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ACORDO (SOBRETUDO) COMERCIAL ENTRE UNIÃO EUROPEIA E MERCOSUL DEMOROU 30 ANOS A CHEGAR, MAS TRUMP DEU O EMPURRÃO QUE FALTAVA

Observador Online

2026-01-18 22:06:16

Alexandra Machado Texto O acordo vai finalmente ser assinado este fim de semana. União Europeia e Mercosul afinam zona de comércio livre de mais de 700 milhões de consumidores. Portugal tem produtos à espreita deste mercado. 17 jan. 2026, 11:39 Oferecer Alexandra Machado Texto 17 jan. 2026, 11:39 Oferecer A Europa estava ainda com uma União a 15. A 28 de junho de 1999 era dado o pontapé de saída formal para as negociações entre o bloco europeu, que já tinha Portugal como membro, e o bloco sul-americano composto pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai (mais tarde juntar-se-ia a Venezuela, que abandonaria o barco anos depois, e a Bolívia está agora em processo de adesão), que assumiu o nome de Mercosul. Foi há quase 27 anos. Três anos antes, em 1995, tinham começado a cimentar-se as bases desse acordo. Entre avanços e recuos, o processo viveu largos anos num impasse, com as negociações formais a serem retomadas em 2010. Ao todo, foram necessárias quase três décadas para que o pontapé de saída fosse transformado em jogada completa. O golo ainda terá de ser marcado, com a assinatura formal e com as aprovações necessárias dos legisladores e poderes executivos de cada bloco, mas a assistência está feita. O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será finalmente assinado este sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, que está a presidir ao Mercosul desde o início de janeiro, sucedendo ao Brasil. Uma assinatura que esteve para ser feita a 20 de dezembro, mas que um travão de Itália - que se juntou ao bloqueio esperado de França - no Conselho Europeu determinou o adiamento. Itália, entretanto, ultrapassou as suas reticências, depois da Comissão Europeia acenar com um cheque antecipado de 45 mil milhões de apoio aos agricultores, relativamente ao próximo orçamento comunitário, que reafirma um financiamento de 295,7 mil milhões de euros na despesa agrícola depois de 2027. O de Itália era o voto que bastava para fazer aprovar o acordo com maioria qualificada. França manteve-se contra - com as sucessivas crises políticas gaulesas a não beneficiarem a oposição no seio da União ,, tal como a Polónia, a Hungria, a Áustria e a Irlanda. A Bélgica absteve-se. A Alemanha foi dos países mais empenhados em fazer passar o acordo, tal como Portugal e Espanha. Com o “sim” no Conselho Europeu, avança-se agora na assinatura do acordo entre os dois blocos, depois do Conselho da UE ter também dado o seu aval. Mas ainda não é tudo. Falta, do lado europeu, a ratificação por parte do Parlamento Europeu e dos vários Estados-membros. Emmanuel Macron, Presidente de França, numa mensagem colocada na rede X em que justifica o voto contra do país ao acordo, diz que a sua assinatura não coloca fim à história. “Vou continuar a batalhar pela implementação total e concreta dos compromissos obtidos da parte da Comissão Europeia e a proteger os nossos agricultores”. La France est favorable au commerce international, mais l accord UE-Mercosur est un accord d un autre âge, négocié depuis trop longtemps sur des bases trop anciennes (mandat de 1999). Si la diversification commerciale est nécessaire, le gain économique de l accord UE-Mercosur - Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) January 8, 2026 O voto parlamentar deverá acontecer na próxima quarta-feira. França é um dos países que aposta neste travão e, segundo a Euronews, há eurodeputados, dos grupos Os Verdes e da Esquerda, a admitir desde já recurso para o tribunal europeu para contestar a legalidade do acordo, um recurso que, segundo a mesma notícia, pode suspender a ratificação do acordo. Além do Parlamento Europeu e dos Estados-membros, o acordo terá de ser ratificado em outras assembleias nacionais dos países do Mercosul, já que este bloco sul-americano não funciona para ratificação supranacional, tem de ser cada país individualmente a aprovar o tratado. Conforme especifica um relatório produzido pela consultora de assuntos corporativos LLYC, “o tratado só poderá entrar em vigor para o Mercosul quando tiver sido rati?cado por todos os Estados Partes e o último instrumento de rati?cação tiver sido depositado. Consequentemente, a rejeição legislativa em qualquer um dos países impediria a sua entrada em vigor no bloco”. Uma nova era comercial num mundo cheio de tarifas “A Europa está a criar uma nova era de cooperação com os nossos parceiros na América Latina e não só”. