CIÊNCIA E AMBIENTE LANÇAMENTO DO PORTUGUÊS POSAT-1 FOI EM 1993 - TRINTA ANOS DEPOIS, O PRIMEIRO SATÉLITE PORTUGUÊS FOI UMA OPORTUNIDADE PERDIDA?
2023-09-25 06:00:10

O lançamento do PoSat-1, o único satélite português a chegar ao espaço, celebra agora 30 anos. Mudanças políticas e falta de investimento motivaram abandono daquela política espacial Não é todos os dias que Portugal lança um satélite para o espaço. Na verdade, foi apenas um dia. A 26 de Setembro de 1993, quando o relógio marcava as 2h45 em Portugal, o foguetão Ariane 4 descolou com um satélite português acoplado: o PoSat-1. Houve anúncios de um segundo satélite, de uma rede de satélites e já neste século de um regresso ao espaço. Ainda assim, 30 anos depois, o PoSat-1 ainda navega na órbita terrestre (apesar de sem comunicar com a Terra) como o único destes artefactos espaciais de Portugal no espaço. Há duas justicações que atravessam as conversas com os protagonistas do PoSat-1 e com quem viu de fora: a falta de investimento e as mudanças de governo. Depois do lançamento do satélite, o grande marco seguinte surgiria apenas em 2000, com a entrada de Portugal na Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês). “Quando entrámos na ESA, foi uma oportunidade para criarmos novas empresas. Mas depois tivemos um grande período em que o investimento na ESA estagnou. Nunca houve nenhum investimento que colocasse Portugal em valores percentuais similares a outros países da nossa dimensão. Desde 2008, nunca houve um aumento signicativo [desse investimento]. E é sempre um problema de o orçamento português ser muito magro”, contextualiza Ivo Vieira, director executivo da LusoSpace, uma das empresas nascidas dessa entrada na agência europeia e ele próprio um dos “lhos” do PoSat-1, já que foi um dos estudantes que também trabalharam na fase nal deste satélite. É uma opinião partilhada pelo físico Carlos Fiolhais: “Temos de reforçar a nossa presença no espaço e isso passa também por ter maior participação na ESA e não devia ser uma pequena subida. Tem de haver investimento que permita mais coisas do que lançar satélites: por exemplo, o primeiro astronauta português.” No nal de 2022, o Governo anunciou um reforço do nanciamento dos programas da ESA, com um investimento total de 115 milhões em cinco anos (ou seja, 23 milhões por ano). Portugal está, de acordo com o orçamento da ESA para 2023, entre os que menos contribuem para a agência europeia, com cerca de 31 milhões de euros anuais (0,6% do orçamento total). Acima do orçamento português estão países como Polónia (0,9%), Luxemburgo (0,9%) ou a Roménia (1,2%), por exemplo. “Estamos a comemorar o passado, sem construir o futuro. É importante fazer o balanço, mas não nos devíamos preocupar com o lançamento de um satélite, mas sim com o não-lançamento de vários satélites nos tempos seguintes”, remata Carlos Fiolhais, defendendo uma estratégia para o espaço mais clara e com objectivos denidos. Hoje, a Agência Espacial Portuguesa organiza uma conferência sobre o passado e o futuro de Portugal no espaço, a partir das 10h no Auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa “Voltámos à estava zero” Não é a única justicação aventada. O lançamento do PoSat-1 era um primeiro marco, nanciado sobretudo pela indústria portuguesa (como a Efacec, a Marconi ou as Ocinas Gerais de Material Aeronáutico, ou OGMA), e que contava com a Universidade de Surrey (Reino Unido) como fornecedora da tecnologia para o satélite. “Não havia tempo para experiências, nem para as coisas virem para cá [Portugal] e vermos se éramos capazes de fazer ou não”, explica José Manuel Rebordão, que dirigiu a parte técnica do satélite. Após a separação do PoSat-1 do foguetão Ariane 4, que lhe deu boleia para cima, anunciaram-se as hipóteses de construir um segundo satélite e, inclusive, uma rede de satélites portugueses. A mudança de governo em 1995, de Cavaco Silva para António Guterres, ditou também a entrada de Mariano Gago como ministro da Ciência o novo ministro tinha sido crítico daquilo que considerava ser um mero exercício de propaganda. Algo que Carlos Fiolhais sublinha, reforçando o peso que o espaço tem na propaganda política desde sempre basta recordar a corrida ao espaço entre os Estados Unidos e a União Soviética. “Portugal comprou um satélite chave na mão à Universidade de Surrey. E não tinha um propósito cientíco