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NEGÓCIOS SUSTENTABILIDADE - INVESTIMENTO NÃO PAROU, MAS HÁ UM COMPASSO DE ESPERA

Negócios

2026-01-28 06:00:05

Prudência é uma das palavras-chave que resume o sentimento de gestores e empresários da indústria à construção, num ambiente marcado pela incerteza internacional. A falta de mão de obra é apontada como o principal bloqueio ao crescimento. Asustentabilidade continua a ser uma prioridade estratégica para a indústria e a construção, mas o contexto em quie as empresas operam tornou-se mais complexo e exigente. Foi esta a principal conclusão de mais um almoço-debate setorial do Conselho Estratégico do projeto Negócios Sustentabilidade 2030, que reuniu decisores empresariais em Lisboa para uma reflexão sobre investimento e competitividader que não esqueça a transição sustentável. Prudência é uma das palavras-chave que resume o sentimento dos sparticipantes nesta discussão, sob as regras de Chatham House, sobretudo influenciado por um ambiente marcado pela incerteza internacional. O investimento, garante-se, não parot, mas há um compasso de espera partilhadopelos presentes. Dados recentes da Comissão Europeia mostram quie, em 2024, O investimento produtivo na União Europeia (UE) cresceu abaixo da média histórica, refletindo a combinação entre cus-tos elevados, instabilidade geopolítica e maior cautela das empresas. A reindustrialização mantém-se, porém, como uma prioridade para a Europa, particularmente importante para assegurar maior autonomia estratégica numa altura em que se redesenha o quadro internacional de alianças e parcerias. A convicção entre os presentes é de que a modernização dos processos e a integração de critérios ambientais nas cadeias de valor são inevitáveis e até desejáveis-, ainda que todos peçam maior previsibilidade ao nível da regulação. A este pedido junta-se também um grito por mais simplificação administrativa, que permitaaliviar o sufocor das atividades industriais com processos de investimento, e a garantia de condições deconcorrência mais equilibradas. Lamentam que a Europa não procure limitar a entrada de produtos que não cumprem as exigências de sustentabilidade ambiental e social impostas ao mercado interno, e que a verificação de certificados de conformidade seja limitada. De acordo com a Comissão Europeia, a UE representa hoje cerca de 6% das emissões globais, mas continua a liderar em obrigações regulatórias ambientais, criando dificuldades competitivas difíceis de absorver, sobretudo para PME industriais. No entanto, saúda-se, de forma generalizada, o esforço feito com o pacote de simplificação Omnibus, que está a ajudar a “recalibrar” as exigências , em particular, com a diminuição do número de empresas abrangidas pelo reporte de sustentabilidade e, com isso, uma menor carga administrativa que implica custos. Considerou-se ainda que há uma tensão crescente entre sustentabilidade e competitividade, com esta segunda a ganhar mais peso político não por abandono dos objetivos climáticos, masporque estes têm avançado mais depressa do que a capacidade económica para os sustentar. A produção modular e a falta de mão de obra No setor da construção, os danos causados pela crise financeira de 2008 continuam a ter impacto naatividade, em particular na dimensão das empresas e na sua capacidade em atrair e reter trabalhadores. Segundo dados do INE, o emprego nesta área caiu de forma significativa entre 2010 e 2020, enquanto a esmagadora maioria das empresas do setor São hoje PME. A consequência, lembram os participantes, passa pela limitação da capacidade de investimento em inovação, digitalização e sustentabilidade. e por isso quie a industrialização se assume, cada vez mais, como uma via incontornável para o setor e um diagnóstico que os maiores “players” nacionais têm repetido nos últimos anos. A produção em fábrica, a construção modular e as soluções "off-site” permitem acelerar prazos e au-mentar a produtividade, com impacto positivo no crescimento na qualidade e na redução de desperdícios e emissões associadas à obra tradicional. Vários participantes neste almoço mostram satisfação com os resultados da aposta na industrialização, mas alertam que um dos principais obstáculos continua aser a dificuldade em encontrar mão de obra. Na indústria, a falta de mão de obra qualificadar é mesmo apontada de forma transversal como o principal bloqueio ao crescimento. Há, considera-se, um problema de atratividadepara o setor. “Osjovens ganham hoje mais na indústria do que num balcão bancário, mas continuam a preferir estar num balcão”, aponta um dos participantes. Nem mesmo os: salários competitivos em várias funções técnicas têm conseguido combater as dificuldades de recrutamento, em especial em áreas como a robótica e manutenção industrial. A resposta, concordam, tem de passar Por investimento em formação dejovens desde cedo, oferecendo-lhes uma via profissional focada no trabalho técnico. A inteligência artificial é vista como um fator de transformação gradual, sobretudo no ambiente industrial, mas também como uma oportunidade indireta, já que uma maior exposição de outros setores à automação poderá libertar mão de obra para atividades menos propensas à digitalização, como a construção. “Temos pessoas na nossa fábrica que antes eram contabilistas”, exemplifica um dos participantes. Apesar do enquadramento exigente, regulatório e geopolítico, a reflexão durante o almoço mostrou quie é importante ter escala e capacidade tecnológica, sobretudo para aumentar a resiliência dos negócios. Na indústria, são vários os casos apresentados de investimento em automação, conectividade no chão de fábrica e eficiência energética, bem como em tecnologia para a gestão inteligente de “stocks” que tem permitido alcançar ganhos de produtividader e eficiência. A mesa, recorda-se ainda que está para breve a entrada em vigor do novo sistema de depósito e retorno de embalagens, que, embora signifique um aumento de custos para os produtores, espera-se que tenha resultados positivos no aumento da circularidade da economia. A gestão das cadeias de valor, a medição de impactos ambientais e a integração do capital natural nos modelos económicos surgiram como desafios centrais ainda por resolver. Segundo O Fórum Económico Mundial, mais de metade do PIB global depende moderada Ou fortemente da natureza, mas muitas empresas continuam a não medir os impactos das suas atividades nos ecossistemas. O risco, alertaram os participantes, é que aquilo quie não é medido deixe de ser considerado relevante. Vive-se, portanto, um cenário de reajustamento em que asustentabilidade se mantém no centro das decisões estratégicas, pelo menos na Europa, mas com maior pragmatismo e menor exposição pública. “o nosso modelo económico foi desenhado para a primeira revolução industrial, mas já estamos na quarta”, remata um dos participantes. 2024 INVESTIMENTO o investimento produtivo na União Europeia (uE) cresceu abaixo da média histórica em 2024. 2008 CONSTRUçâO os danos causados pela crise financeira de 2008 continuam a ter impacto na atividade do setor da construção. e esperado que novo sistema de depósito e retorno de embalagens tenha impacto positivo na circularidade. Representantes da Unimadeiras, Sumol+Compal, Cimpor, Silvex, DST, Saint-Gobain e MJM Advisors participaram no almoço setorial do Conselho Estratégico do Negócios Sustentabilidade 20/30. A convicção entre os presentes é de que a modernização dos processos e a integração de critérios ambientais nas cadeias de valor São inevitáveis. FRANCISCO DE ALMEIDA FERNANDES