consórcio já garantiu através do PRR um investimento de EUR75 milhões para a nova constelação , mas nos planos da empresa consta um orçamento total de EUR100 milhões quando tiver concluído a construção de um total de 11 satélites. Os satélites da GeoSat vão fornecer imagens captadas por câmaras óticas em diferentes frequências (ou “cores”) que facilitam a análise de fenómenos na Terra, mas podem ter operacionalidade limitada em certos cenários. E é nesse ponto que a constelação do consórcio liderado pela IdD Portugal Defence, que é tutelada pelo Ministério da Defesa, pode fazer a diferença, com o uso de radares de abertura sintética. Alexandra Pessanha, presidente da IdD, recorda que os radares usados permitem fazer observações da Terra “de dia e de noite e sob quaisquer condições climáticas, ao contrário das tecnologias óticas”. Na IdD há a expectativa de construir 15 satélites com pesos acima dos 50 Kg que orbitam a um máximo 600 Km altitude, e também usam tecnologia AIS para a localização dos maiores navios. Tendo em conta a combinação de tecnologias e os líderes do consórcio ficam criadas as condições para que possa prestar serviços na área da segurança nacional. A IdD gizou um plano com investimentos máximos de EUR80 milhões, mas só garantiu ainda EUR13 milhões do PRR que comparticipam os três primeiros dispositivos. A constelação só fica totalmente operacional em 2030, prevê Alexandra Pessanha. A Constelação VDES também permite monitorização marítima , mas já faz a aposta no standard que deverá suceder à tecnologia AIS e que dá, precisamente, pelo nome de VDES. O consórcio é liderado pela Lusospace e pretende criar “um Twitter espacial e marítimo”, explica Ivo Vieira, diretor da empresa que tem vindo a trabalhar no fabrico de uma constelação de 12 pequenos satélites de 10 Kg, que deverá ficar completa em 2025, enquanto orbita a 500 quilómetros de distância. O projeto está orçado em EUR15 milhões, sendo que EUR10 milhões virão do PRR. “É um sistema que permite comunicar alertas meteorológicos ou incidentes, localizações entre outras coisas”, lembra Ivo Vieira. Aeros , A missão que descola em fevereiro Depois de dois anos de trabalhos, o satélite Aeros aguarda apenas pelo momento de embarcar num dos foguetões da SpaceX para rumar a uma órbita sincronizada com o Sol, a 510 de quilómetros da Terra. O lançamento está agendado para fevereiro de 2024, informa a Thales-Edisoft Portugal, que lidera o consórcio que desenvolveu este satélite que tem propósitos de monitorização da fauna marinha. O Aeros tem as dimensões de 10 por 10 por 30 centímetros e pesa cerca de cinco quilos. Está equipado com uma câmara que capta várias faixas da luz visível. Esta câmara garante grande resolução do local filmado, mas é limitada do ponto de vista da extensão das áreas captadas. E por isso, o Aeros conta com uma segunda câmara que ajuda a localizar as captações da primeira câmara com imagens mais abrangentes. A estas duas câmaras junta-se a tecnologia de rádio que permite obter sinais emitidos por etiquetas incorporadas em animais marinhos monitorizados por autoridades e cientistas. Além da monitorização da fauna, o satélite Aeros ficará apto a recolher dados relacionados com a salinidade, a clorofila e outros indicadores úteis para aquacultura, autoridades marítimas ou entidades ambientais. “Estes dados vão ser cedidos sem custos à comunidade. O Aeros pretende ser uma demonstração de capacidade, que poderá abrir caminho à cedência de dados para outras empresas”, explica Hélder Silva, responsável pelo Software Embarcado na Área Aeroespacial da Thales-Edisoft Portugal. Do consórcio também fazem parte CEIIA, DSTelecom, Spin.Works, Instituto Superior Técnico, Universidades do Minho e do Algarve, Air Centre, Colab+Atlantic, IMAR e MIT Portugal. O investimento é suportado em dois terços