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“ALCANÇAR A NEUTRALIDADE CARBÓNICA ATÉ 2050 EXIGE POLÍTICAS ESTÁVEIS, INVESTIMENTOS ESTRATÉGICOS E COLABORAÇÃO ENTRE A INDÚSTRIA E OS GOVERNOS”

Publituris Online

2026-01-23 13:10:04

Há muito que o tema da aviação sustentável está lançado, com diversos objetivos e metas traçadas pela União Europeia. Contudo, no que diz respeito ao Combustível Sustentável de Aviação (Sustainable Aviation Fuel, SAF sigla em inglês), são várias as vozes na indústria que apontam a reduzida produção e os preços (demasiado) altos para se conseguir atingir as metas definidas em Bruxelas. Na KLM, além da renovação da frota e das medidas operacionais, o SAF constitui um importante investimento. Mas não só. Jolanda Stevens, Program Manager Zero Emission Aviation da KLM, refere ao Publituris que a companhia está “empenhada em exercer um papel de liderança na construção deste futuro sustentável para a aviação” e, por isso, “está envolvida em diversas parcerias que contribuem para o desenvolvimento e a adoção da aviação movida a hidrogénio”. No entanto, Stevens admite que é preciso criar um level playing field (ambiente com condições equitativas) em que os pioneiros não sejam penalizados por liderar. E isto requer “incentivos, subsídios e acesso antecipado em todo o ecossistema da aviação”. A KLM tem assumido publicamente o compromisso de alcançar net-zero até 2050. Quais são os principais pilares desta estratégia e que metas intermédias foram estabelecidas? A estratégia de zero emissões da KLM assenta em vários pilares fundamentais, nomeadamente, renovação da frota, eficiência operacional, uso de combustível alternativo de aviação (SAF) e inovação em tecnologias de emissões zero. Até 2030, pretendemos reduzir as nossas emissões de CO2 por passageiro em 30%, face a 2019. No imediato, que medidas estão a ser implementadas para reduzir as emissões, tanto ao nível da frota como das operações diárias? A KLM está a investir sete mil milhões de euros na renovação da frota ao longo dos próximos anos. Para as rotas europeias, isto inclui o Embraer 195-E2, operado pela KLM Cityhopper, e as aeronaves Airbus A320neo e A321neo, 10 das quais já foram entregues. Para os voos intercontinentais, a KLM adicionou recentemente novos Boeing 787 à sua frota. O primeiro Airbus A350 é esperado em 2026 e será seguido pela introdução dos A350F em 2027. Estes aviões também vão contribuir significativamente para a redução das emissões. Operacionalmente, temos otimizado as trajetórias dos voos, reduzido o tempo de taxing (circulação da aeronave na placa) e eletrificado as operações em terra para minimizar o consumo de combustível. Que papel terão os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) na redução da pegada de carbono da KLM? Considera que a disponibilidade e os custos de produção ainda são o maior obstáculo? Além da renovação da frota e das medidas operacionais, o SAF é um objetivo importante de investimento para a KLM. Desde 2022, a KLM incorpora SAF em todos os voos com partidas de Amesterdão, e tem estado a aumentar a quota gradualmente. Apesar da crescente utilização, o SAF mantém-se caro e escasso, o que limita o seu impacto. Para acelerar a sua adoção, a KLM colabora com parceiros como a SkyNRG e DG Fuels, e foi cofundadora do Sky Power, um projeto criado para escalar a produção de e-SAF. Todas as sobretaxas SAF dos bilhetes são reinvestidas na compra de SAF. A KLM também envolve os seus passageiros e clientes empresariais nesta contribuição, com o objetivo de tornar a aviação sustentável mais acessível e impactante. Elétrico ou hidrogénio? A indústria fala cada vez mais de aviões elétricos e a hidrogénio. A KLM está envolvida em projetos-piloto nesta área? Que perspetiva existe para a sua adoção a médio e longo prazo? As aeronaves movidas a hidrogénio e elétricas a bateria podem tornar-se uma solução viável para as rotas de curto-curso até 2035. Para acelerar esta transição, a KLM participa ativamente na investigação e em projetos-piloto com parceiros de todo o setor da aviação, tanto nacionais como internacionais. Estas colaborações centram-se na união de forças na cadeia de valor como, por exemplo, testar novas tecnologias em condições reais num voo de demonstração, construir planos