CARREGADORES COM APOIOS DE EUR2,3 MILHÕES
2026-01-23 22:08:08

Desde 2022, o Fundo Ambiental previu 7275 "cheques" para elétricos e apenas 1272 apoios para carregadores Nos últimos quatro anos, o Fundo Ambiental destinou EUR29,1 milhões ao seu programa de “Incentivo pela Introdução no Consumo no Consumo de Veículos de Emissões Nulas”, num total de 7275 “cheques” , de EUR4000 cada um , para a compra de automóveis ligeiros de passageiros 100% elétricos. Nesse mesmo intervalo temporal, para os carregadores que alimentam com eletricidade as baterias destes carros sem emissões poluentes foram dedicados apenas EUR2,3 milhões para 1272 apoios. Cada um deles no valor máximo de EUR1800: EUR800 para o equipamento e EUR1000 para a respetiva instalação em moradias ou prédios, garagens ou parqueamentos. O que significa que menos de um quinto (17,5%) dos “cheques” para comprar um elétrico puderam ser somados a um apoio para o respetivo carregador (de 2022 a 2025). Antes disso, tinha já existido um hiato de cinco anos de incentivos a elétricos em Portugal, sem que a infraestrutura de carregamento fosse sequer considerada pelo Fundo Ambiental. Isto porque os apoios para carros sem emissões foram criados em 2017, mas a aquisição de carregadores só foi incentivada a partir de 2022, para “dar resposta às dinâmicas na sociedade e no sector da mobilidade”. O objetivo era “aferir futuros apoios às novas tendências de mobilidade e às necessidades emergentes dos utilizadores”. Quanto aos valores dos cheques para carregadores, foram sempre de 80% do preço de compra do posto de carregamento, até um máximo de EUR800, a que se soma mais 80% da instalação elétrica (até EUR1000). O pagamento depende da ligação do equipamento à rede da Mobi.E, devendo o candidato registar-se como detentor de posto de carregamento. O máximo é de um incentivo por condómino ou 10 incentivos no caso de a candidatura ser feita por administrações de condomínios ou grupos de moradores. O apoio inclui ainda o pagamento da tarifa da Entidade Gestora da Mobilidade Elétrica (EGME) durante dois anos. No mais recente aviso, aberto 29 de dezembro de 2025, e que esgotou em poucas horas (com EUR17,6 milhões), foram contabilizados valores recorde de EUR8,8 milhões para 2200 cheques para carros elétricos e EUR540 mil para 300 apoios para carregadores. Comparativamente, é possível observar que o número de apoios para carregadores continua a ser claramente deficitário e diz respeito a apenas 13,6% dos cheques para elétricos. Diz O Fundo Ambiental que para apresentar uma candidatura ao incentivo para postos de carregamento “não é obrigatório ser proprietário de um veículo elétrico”. No ano passado (único ano para o qual existem dados disponíveis), foram submetidas 940 candidaturas online para incentivos à compra e instalação de carregadores domésticos, das quais apenas 138 submeteram de facto o pedido de pagamento ao Fundo Ambi-ental. O Expresso solicitou ao ministério do Ambiente e da Energia os números das candidaturas entre 2022 e 2024, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição. Para 2026, a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, já anunciou a abertura até março de um novo aviso para apoiar a mobilidade elétrica, com uma dotação de EUR20 milhões. Vítor Amaral, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Gestão e Administração de Condomínios, defende que, além destes apoios para carregadores, “o melhor era haver incentivos do Estado para a remodelação das infraestruturas elétricas dos edifícios, adequando-as às necessidades atuais”. O responsável reconhece que a instalação de carregadores nas garagens dos prédios é um tema que suscita muitas dúvidas. A “culpa”, diz, é de uma lei “que não é adequada” e que potencia a conflitualidade entre condóminos e administrações de condomínio. “o problema está no facto de os prédios mais antigos (anteriores a 2010) não terem infraestruturas elétricas que aguentem o carregamento simultâneo de várias viaturas”, o que pode levar a custos elevados. “A prioridade volta-se para obras nas partes comuns que melhorem a qualidade de vida de todos, em detrimento daquelas que beneficiam uma minoria”, explica. Alexandre Teixeira Mendes, presidente da Associação Nacional dos Profissionais de Administração de Condomínios também reconhece que o tema gera conflitos entre vizinhos: “De um lado estão os que querem carregar os veículos elétricos no seu lugar de estacionamento, apoiados na legislação em vigor. Do outro, surgem os que estão preocupados com custos, segurança elétrica, risco de incêndio, impacto nas partes comuns e alterações estéticas no edifício”, refere, sublinhando que, tendo em conta o crescimento do número de veículos elétricos e híbridos plug-in em Portugal, “a mobilidade elétrica já faz parte do quotidiano da gestão de condomínios”. Do lado dos condutores, Pedro Faria, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, confirma que mais de 60% dos contactos recebidos estão relacionados com o carregamento em condomínios, com “largas centenas de casos” nos últimos anos. “Com frequência recebemos relatos de situações conflituosas, que se prendem com os custos de adaptação da infraestrutura elétrica. Impor gastos a quem não vai usufruir do serviço sofrerá forte resistência e clara oposição”, diz, salientando que este investimento inicialmente só vai beneficiar alguns, mas no futuro, chegará a todos”. Apesar das diferenças de opinião, o responsável lembra que “a lei é muito protetora do utilizador que pretende instalar um ponto de carregamento”. Em caso de litígio, Mariana Ludovino, porta-voz da Deco Proteste, lembra que existe sempre a possibilidade de recorrer aos Julgados de Paz ou, em última instância, aos tribunais judiciais. silva@expresso.impresa.pt Entre 2022 e 2025, só 17,5% dos “cheques” para elétricos puderam ter também apoio ao carregador Em 2025 foram submetidas 940 candidaturas para apoio à compra de carregadores Há cada vez mais portugueses a candidatarem-se a apoios para comprar um carregador elétrico FOTO GETTY IMAGES BÁRBARA SILVA