pelos programas Compete2020 e MIT Portugal, ficando os restantes parceiros do projeto responsáveis por cerca de 0,8 milhões de euros. “Estamos a entrar na era do Novo Espaço, que tem criado oportunidades para vários operadores e fabricantes de satélites que são mais simples, baratos e pequenos”, conclui José Freitas, diretor da Área de Aerospaço e Segurança Thales-Edisoft Portugal. Estudantes em busca de aviões No Instituto Superior Técnico, há a expectativa de lançar o IST SAT1 a partir da Guiana Francesa, no primeiro trimestre de 2024. A estreia poderá chegar com a boleia até aos 550 quilómetros de altitude naquele que, eventualmente, será primeiro voo do lançador europeu Ariane 6. “Além disso, deveremos ser o primeiro projeto português a estrear o pedido de licença à Anacom para comando e controlo do satélite, já no âmbito de uma portaria que regula os seguros de responsabilidade civil para as atividades espaciais”, explica Rui Rocha, professor do IST. O IST-SAT1 não tem mais de um quilo, e é um cubo de 10 centímetros de aresta , mas os propósitos podem ser quase do tamanho de um oceano. “A bordo segue um recetor da tecnologia ADS-B que hoje é usada para localizar aviões a partir de Terra. A ideia é que se possa fazer essa localização também a partir do Espaço, para cobrir zonas dos oceanos que ainda não estão cobertas”, acrescenta Rui Rocha. O projeto, que cumpriu os desígnios prioritários ao fomentar mais de 30 teses académicas, e envolver cerca de 50 alunos, pretende também testar um novo recetor ADS-B que pode ser instalado em pequenos satélites que funcionam como alternativa às constelações de maior porte que já vão disponibilizando este tipo de localização. Se tudo correr bem, o satélite poderá abrir portas a futuros licenciamentos da tecnologia para empresas que pretendam criar constelações que operam em ADS-B, que é hoje obrigatório na aviação civil. O projeto financiado pela ESA teve um orçamento de 300 a 400 mil euros. Magal: há peixe no radar A constelação Magal tem em vista o desenvolvimento satélites que recorrem à altimetria radar para monitorizar o nível das águas do mar, com uma precisão de dois a três centímetros, após os processamento dos dados. A Efacec, que lidera o consórcio, pretende criar uma solução menos onerosa e menos exigente do ponto de vista energético que funciona como alternativa aos satélites mais robustos que já recorrem a radares de abertura sintética. Enquanto os radares de abertura sintética têm consumos de energia na ordem dos 40 a 50 Watts, os satélites Magal pretendem beneficiar dos consumos de 18 Watts previstos para a altimetria radar. “A altimetria radar é uma tecnologia mais antiga, mas torna-se assim compatível com microssatélites, por consumir menos energia”, explica Arlindo Marques, gestor de Produtos do Espaço da Efacec. Cada satélite Magal deverá medir 40 por 30 por 20 centímetros, e deverá ter um peso de 50 Kg. O investimento de arranque do projeto ronda os 1,89 milhões de euros, tendo sido comparticipado em quase dois terços pelo Compete2020. O consórcio tem a expectativa de criar uma constelação de seis satélites que permitirá recolher dados de cada local de 5 em 5 dias, com frequências de 20 amostras por segundo. Estes números poderão fazer a diferença para as frotas pesqueira, produtores de aquacultura e plataformas de turbinas eólicas e painéis fotovoltaicos flutuiantes que hoje recorrem a constelações que produzem dados de cada local do Globo a uma média de 10 dias. Arlindo Marques admite que ainda terá de ser encontrado financiamento para um lançamento do satélite, mas diz que há boas expectativas de isso acontecer pelo menos com um dos dispositivos, que já permitiria fazer uma demonstração de capacidade. Para os seis satélites, prevê-se um custo de lançamento de 2,5 milhões de euros. Além da Efacec, o