muito preciso, não se avançou grande coisa a esse nível e se calhar não era para avançar”, refere Carlos Fiolhais, destacando ainda assim o papel na “divulgação cientíca” e na capacidade de nos “pôr a olhar para cima” e que depois não foi aproveitada. “O PoSat-1 nasce cerca de oito anos antes [da entrada na ESA] para preparar atempadamente uma realidade de serviço comercial e industrial que eram construções de pequenos satélites em órbita baixa para telecomunicações, que existem agora, e para preparar o caminho para o retorno industrial no contexto da adesão à ESA”, diz José Manuel Rebordão. “Depois, considerações completamente surrealistas decidiram matar completamente o processo, porque não era um processo de investigação e desenvolvimento claro que não era, não podia ser, não havia tempo para isso. E, consequentemente, voltámos uma vez mais à estaca zero”, observa. Fernando Carvalho Rodrigues, que coordenava o projecto e era a cara mediática do PoSat-1, relembra que “uns meses antes do lançamento, em Junho 1993, foi apresentada ao Gover-no a construção de uma rede de 23 satélites, chamada NetSat , para garantir que em cima de Portugal teríamos sempre três satélites a garantir as nossas comunicações”. Lançar 30 satélites até 2026 Ricardo Conde mostra-se mais optimista e vê nos últimos 30 anos um percurso em que se aprendeu muito. “Durante este período houve muitas coisas que aconteceram, nomeadamente mudanças políticas. Ainda com o Governo de António Guterres, quatro instituições reuniram-se para criar as bases de uma indústria espacial em Portugal. Foi nessa altura que Guterres deu verba para fazer um estudo para instalar uma pequena indústria espacial. Depois o governo mudou outra vez. O novo governo não deu continuidade e considerou inútil o que se estava a fazer. Acabando por fazer uma pausa muito grande”, conta o presidente da agência portuguesa, criada em 2019. O PoSat-1 acabou por ter um tempo de vida superior aos sete anos previstos. Deixou, denitivamente, de comunicar com a Terra em 2016. Apesar de ser uma primeira experiência, alicerçada na indústria portuguesa, este satélite teve a sua utilidade, sobretudo no nal dos anos 1990, utilizado pelos militares portugueses para a transmissão de mensagens na Bósnia ou em Angola, por exemplo. Além disso, incorporava um receptor GPS ou um sensor de estrelas com maior precisão do que a maioria dos satélites à data. Ainda hoje, “de vez em quando”, a folha do voo 59 do Ariane 4, ou a “certidão de nascimento do satélite” como a apelidou repetidamente Fernando Carvalho Rodrigues, volta às mãos do coordenador do PoSat-1 é um portal para uma série de memórias. “Quando estou para me ir embora, depois de vermos que o satélite entrou na órbita que quería-mos, o director da estação diz: Os senhores não se podem ir embora, porque ainda não receberam a certidão. E cámos mais duas horas lá, porque a certidão de nascimento foi escrita à mão e copiada a papel químico. Era o melhor da tecnologia dos anos 1990 com o melhor da tecnologia do século XIX”, conta, rindo-se da utilização de papel químico no Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. O hino de Portugal saltou de algumas gargantas, tal como o champanhe saltou das garrafas sobretudo para o chão, como contava o PÚBLICO em 1993. Mais perto do almoço, na hora portuguesa, José Manuel Rebordão ainda daria boas notícias a Fernando Carvalho Rodrigues, via fax de Lisboa para Kourou. Junto à mensagem seguia a telemetria, como um electrocardiograma do PoSat-1. “A análise revela normalidade do satélite”, lê-se na letra caligrafada de José Manuel Rebordão. As comemorações do passado não fazem esquecer a importância actual que os satélites têm e também já tinham na altura. Ainda recentemente, a falta de ligação à Internet impediu a Ucrânia de atacar uma frota russa no mar Negro, depois de Elon Musk ter dado ordens para desligar a ligação da constelação de satélites Starlink junto à costa da Crimeia. Mais: o GPS no carro, os emails ou mesmo a capacidade de ligar a um familiar na Suíça ou na China sem satélites, tudo isso desapareceria rapidamente e com consequências imprevistas. “Estamos a tentar fazer com que Portugal tenha uma constelação de satélites para ter acesso aos dados com esta frequência e resolução, para gerir e monitorizar o território”, diz Ricardo Conde, destacando a importância de ter informação