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, assinalando um marco histórico, realçou que “a Europa está a enviar um sinal forte. ( ) Estamos a criar a maior zona de comércio livre do mundo”. Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Comissa~o Europeia em Portugal (@comissao_europeia_pt) Também António Costa, presidente do Conselho Europeu, realçou o “bom dia para a Europa e para os nossos parceiros do Mercosul” com o acordo que demonstra que “as parcerias comerciais baseadas em regras são benéficas para todas as partes”. Com este acordo, escreveu ainda na rede X, “a União Europeia está a moldar a economia global”. Saúdo a decisão tomada hoje pelo Conselho de aprovar o acordo UE-Mercosul. Este acordo é bom para a Europa. ?? Traz benefícios concretos para os consumidores e empresas europeias. ?? É importante para a soberania e autonomia estratégica da UE , com este acordo a UE está a - António Costa (@eucopresident) January 9, 2026 Também o comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, reforçou o significado económico do acordo e o geopolítico. “Os agricultores europeus e outros opositores ao acordo UE-Mercosul podem culpar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela conclusão deste acordo de comércio livre significativo”, aponta o think tank norte-americano Atlantic Council, numa análise ao acordo, na qual indica que com as tarifas de Trump a entrarem em vigor no verão de 2025, a “pressão cresceu para a União Europeia diversificar os parceiros comerciais”. A União Europeia, recentemente, finalizou um acordo com a Indonésia, atualizou os termos comerciais com o México e avançou num futuro acordo com a Índia. A própria Comissão Europeia, em comunicado sobre o acordo, realçou que esta era uma forma de “mostrar ao mundo que a UE e o Mercosul rejeitam o protecionismo“, enviando “um sinal claro ao mundo de que duas das suas maiores economias rejeitam o protecionismo e estão abertas às empresas e ao comércio, com base em regras justas e normas elevadas”. Lula da Silva, Presidente do Brasil, assinalou de igual forma o “dia histórico para o multilateralismo”. Já, num artigo de opinião publicado pelo Expresso, fala do acordo como um sinal “contra a lógica das guerras comerciais que segregam economias, empobrecem nações e aumentam a desigualdade”. E conclui dizendo que, “em um contexto de crescente protecionismo e unilateralismo, o acordo prova como outra governança mundial é possível, mais ativa, representativa, inclusiva e justa. Estes mesmos princípios orientam nossa busca por instituições multilaterais renovadas, como a reforma da Organização Mundial do Comércio e do Conselho de Segurança da ONU. Ante o crescimento do extremismo político, Mercosul e União Europeia demonstram na prática como o multilateralismo, que tantos benefícios trouxe ao mundo depois da Segunda Guerra, segue atual e imprescindível”. O acordo chega numa altura em que os Estados Unidos estão a intervir na Venezuela, depois de capturar o presidente Nicolás Maduro, na tentativa de mudar o regime político e de garantir o petróleo venezuelano. O presidente da AEP (Associação Empresarial de Portugal) admite que o “Mercosul, pelo distinto perfil de mercados, não poderá substituir integralmente os Estados Unidos da América, mas traduzirá algum alívio no impacto negativo das tarifas impostas por Trump”, pelo que “a AEP tem fortes expectativas de que a concretização do acordo representará uma oportunidade para as empresas e a economia portuguesa no seu conjunto, sendo uma importante via para reforçar a desejável , e necessária , diversificação dos mercados de destino das exportações”. Luís Miguel Ribeiro remata ainda dizendo que “num contexto marcado pela incerteza global, os acordos comerciais assumem-se como um fator de estabilidade para países com um mercado interno mais limitado e uma forte necessidade de diversificação de mercados, como é o caso de Portugal. A aproximação entre os dois blocos económicos potenciará a integração de cadeias de valor, um passo importante para a Europa reduzir a sua dependência face a outros parceiros comerciais, em especial aos Estados Unidos da América e à China”, esperando que esta ação se possa alastrar, agora, a outros potenciais acordos comerciais. Em comunicado, a CIP (Confederação Empresarial de Portugal) realça também que esta é “uma oportunidade para reverter o arrefecimento genérico