consórcio Magal conta com a participação de Omnidea, CIIMAR, IST, IT-A, Universidade da Beira Interior, Colab+Atlântico, Air Centre, Fundação Gaspar Frutuoso, e Universidade Texas Austin. Medições em estado líquido Afinal onde param as águas? O satélite Upgrade tem vindo a ser desenvolvido para dar uma resposta a esta questão fundamental para a vida na Terra. Com o recurso a um sensor capaz de medir acelerações abaixo de um mícron (0,001 milímetros), o dispositivo alado fica em condições de apurar a alteração de massas de água consoante as forças gravíticas detetadas. A tecnologia pode revelar-se especialmente útil para conhecer melhor a água existente em bacias hidrográficas, zonas polares ou reservas aquíferas no subsolo, bem como a humidade do solo depois das monções. Para garantir precisão, o satélite está também munido de um sensor que apura o posicionamento em que se encontra a partir das estrelas. O projeto é liderado pela Spin.Works, mas conta com a participação de ISQ, Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, Universidade do Minho, e ainda o programa Portugal-Austin Texas. O Upgrade foi montado nas instalações da Spin.Works, inclui subsistemas, mas também houve que desenvolver computadores de bordo, sensores, estrutura e sistemas de controlo desta máquina de 10 Kg e dimensões de 30 por 20 por 10 centímetros. “As barreiras de entrada no sector baixaram, já não só são a Airbus e a Lockeed Martin que constroem satélites”, recorda Vasco Pimenta, diretor executivo da Spin.works. O projeto ficou orçado em 2,7 milhões de euros: cerca 0,8 milhões de euros provêm da parceria entre o estado português a Universidade de Austin Texas, e o PT2020 assume outros 0,8 milhões de euros. A terceira fatia é assumida por Spin.Works, Instituto Ibérico Internacional de Nanotecnologia, ISQ e Universidade do Minho. Segue-se a captação de investimento para garantir o lançamento do satélite nos próximos dois anos. O satélite de plástico Com o NewSat, a Stratosphere está apostada em demonstrar que é possível avançar para uma nova categoria de satélites com uma estrutura de polímeros que é produzida com recurso a impressoras 3D. “Não é comum desenvolver satélites com polímeros. É uma tendência de futuro que pode ter a vantagem de combinar melhor a engenharia com as tecnologias digitais”, explica Gustavo Rodrigues Dias, diretor executivo da Stratosphere. Se conseguir provar a viabilidade dos novos materiais, já será um feito, mas o satélite NewSpace também pretende aproveitar uma potencial ida ao Espaço para recolher dados sobre o estado da ionosfera. Esta análise poderá revelar-se útil para saber como é que tem evoluído o efeito de barreira de radiações da ionosfera. Para isso, seguem a bordo sensores que analisam o plasma presente na ionosfera e ainda um espectómetro de massa que permite apurar a constituição desta camada que envolve a Terra e que vai dos 80 aos 600 quilómetros de altitude. Também se prevê o desenvolvimento de um gémeo digital, que deverá replicar numa lógica virtual o estado do satélite e os dados que recolhe. O original de plástico é um cubo com 50 centímetros de aresta e menos de dois quilos de peso. O projeto prevê um primeiro lançamento limitado apenas a alguns componentes que seguem a bordo de uma missão de entidades parceiras. Na Startosphere há a expectativa de que este primeiro teste abra portas e garanta os apoios necessários para uma missão posterior, já com um satélite de inteiro, que será colocado numa órbita entre os 400 e os 500 quilómetros de altitude. No total, o satélite terá um custo inferior a dois milhões de euros, ficando cerca de 1,4 milhões a cargo de privados e programa PT2020, e o valor restante virá do programa MIT Portugal. Além da Stratosphere, o consórcio do NewSat conta com a participação de INEGI, INESC-TEC, e MIT-Portugal.