A CORRIDA AO ESPAÇO À PORTUGUESA
2023-09-22 06:00:14

Primeiros satélites portugueses que participam na constelação ibérica descolam dentro de dois anos Os primeiros lançamentos estão previstos para o final de 2024, mas tudo indica que será 2025 a dar o tiro de partida para uma corrida ao Espaço como nunca se viu em Portugal. Há pelo menos oito consórcios que receberam fundos públicos e que estão bem posicionados para o lançamento de mais de 30 satélites com objetivos comerciais e científicos mas as atenções mais recentes estão centradas nos três projetos que já garantiram uma boleia financeira de EUR137 milhões do Plano de Resolução Resiliência (PRR) e que também prometem abrir caminho a uma nova unidade de fabrico de satélites e até à instalação de uma antena no Polo Norte. É neste último trio de consórcios que se encontra uma constelação que deverá tomar a liderança do pelotão espacial português já no próximo ano com o lançamento de pequenos satélites que localizam navios. Para 2025 e 2026, aguardam-se os dois projetos de maior envergadura no PRR: uma constelação liderada pela IdD Portugal Defence que pode reforçar a segurança nacional, e ainda a descolagem dos primeiros satélites do consórcio liderado pela GeoSat que vão integrar a futura Constelação Atlântica, desenvolvida por Portugal e Espanha. “A constelação é uma iniciativa de Portugal e Espanha, mas já estão a ser feitas diligências para alargar a outros países”, informa Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. A constelação ibérica vai ser lançada e operada por entidades comerciais, com o propósito de disponibilizar dados de observação da Terra que podem ser úteis para o combate a incêndios, o ordenamento do território ou a monitorização dos mares, entre muitos outros negócios. “Ainda vai ter de ser definido um modelo de governação que determina como é que os intervenientes de diferentes países acedem aos dados”, acrescenta. A constelação ibérica pretende seguir uma “lógica cooperativa”. Ricardo Conde recorda que os participantes nacionais vão ter acesso aos dados recolhidos por todos os satélites que compõem a constelação quando passam sobre a área de soberania nacional mesmo que sejam operados por entidades espanholas. A mesma lógica se aplica aos satélites portugueses quando sobrevoam território espanhol. A recente publicação de uma portaria que define responsabilidades civis em lançamentos espaciais terá dado uma ajuda, mas a corrida aos satélites também produz efeitos em terra firme: “Gostava de lançar alguns destes satélites a partir da Ilha de Santa Maria”, antevê Ricardo Conde, mantendo a esperança de dar a conhecer, em breve, mais detalhes sobre uma nova fase do projeto, que encalhou em 2021 num concurso do governo regional dos Açores que terminou com a exclusão dos dois únicos candidatos. Calhou ao consórcio liderado pela GeoSat a maior fatia de financiamento e também o maior protagonismo. Além de fornecer um máximo de seis satélites para a constelação atlântica, o consórcio está a trabalhar numa parceria com o centro de engenharia CEIIA e com a alemã OHB para avançar com uma unidade de fabrico dos seus satélites, que pode evoluir para encomendas de terceiros no futuro. Para a GeoSat é um reforço do estatuto atual: “Na Europa, só há duas empresas que conseguem captar imagens de muito alta resolução a partir de satélites: a Airbus e a GeoSat”, sublinha Vilhena da Cunha. Altas resoluções Em 2021, a GeoSat entrou no restrito clube das empresas que gerem satélites com câmaras de alta e muito alta resolução ao comprar, a preços de saldo e na sequência de uma falência, dois satélites já em órbita. Um deles garante resoluções de 20 metros em faixas de 600 km de largura, mas há um segundo que capta imagens de muito alta resolução (até 40 centímetros ou cm) com a ajuda de inteligência artificial (IA). Nos planos do consórcio consta a construção de três satélites com câmaras que alcançam resoluções óticas de 50 cm, mas que podem ser refinadas abaixo dos 40 cm com o recurso da IA. Também se prevê a construção de oito satélites que captam imagens de alta resolução (1 a 2 metros), e que se distinguem por fazerem “revisitas” do mesmo local a cada seis horas.com dois metros de altura e um de diâmetro, estes satélites meio arredondados da GeoSat deverão pesar entre 150 kg e 200 kg. Os lançamentos deverão iniciar-se em 2025. No roteiro, também constam centros de dados e, possivelmente, uma antena no Polo Norte. O consórcio já garantiu através do PRR um investimento de EUR75 milhões para a nova constelação mas nos planos da empresa consta um orçamento total de EUR100 milhões quando tiver concluído a construção de um total de 11 satélites. Os satélites da GeoSat fornecem imagens captadas por câmaras óticas em diferentes frequências (ou “cores”) que facilitam a análise de fenómenos na Terra, mas podem ter operacionalidade limitada em certos cenários. E é nesse ponto que a constelação do consórcio liderado pela IdD Portugal Defence, que é tutelada pelo Ministério da Defesa, pode fazer a diferença, com o uso de radares de abertura sintética. Alexandra Pessanha, presidente da IdD, recorda que os radares usados permitem fazer observações da Terra “de dia e de noite e sob quaisquer condições climáticas, ao contrário das tecnologias óticas”. Na IdD há a expectativa de construir 15 satélites com pesos acima dos 50 kg que orbitam a um máximo 600 km altitude, e também usam tecnologia AIS para a localização dos maiores navios. Tendo em conta a combinação de tecnologias e os líderes do consórcio ficam criadas as condições para que possa prestar serviços na área da segurança nacional. A IdD gizou um plano com investimentos máximos de EUR80 milhões, mas só garantiu ainda EUR13 milhões do PRR que comparticipam os três primeiros dispositivos. A constelação só fica totalmente operacional em 2030, prevê Alexandra Pessanha. A constelação VDES também permite monitorização marítima mas já faz a aposta no standard que deverá suceder à tecnologia AIS e que dá, precisamente, pelo nome de VDES. O consórcio é liderado pela Lusospace e pretende criar “um Twitter espacial e marítimo”, explica Ivo Vieira, diretor da empresa que tem vindo a trabalhar no fabrico de uma constelação de 12 pequenos satélites de 10 kg, que deverá ficar completa em 2025, enquanto orbita a 500 km de distância. O projeto está orçado em EUR15 milhões, sendo que EUR10 milhões virão do PRR. “É um sistema que permite comunicar alertas meteorológicos ou incidentes, localizações entre outras coisas”, lembra Ivo Vieira. Em 2025, é possível que haja muitos mais portugueses a olhar o céu. sociedade@expresso.impresa.pt Este é o GeoSat-2 que fará parte da futura constelação de satélites portuguesa FOTO D.R.