detalhados para estratégias aeroportuárias a longo prazo, construir redes de voos com novas tecnologias para melhor compreender o impacto das suas características, etc.. Até 2035, o primeiro avião de emissões zero com cerca de 75 lugares poderá estar pronto para substituir os aviões regionais mais pequenos, com potencial para substituições de aeronaves de corredor único até 2040. A KLM está empenhada em exercer um papel de liderança na construção deste futuro sustentável para a aviação. Como avalia a importância da digitalização e da otimização operacional (ex.: rotas, eficiência de voo) no processo de descarbonização? A digitalização e a otimização operacional são absolutamente cruciais no processo de descarbonização da aviação. Com a introdução de novas tecnologias de propulsão, como os aviões elétricos ou movidos a hidrogénio, a energia disponível a bordo será significativamente mais limitada face aos combustíveis fósseis tradicionais. Isto significa que cada joule de energia contará e que otimizar todos os aspetos da operação de voo, como o planeamento de rotas, os perfis de voo e os processos de turnaround, vai ser mais importante do que nunca. Ao permitir a recolha de dados em tempo real e análises avançadas, a digitalização desempenha aqui um papel fundamental. Através de ferramentas digitais, vamos ser mais capazes de otimizar as rotas de voo com base nos dados disponíveis. A manutenção preditiva e o apoio à decisão assente em IA podem reduzir ainda mais o uso desnecessário de combustível ou energia. Em suma, a digitalização é o facilitador que nos permitirá otimizar ainda mais a eficiência das nossas operações, o que é essencial quando se trabalha com recursos energéticos mais limitados. Assim, num futuro descarbonizado, as soluções digitais serão uma parte importante da otimização operacional e energética. Colaboração e partilha A KLM tem vindo a trabalhar com universidades, centros de investigação e fabricantes. Pode dar exemplos concretos de projetos em parceria com a academia e a indústria que estão a marcar este caminho para a aviação zero emissões? A KLM está envolvida em diversas parcerias que contribuem para o desenvolvimento e a adoção da aviação movida a hidrogénio. (ver caixa) Existe algum trabalho de partilha entre as várias companhias aéreas ou grupos de aviação para antecipar as metas ou trabalhar-se para a redução de custos e preços? Atualmente, não existem colaborações formais entre companhias aéreas focadas especificamente em voos a hidrogénio ou elétricos, já que estas tecnologias ainda se encontram numa fase inicial de desenvolvimento. No entanto, a KLM tem explorado ativamente soluções futuras e partilha insights através de iniciativas mais amplas da indústria. Um bom exemplo é o Aviation Challenge, que incentiva as companhias aéreas a tornarem os voos comerciais regulares mais sustentáveis. De resto, a SkyTeam convida as companhias aéreas participantes a criar um impacto tangível e a partilhar aprendizagens em todo o setor. A KLM testa as inovações durante as operações e partilha os resultados com os parceiros, construindo conhecimento coletivo, identificando soluções escaláveis e ajudando a reduzir o impacto ambiental e os custos a longo prazo. A cooperação entre companhias aéreas, fabricantes e entidades reguladoras é fundamental. Como vê o papel da colaboração setorial para acelerar a inovação e ultrapassar barreiras regulatórias e tecnológicas? A colaboração intrassectorial é essencial para escalar a inovação e garantir normas harmonizadas. Cada player precisa de fazer o que nunca fez antes. Ao construirmos relações de confiança, ao criarmos pontos em comum, ao trabalharmos em projetos conjuntos e ao comunicarmos sobre os assuntos em que estamos envolvidos, estamos a construir colaborações sólidas. Nestas parcerias, cada parte contribui com a sua expertise, trabalhando com base no conhecimento comum e criando entendimento mútuo para enfrentar os vários desafios. Como lidar com a perceção pública, como ponderar os riscos, tendo sempre a segurança como fator mais importante. Isto ajuda-nos a todos a caminhar na mesma direção. A Air France-KLM é hoje um dos maiores grupos de aviação da Europa. Como é que esta dimensão ajuda a impulsionar a agenda da sustentabilidade e a ganhar