que se verificou nos mercados ao longo de 2025, o qual foi agravado pela pressão suplementar que a política tarifária dos Estados Unidos da América provocou um pouco por toda a parte. As dificuldades sentidas, quer pelos países da União Europeia, quer pelos países do Mercosul, na relação comercial com os Estados Unidos desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, podem, a partir de 2026, ser compensadas pelo alargamento dos mercados para as empresas às geografias do outro lado do Atlântico”. Qual a dimensão dos blocos? É o maior acordo comercial à escala mundial. Cria a maior zona de comércio livre, com cerca de 720 milhões de consumidores (450 milhões na Europa e 270 milhões na América do Sul). Os dois blocos representam 25% das trocas comerciais globais e 20% do PIB mundial, ou 22 biliões de dólares. A União Europeia é o segundo parceiro comercial do Mercosul, atrás da China, contribuindo com 16,8% do comércio total do Mercosul. Já para a União Europeia, o Mercosul é o 10.º parceiro comercial de bens. Segundo dados divulgados pela Comissão Europeia, em 2024, as exportações comunitárias para os quatro países do Mercosul atingiram 53,3 mil milhões de euros, enquanto os produtos do Mercosul que entraram na União custaram 57 mil milhões de euros. Os principais produtos que entram dos quatro países sul-americanos na Europa são agrícolas (42,7%), minérios (30,5%) e pasta e papel (6,8%). Já no sentido contrário, as principais exportações europeias são maquinaria (28,1%), produtos químicos e farmacêuticos (25%) e equipamento de transporte (12,15). Nos serviços, a balança pende para o lado contrário. A União Europeia exporta 28,5 mil milhões de euros para o Mercosul, enquanto este bloco faz 13,1 mil milhões com a Europa. Isto com dados de 2023. Quando se poderão ver os resultados? A 9 de janeiro, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do Acordo de Parceria UE-Mercosul e do Acordo Provisório. Este último pretende acelerar a produção de efeitos sobre o comércio. Sendo da competência exclusiva da União Europeia, “não exige a ratificação a título individual pelos Estados-membros da UE”, bastando a formalização do Parlamento Europeu, e “deixará de ser aplicável assim que o Acordo de Parceria UE-Mercosul entre em vigor”, indica a documentação da Comissão Europeia. Do Brasil veio também a indicação de que a entrada em vigor poderá acontecer no segundo semestre. “Assina no sábado. Depois de assinado, o Parlamento Europeu aprova e nós aprovamos, internalizando o acordo. A expectativa é de aprovação ainda neste primeiro semestre, para que ele entre em vigência no segundo semestre”, afirmou o vice-presidente e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, citado pelo G1. No Brasil, o texto terá de passar pelo Congresso e, depois, pelo aval presidencial. Com este acordo provisório, os efeitos podem começar a ser vistos mais rapidamente. No entanto, o acordo final prevê que a redução dos direitos alfandegários se produza entre 10 e 15 anos, de forma gradual, para que não haja um corte abrupto nos termos de troca. O Mercosul tem 15 anos para “zerar” as tarifas, a União Europeia tem 10. Ao Observador, o presidente do conselho de administração da AEP, Luís Miguel Ribeiro, diz esperar que “os benefícios sejam já visíveis a muito curto prazo. É expectável que os agentes económicos já terão interiorizado a importância deste acordo comercial e estejam já a planear o reforço (ou entrada) para este importante mercado”. Pelo que, “porventura, os maiores impactos poderão ocorrer nos primeiros anos, após a entrada em vigor, como já tem sido habitual noutros acordos”. O que prevê o acordo? É só uma questão de direitos alfandegários? O acordo é muito mais do que direitos alfandegários, mas estes são a parte visível. O Mercosul eliminará 91% das taxas aplicadas a produtos europeus; já a União corta-as em 92% das importações. Para a Comissão Europeia, esta redução poderá resultar numa poupança anual de 4 mil milhões de euros em tarifas para os exportadores europeus, estimando que as vendas anuais para o Mercosul possam aumentar 39%, enquanto no sentido inverso as vendas do Mercosul para a União possam crescer 19%, até 2040. Ainda segundo cálculos da Direção Geral do Comércio, o acordo pode acrescentar 77,6 mil milhões de euros ao PIB europeu e 9,4 mil milhões à riqueza gerada pelos quatro países do Mercosul. A Bloomberg aponta para uma adição de 0,1% no PIB europeu e de 0,7% no PIB do Mercosul. Além de eliminar ou reduzir tarifas, o acordo