TESLA, A MARCA CARROSSEL
2026-01-23 22:08:08

NAo há como ficar indiferente a Elon Musk. Amado por uns, odiado por outros, Musk é provavelmente a personalidade global com reputação mais ambígua.. Um génio de personalidade extrema, um visionário quase obsessivo com o futuro (Marte, transição energética, IA), totalmente focado em inovação como driver da sua reputação e das suas empresas. Por outro lado, é autoritário, arrogante, egocêntrico, tóxico e zero empático com os que o rodeiam.com uma fortuna de 700 mil milhões de dólares, é provavelmente O homem mais rico de todos os tempos e ta mt £m O mais controverso. Fazendo zoom à maior das suas empresas, a Tesla, temos um case de como, por um lado, a extrema inovação faz dela não apenas a mais valiosa das marcas automóveis do mundo, mas mais valiosa (em capitalização bolsista) do que a soma da capitalização das 15 maiores marcas de automóveis do planeta. Como é que E isto e possível? A diferença começa na forma como o produto é concebido. Cada Tesla é, na prática, uma plataforma tecnológica de recolha de dados em circulação permanente. Equipado com várias câmaras, sensores e sistemas de feedback contínuo, o veículo recolhe dados reais de condução (não simulações) em milhares de milhões de quilómetros percorridos todos os dias, Por todos OS Teslas que circulam. Cada carro tem capacidade para captar 40 terabytes de informação, desde perfis de condução a pontos negros nas estradas, em tempo real, para alimentar directamente os sistemas de IA dos futuros carros autónomos, mas também para vender dados sobre padrões de mobilidade, de condução e muitos outros, a governos, autarquias e empresas de todo o mundo, como a nossa Brisa ou a Infraestruturas de Portugal. Esses dados alimentam os seus próprios modelos de Inteligência Artificial que aprendem em tempo real, permitindo melhorar o o produto após a venda, através de actualizações remotas. O carro não é um objecto isolado; s é um sistema de captação de dados incrível (até uma microcâmara interna no retrovisor monitoriza tudo que se passa dentro do carro). A Tesla utiliza também os dados recolhidos para desen-? volver serviços adjacentes, como seguros baseados no comportamento real de condução, eliminando intermediários e melhorando a eficiência do pricing. Na área da energia, construiu um ecossistema que integra veículos, baterias, painéis solares e rede de carregamento, posicionando-se como um operador energético descentralizado. e não apenas como fabricante automóvel (esta área já representa 25% da sua facturação). E no final, um mercado inteiro, ainda por explorar, dos veículos autónomos. Ao contrário da maioria dos fabricantes, que dependem de cadeias de valor fragmentadas, a Tesla está verticalmente integrada, controlando o hardware, software, dados, infra-estrutura de carregamento e capacidade de processamento. Controla também a vertente comercial: poucos revendedores, praticamente não tem (e não precisa) oficinas e faz quase toda a assistência online. Esta integração acelera a inovação, reduz dependências externas e cria uma vantagem estrutural difícil de replicar. Cada novo veículo vendido reforça um ciclo que se auto-alimenta: mais carros geram mais dados, mais dados melhoram osistema, e um sistema melhor aumenta a procura. Guiar um Tesla é também uma experiência: velocidade de ponta de um supercarro, elegância e status a preços muito reduzidos. Elon Musk prejudica a reputação da Tesla? Sim. Mas na realidade ainda não existe uma empresa que lhe faça verdadeiramente concorrência em todos os campos. Se muitos não conseguem conceber a ideia de ter um Tesla, muitos outros fecham os olhos e aderem à inovação. E quem está a tentar replicar o modelo são empresas chinesas, o que augura nada de bom para os fabricantes tradicionais. SALVADOR DA CUNHA, CEO da Lift Consulting