escala em projetos de futuro? Como grande player na Europa, temos uma voz forte no debate sobre o futuro da nossa indústria, que utilizamos para colaborar dentro e fora do setor da aviação, para reduzir o impacto negativo do transporte aéreo no ambiente. Em 2023, o grupo Air France-KLM foi o maior comprador de SAF do mundo e está a impulsionar o mercado de SAF através da celebração de acordos de compra com diversos players em todo o mundo. Em termos de perceção pública e experiência do cliente, como é que a KLM comunica estes esforços de sustentabilidade e envolve os passageiros nesta transformação? Os voos elétricos e movidos a hidrogénio podem parecer distantes para muitos, mas a KLM envolve ativamente os passageiros nestes desenvolvimentos através de uma comunicação clara e acessível. Utilizamos o nosso website e a revista de bordo Holland Herald para explicar os esforços de sustentabilidade e as tecnologias futuras. A publicidade gratuita ajuda a ampliar as principais iniciativas, tornando a inovação mais tangível. Ao partilhar exemplos reais, como o nosso trabalho com a ZeroAvia, procuramos inspirar confiança e consciencialização. O papel das start-ups Na sua opinião, qual será a tecnologia disruptiva que mais pode mudar a aviação nos próximos 20 a 30 anos? Não existe uma solução mágica. São necessárias múltiplas soluções no caminho para o netzero. Estas soluções precisam de ser desenvolvidas em paralelo, cada uma tendo um lugar próprio na linha de soluções e desafios tecnológicos específicos. Por isso, é muito difícil prever qual será a principal tecnologia “vencedora”. Mas o que vemos é o grande impacto das start-ups. As start-ups estão realmente a romper o status quo e a enriquecer a aviação com soluções inovadoras que não teriam surgido apenas de players estabelecidos. Este fluxo de novas ideias e desenvolvimento ágil é relativamente novo na aviação, que tradicionalmente tem sido dominada por alguns grandes fabricantes e abordagens conservadoras. Embora os processos de certificação continuem a ser demorados e possam dificultar a rápida entrada no mercado, o ritmo do desenvolvimento tecnológico impulsionado pelas start-ups é inconfundível. Estão a abordar conceitos que vão desde a eletrificação e a propulsão a hidrogénio até à digitalização e à eficiência operacional. Ainda que seja improvável uma solução rápida, estes novos intervenientes estão a acelerar o progresso e a remodelar a abordagem do setor em relação à sustentabilidade. Quais são os principais desafios e oportunidades que o setor enfrenta para garantir que a aviação continua a ser um motor económico e social, mas com impacto ambiental reduzido? O setor da aviação necessita de reduzir o seu impacto ambiental, mantendo a sua relevância social e económica. Os principais desafios incluem a disponibilidade limitada e o custo elevado dos SAF. As oportunidades estão na renovação da frota, na eletrificação das operações em terra e em melhorias operacionais. A inovação em aeronaves a hidrogénio e elétricas, juntamente com a circularidade e a redução de resíduos, pode contribuir ainda mais para as metas climáticas. Alcançar a neutralidade carbónica até 2050 exige políticas estáveis, investimentos estratégicos e colaboração entre a indústria e os governos. Que mensagem deve ser dada à indústria e aos decisores políticos sobre o caminho para uma aviação de zero emissões? Precisamos de criar um level playing field (ambiente com condições equitativas) em que os pioneiros não sejam penalizados por liderar. Isto requer incentivos, subsídios e acesso antecipado em todo o ecossistema da aviação. A regulamentação desempenha um papel crucial e as pessoas só mudam de comportamento quando norteadas por leis ou incentivos financeiros. Os governos devem também ajudar a ajustar a compreensão por parte do público, comunicando o impacto ambiental da aviação de forma contextualizada. A estabilidade nas políticas de aviação é essencial para o planeamento a longo prazo. Por último, precisamos que os decisores políticos apoiem ativamente a inovação, criando espaço para experimentar, colaborar e escalar tecnologias como o SAF e as aeronaves de emissões zero, ajudando a aviação a tornar-se mais sustentável sem comprometer o seu valor social. Parcerias KLM Victor Jorge