prevê a eliminação de outros obstáculos regulatórios e a eliminação do tratamento fiscal “discriminatório” dos bens importados. Facilitar o comércio e também o investimento é assumido como objetivo, para o qual ajudará a abertura de contratos públicos. “O acordo facilitará às empresas europeias a apresentação de propostas para contratos públicos nos países do Mercosul em condições de igualdade com as empresas locais. Isto significa que o procedimento de concurso será mais simples, mais transparente e menos discriminatório para as empresas da UE”, assume Bruxelas. E também neste acordo a Europa olha para as matérias-primas críticas que existem no Mercosul e que a o bloco precisa, cobiçando, nomeadamente, o lítio da Argentina, mas também o alumínio, o grafite, o nióbio, o manganês, o silício, o vanádio e o tântalo. No âmbito do acordo, a União Europeia e o Mercosul concordaram em proteger direitos laborais, o ambiente, promover a responsabilidade social das empresas e cooperar em matéria de normas de bem-estar dos animais, biotecnologia, segurança dos alimentos e luta com a resistência antimicrobiana. O que mudará nas tarifas? Não sendo um acordo só com um ponto, certo é que é nas tarifas que todos pensam. E a diminuição dos direitos aduaneiros que uns e outros pagam para entrar no bloco parceiro é o que as empresas exportadoras sonham. A Comissão Europeia aponta alguns setores que beneficiarão com a abertura menos onerosa dos mercados sul-americanos. Produtos agroalimentares, máquinas, produtos farmacêuticos, automóveis e têxteis e vestuário. Em alguns dos casos a CIP fala mesmo em tarifas “proibitivas”, como os 35% aplicados aos automóveis, 14 a 20% na maquinaria e até 14% nos produtos farmacêuticos. Há ainda uma tarifa de 35% sobre as bebidas espirituosas, 27% no vinho, 28% sobre o queijo, 20% no chocolate, 10% nos azeites, 10% nas frutas e 13% no tomate preparado. O corte de tarifas será gradual, até chegar a zero, e com isso quem compra poderá conseguir pagar menos do que atualmente, porque não tem de suportar esse custo adicional. O que poderá facilitar as vendas entre blocos. O mesmo é válido para as vendas dos países do Mercosul, que ganharão, em particular, nos produtos agrícolas, e por isso o protesto, em particular em França, deste setor. O milho e a soja, no entanto, já têm isenção tarifas à entrada na União, pelo que o impacto do acordo, nestes dois casos, será nulo. O mesmo não se passa com produtos como a carne (bovina, suína, aves), o arroz e o mel. De um lado e de outro há, no entanto, alguns produtos que terão quotas para as quantidades que podem chegar com taxas mais baixas. Acontecerá por exemplo nas vendas de queijo ao Mercosul ou de lá para cá nas carnes. Vinho e azeites portugueses aplaudem Sendo o vinho e o azeite dois dos principais produtos de exportação, nomeadamente para o Brasil, chegar ao mercado mais barato é o alento que os dois setores não deixaram de aplaudir, ainda que no caso do azeite já no ano passado o Brasil tenha abolido as taxas aduaneiras. Com o objetivo de conter a inflação, o governo de Lula da Silva zerou as taxas para vários produtos alimentares, como o azeite, o milho, o óleo de girassol, a sardinha, os biscoitos, as massas alimentícias, o café, as carnes e o açúcar. “À partida, a abolição de barreiras e taxas aduaneiras é sempre uma oportunidade para dinamizar as trocas comerciais entre países, tendo em conta que normalmente essa abolição se irá refletir em preços mais baixos”, apontou, à Lusa, a secretária-geral da Casa do Azeite, Mariana Matos, ainda que lembre que o impacto imediato para o setor vai ser “relativamente reduzido” precisamente porque no ano passado foram abolidas as taxas para o azeite no Brasil e as exportações para os restantes países do Mercosul são residuais. Ainda assim, a Casa do Azeite salienta a importância de tornar permanente a abolição das taxas. Portugal é líder de mercado no Brasil com uma quota superior a 60%. No conjunto dos quatro países, segundo dados da Casa do Azeite, Portugal exporta 50 mil toneladas de azeite, amealhando 300 milhões de euros. Ao Observador, num comentário escrito, Jorge de Melo, CEO da Sovena, a maior empresa portuguesa de azeites, salienta que “o acordo UE,Mercosul apresenta sinais positivos para o setor agroalimentar e, em particular, para o setor oleícola. Ao privilegiar o livre comércio, este acordo permite à Sovena ser mais competitiva nos mercados da América do Sul, com um especial enfoque no Brasil”. No caso do vinho, o Brasil