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VENDA DE AUTOMÓVEIS USADOS BATE RECORDES À BOLEIA DAS IMPORTAÇÕES

Jornal de Notícias

2026-02-05 06:30:05

Nunca se venderam tantos carros usados Portugal está a renovar pouco e a envelhecer depressa sobre rodas. Importados também batem recorde graças a uma fiscalidade penalizadora e ao poder de compra limitado ntonio.j.gouveia@jn.p AUTOMõVEL Em Portugal, um carro novo continua a ser exceção. Em 2025, POr cada automóvel acabado de sair do stand, quatro usados mudaram de mãos, num retrato claro de um mercado automóvel profundamente desequilibrado. os dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) mostram que foram vendidos 867 859 carros usados um recorde absoluto contra apenas 225 039 veículos novos, confirmando que o país circula cada vez mais sobre rodas velhas. O crescimento percentual do mercado de automóveis novos até superou ligeiramente o dos usados: em 2025, as vendas de carroS em primeira mão subiram 7,3% face a 2024, enquanto o mercado de segunda mão cresceu 6,1%. Apesar disso, o negócio de usados continua a ser dominante e foi precisamente este segmento que já ultrapassou de forma clara os valores pré-pandemia. No caso dos novos, a recuperação é gradual. Em 2018, antes da crise sanitária, tinham sido vendidos pouco mais de 228 mil veículos e, em 2025, o mercado voltou a aproximar-se. IMPORTAçâO NO MâXIMO Já no universo dos usados, 2025 ficará como um ano recorde, não apenas õno totalde vendas, mas também nas importações. Entraram em Portugal quase 121 mil automóveis em segunda mão importados, mais 13,1% do que em 2024, um máximo histórico. Desmontando estes números, a idade média dos carros usados que chegaram do estrangeiro foi de oito anos. A maioria (40%) tinha entre cinco e dez anos. A ACAP revela que estão atualmente: a circular em Portugal mais de 1,6 milhões de automóveis com 20 anos ou mais. Segundo a associação, este envelhecimento resulta de dois fatores principais: os portugueses estão a trocar de carro mais tarde e estão a importar veículos cada vez mais antigos. Hélder Pedro, secretário-geral da ACAP, sublinha que o peso do mercado de usados “não é conjuntural”, destacando ainda o impacto de fatores económicos como a inflação e as taxas de juro. “o poder de compra das pessoas e o facto de termos um parque automóvel com veículos usados acima da média europeia contribuem para este crescimento”, explica. FISCO PREJUDICA NOVOS No que respeita às importações, Hélder Pedro aponta a fiscalidade como fator decisivo. “Não há uma harmonização da fiscalidade automóvel na Europa. Portugal está entre os países que mais tributam, o que cria vantagens fiscais claras para a entrada de veículos usados”, refere. Os descontos progressivos no ISV, em função da idade do veículo, tornam mais atrativa a importação de carros mais antigos. Outro dado que preocupa a associação é a tecnologia escolhida pelos portugueses quando importam carros usados. Os dados mais recentes indicam que 44% dos usados importados em 2024 tinham motor diesel. "E um contrassenso face às metas de descarbonização impostas pela União Europeia”, alerta Hélder Pedro, acrescentando que o envelhecimento do parque automóvel tem impactos ambientais, mas também ao nível da segurança rodoviária. “Portugal não está bem nos rácios de sinistralidade e houve mesmo um retrocesso face aos últimos 10 anos”, sublinha. ELETRICOS GANHAM PESO Do lado dos carros novos, a eletrificação continuaa ganhar peso. Em 2025, OS veículos eletrificados representaram cerca de 27% das vendas. A ACAP acredita que esta tendência de crescimento se manterá em 2026, se o contexto geopolítico não introduzir novas perturbações. Para acelerar a renovação do parque automóvel, a associação defende um reforço dos incentivos ao abate. A proposta passa POr um programa mais robusto, abrangendo até 40 mil veículos, e por alargar os apoios à compra de elétricos, híbridos e de baixas emissões. Mas também uma proposta que beneficie o contribuinte óno IRS, assim como as empresas têm em relação ao IVA. “os particulares, que pagam o IVA, devem ter um benefício ao nível do IRS, como já houve uma proposta semelhante em Espanha. Preconizamos uma verdadeira reforma da fiscalidade automóvel e iremos apresentar uma proposta nesse sentido”, remata Hélder Pedro. Eletrificados estão isentos, mesmo os que são importados IMPOSTOS Os incentivos fiscais aos veículos elétricos e híbridos “plug-in”, aliados a uma reforma óno cálculo do imposto, contribuem para a quebra da receita do imposto sobre veículos (ISV) em 2025. Segundo a síntese da execução orçamental de dezembro, o Estado arrecadou 439 milhões de euros em ISV, menos 17,4 milhões do que em 2024, o que representa uma descida de 3,8%. A evolução contrasta com o comportamento do imposto único de circulação (IUC), cuja receita subiu 5,7%, passando de 517,3 milhões de euros, em 2024, para 546,7 milhões, em 2025. Um dos principais fatores para a queda do ISV é a crescente chegada ao mercado de veículos 100% elétricos, que continuam isentos deste imposto, incluindo nas importações. A isto, somam-se os novos benefícios atribuídos aos híbridos “plug-in”, que desde 2025 podem pagar apenas 25% do ISV, caso cumpram critérios ambientais como uma autonomia elétrica mínima. IGUALDADE FISCAL Em paralelo, entrou em vigor a reforma do cálculo do ISV aplicável aos veículos usados importados da União Europeia. A redução do imposto passou a aplicar-se de forma igual à componente de cilindrada e à componente ambiental, corrigindo um modelo anterior considerado discriminatório. Esta alteração tornou a importação de usados fiscalmente mais atrativa. A.J.G. No ano passado entraram em Portugal quase 121 mil carros em segunda mão Associação alerta para peso dos impostos e para os impactos ambientais Páginas 4 e5 Número de automóveis usados comprados em 2025 ultrapassaram os valores pré pandemia Incentivos aos elétricos e híbridos “plug-in” fazem cair receita do ISV António José Gouveia