para gerir melhor a preparação de fenómenos como os incêndios, por exemplo. Não surpreende o anúncio seguinte: “Até 2026, teremos 30 satélites portugueses no espaço.” Para já, há pelo menos três satélites previstos para o próximo ano, dois da indústria portuguesa e um pedagógico, de alunos e professores universitários. Os planos passam também por explorar o teleporto de Santa Maria, nos Açores, que há vários anos tem recebido promessas de ser utilizado para lançamentos com foguetões mais pequenos. “Estamos a trabalhar nessa questão”, arma, referindo que a ilha açoriana poderá ser um ponto de acesso e retorno ao espaço para pequenos lançadores, principalmente com o corte de relações com os foguetões russos Soiuz. Legado de conhecimento Tal como o presidente da Agência Espacial Portuguesa, também Fernando Carvalho Rodrigues reserva um optimismo para estes próximos anos. Não vê nestas décadas uma oportunidade perdida: “Há uma geração nova que foi treinada e tem a consciência de que é capaz de fazer o que zemos há 30 anos e fazer melhor. A Agência Espacial Portuguesa é dirigida hoje por gente que sabe o que está a fazer. É preciso acompanhar o patamar do século XXI, em que a Europa tem de renascer.” O próprio Ricardo Conde pertence à geração que esteve presente nos últimos momentos do PoSat-1, já nos dois anos seguintes ao lançamento do satélite. É um contraste face à “frustração” e “expectativas defraudadas” que caracterizam o discurso de José Manuel Rebordão. “A seguir ao PoSat-1, com os engenheiros que foram formados, poderíamos construir um PoSat-2 em Portugal, certamente com consultores, mas invertendo completamente o processo, fazendo-o todo em Portugal, já com uma missão pequena, mas denida por nós. Certamente seria alguma coisa em termos de comunicações e com uma outra carga cientíca”, aponta, recuando 30 anos no tempo até aos anos do lançamento e construção do PoSat-1. Os 30 satélites que Ricardo Conde prevê serem enviados nos próximos três anos estarão entre estes objectivos e ainda se cruzarão com o PoSat-1, cuja morte física e queda para a Terra só deverá acontecer nos próximos 20 a 25 anos. Ainda hoje, nesse satélite, viajarão os graffiti que os engenheiros deixaram com “declarações de amor e dedicatórias aos pais”, conta Fernando Carvalho Rodrigues. O desejo daquele que era o “pai” do PoSat-1 é que ter um satélite se torne banal em Portugal: “Quando gente jovem me visita, normalmente digo: Toma uma cópia da certidão de nascimento e espero que para vocês isto se torne uma coisa trivial. ” Próximo satélite deve partir já em Fevereiro H á três satélites na calha para suceder ao PoSat-1, que há 30 anos se tornou o primeiro (e único) satélite lançado para o espaço e com chancela portuguesa. O satélite Aeros (na imagem) termina os testes de vibração, que simulam a violência do lançamento no foguetão, no final deste mês e tem voo marcado já para Fevereiro do próximo ano, quando voará no foguetão Falcon 9, da SpaceX. Se tudo correr como previsto, este poderá ser o segundo foguetão português a ir para o espaço. O Aeros, desenvolvido pela empresa Thales Edisoft Portugal e que tem o apoio do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (Estados Unidos), irá vigiar os oceanos para, por exemplo, acompanhar a biodiversidade marítima e a evolução das temperaturas nos oceanos. A este satélite industrial deverá juntar-se o ISTSat-1, cuja viagem estava prevista para Outubro deste ano mas só deverá avançar no segundo trimestre de 2024, devido aos atrasos no novo foguetão europeu Ariane 6. Este ISTSat-1 é um satélite de pequenas dimensões criado por alunos e professores do Instituto Superior Técnico, e com o qual pretendem criar um radar mais fiável para a aviação na Terra. Há ainda um outro satélite industrial que espera ser lançado no primeiro semestre de 2024. É o primeiro objecto da constelação de satélites VDES, da LusoSpace, e cuja missão quer melhorar o sistema de comunicações marítimas, através da troca de mensagens com os navios para alertas meteorológicos, por exemplo. Será o primeiro de 12 satélites enviados para o espaço até ao final de 2025. Fernando Carvalho Rodrigues (esquerda) era a cara mediática do projecto que acoplou o satélite ao foguetão Ariane 4 em Setembro de 1993 O satélite PoSat-1 contribuiu para as comunicações militares e também aproveitou para tirar fotografias a Portugal