é também um importante mercado para a produção nacional que vê assim forma de crescer e de ganhar competitividade face aos principais concorrentes nesse mercado que são os vinhos do Chile e da Argentina, salienta ao Observador Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal. O Brasil é o principal mercado internacional para o vinho português, não considerando o vinho do Porto. Ainda que o setor veja oportunidades no Brasil com o acordo UE-Mercosul, Frederico Falcão indica poucas ambições para os restantes mercados - Argentina, Paraguai e Uruguai. Até porque no caso argentino, este país é ele próprio um grande produtor e consumidor de produto nacional. Tal como os portugueses, diz Frederico Falcão, são fiéis aos vinhos made in Portugal. Se o vinho e o azeite são claramente vencedores neste acordo, há outros setores que representam importantes exportações para o Mercosul, nomeadamente para o Brasil, que poderão sair beneficiados. De acordo com o INE, gorduras, materiais de transportes, produtos das indústrias alimentares, máquinas e aparelhos, material elétrico, animais são alguns dos produtos que Portugal mais vende para os países do Mercosul. Já no movimento contrário, Portugal compra essencialmente combustíveis, sementes e frutos, açúcar, madeiras, café, cereais e aeronaves (distorcido pelo facto de no país estar a Embraer, a quem foram comprados aviões). O Observador tentou junto da Delta Cafés perceber o impacto esperado no café com este acordo, mas a empresa não se mostrou disponível para um comentário. No conjunto, Portugal exporta para os países do Mercosul mil milhões de euros e importa 3,5 mil milhões de euros de bens, o que desequilibra a balança a favor dos países sul-americanos (havendo uma componente de produtos petrolíferos não despicienda). A componente agrícola é, pois, uma das principais neste acordo. A CAP , Confederação dos Agricultores de Portugal sublinha “as oportunidades estratégicas que o acordo representa para a agricultura portuguesa, nomeadamente o crescimento das exportações, a defesa e a valorização dos produtos agroalimentares nacionais”. Para Portugal, “o impacto pode ser particularmente relevante”, permitindo “o acesso privilegiado a um mercado de cerca de 270 milhões de consumidores, dos quais mais de 210 milhões falam português, com especial destaque para o Brasil, onde existe uma forte afinidade cultural com Portugal. Trata-se de um mercado que valoriza a gastronomia portuguesa e reconhece a qualidade e autenticidade dos produtos agroalimentares nacionais, o que, a par da língua, cria uma vantagem competitiva clara face a outros Estados-membros”. Luís Miguel Ribeiro, da AEP, complementa as oportunidades, recordando a dimensão limitada do mercado interno e a concentração das exportações num número reduzido de empresas e de mercados. Há, pois, “necessidade de aumentar as exportações portuguesas de forma sustentável e sustentada”, podendo o acordo permitir a redução das “dependências das exportações portuguesas para os mercados mais tradicionais. Ademais, o acordo permitirá uma maior previsibilidade nas relações comerciais, o que reduz riscos para as empresas exportadoras, num momento de particular instabilidade global”. Salvaguardas e concorrência nivelada Ainda que em Portugal as posições, na generalidade, sejam de aplausos em relação ao acordo, não há quem no setor agrícola não releve a necessidade de salvaguardas. A CAP no seu posicionamento sobre o tema aponta benefícios “desde que, naturalmente, salvaguardada a devida implementação rigorosa e equilibrada, respeitando as cláusulas e as exceções negociadas”. É pela mesma bitola que afina Jorge de Melo. O presidente executivo da Sovena alerta para “possíveis entropias” que poderão ser criadas “nas condições equitativas de concorrência”. “Aos agricultores europeus são exigidas normas específicas que nem sempre encontram reciprocidade nos países do Mercosul, o que pode criar espaço para situações de concorrência desleal. Nesse sentido, é fundamental salvaguardar padrões elevados de qualidade, sustentabilidade e equidade, assegurando condições justas para todos os agentes económicos. Ainda assim, a criação de uma plataforma de trocas comerciais mais dinâmica e sustentável, num mercado conjunto de cerca de 720 milhões de consumidores, constitui um sinal promissor para o futuro do setor.” Os defensores europeus do acordo vão dizendo que essas condições ficaram asseguradas no acordo. A CAP aponta outras medidas que estão previstas como o cumprimento “obrigatório” das normas sanitárias e fitossanitárias da União Europeia, a aplicação de “mecanismos de controlo e rastreabilidade reforçados, incluindo auditorias e inspeções às cadeias de produção”, e a existência de “compromissos ambientais e de sustentabilidade, com especial incidência na proteção florestal, no combate à desflorestação e no cumprimento do Acordo de Paris”. Além destas condições, há outras salvaguardadas que ficaram escritas. Uma delas é a extensão ao Mercosul de proteção de determinadas regiões. Portugal garante a proteção de mais de 30 indicações geográficas. Quais as indicações geográficas portuguesas que ficam protegidas também no Mercosul ? Mostrar ? Esconder O acordo entre a UE e o Mercosul garante a proteção de indicações geográficas portuguesas. São mais de 30: Azeite de Moura Azeite do Alentejo Interior Azeites da Beira Interior (Azeite da Beira Alta, Azeite da Beira Baixa) Azeite de Trás-os-Montes Azeites do Norte Alentejano Azeites do Ribatejo Chouriça de Carne de Vinhais; Linguiça de Vinhais Chouriço de Portalegre Mel dos Açores Ovos Moles de Aveiro Pera Rocha do Oeste Presunto de Barrancos/Paleta de Barrancos Queijo de S. Jorge Queijo da Serra da Estrela Queijos da Beira Baixa (Queijo de Castelo Branco, Queijo Amarelo da Beira Baixa, Queijo Picante da Beira Baixa) Açores Alentejano Alentejo Algarve Bairrada Beira Interior Carcavelos Dão Douro Duriense Lisboa Vinha da Madeira Madeirense Oporto/ Porto wine, vinho do Porto Palmela Pico Setúbal Távora-Varosa Tejo Trás-os-Montes Vinho Verde No acordo fica ainda determinada a possibilidade de a União Europeia reintroduzir tarifas ou suspender concessões caso as importações originem perturbações no mercado. E aqui Itália conseguiu que as oscilações ficassem nos 5%, contra valores que chegaram a atingir 10%. Essas reversões podem ser aplicadas quando se atinja 5% no aumento dos volumes de importações, na diminuição de preços dos produtos que entram e nos diferenciais entre preços de importação e preços domésticos. É, por isso, que as associações de produtores, nomeadamente a CAP, defendem que “é necessária uma monitorização muito atenta do mercado para se atuar através da aplicação destes mecanismos”. A monitorização é igualmente pedida pela AEP, de forma mais abrangente. Luís Miguel Ribeiro, admitindo “consequências menos favoráveis em alguns setores que enfrentem maior competitividade dos mercados do Mercosul”, apela que seja “monitorizada a evolução das exportações e importações por setores para estes mercados, no sentido de se avaliar a forma como alguns setores poderão ser potencialmente mais afetados”. Outra forma de salvaguarda é, como referido, o estabelecimento de quotas para as quantidades sujeitas a taxas bonificadas. Por exemplo, na carne bovina entrará na União Europeia com taxa reduzida em 99 mil toneladas, 1,4% do consumo europeu. A CAP explica ao Observador que “alguns produtos, como por exemplo a carne de bovino, poderão ser mais sensíveis em termos de concorrência dos países do Mercosul e, por isso, as respetivas importações, com taxas mais reduzidas ou eliminadas nalguns casos, ocorrem dentro de quotas que estão estabelecidas. https://observador.pt/especiais/acordo-sobretudo-comercial-entre-uniao-europeia-e-mercosul-demorou-30-anos-a-chegar-mas-trump-deu-o-empurrao-que-faltava/ [Additional Text]: epa12637973 Protesters from the Confederation Paysanne (CP) agricultural union gather and attempt to use tractors to slow down the Paris ring road during a protest against the Mercosur trade deal, in Paris, France, 09 January 2026. As the European Union is set to hold a landmark vote on the EU-Mercosur trade agreement on 09 January, a wave of political resistance and protests spread across the continent. EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON Alexandre Machado, editora de economia do Observador O presidente da Lusa-Agência de Notícias de Portugal, Nicolau Santos (D) e o presidente da Fundação AEP Luís Miguel Ribeiro (E) durante a assinatura de um protocolo entre as duas entidades sobre o projeto Rede Global da Diáspora. Lisboa, 27 de junho de 2019. MIGUEL A. LOPES/LUSA epa12602273 European Commission President Ursula von der Leyen at the end of the EU Council Summit in Brussels, Belgium, 19 December 2025. EU leaders were meeting to discuss the latest developments in Ukraine, the EUs next multiannual financial framework, the EU enlargement process, and the geoeconomic situation in the European Union. EPA/OLIVIER HOSLET Alexandra Machado