ENTREVISTA - QUEREMOS DEMOCRATIZAR O ACESSO AO CARREGAMENTO RÁPIDO E ULTRARRÁPIDO
2026-01-14 22:06:36

CARLOS FERRAZ , CEO DA ATLANTE PORTUGAL Com este modelo de um preço único e fixo o utilizador de um veículo elétrico pode finalmente ficar a saber exatamente quanto vai pagar por cada carregamento. Foi essa a principal motivação para a Atlante introduzir agora este tarifario? A nossa principal motivação são os utilizadores de veículos elétricos. Sabemos que a transparência e a previsibilidade são cruciais para a confiança do utilizador, principalmente os que estão a ter um primeiro contato com a mobilidade elétrica. A complexidade dos tarifários variáveis, que mudam consoante a hora do dia, o tipo e potência do carregador e fatores externos que não controlamos, são um motivo de ansiedade para quem utiliza, ou adota pela primeira vez, um veículo elétrico.com o modelo “All Included”, de preço único e fixo, o utilizador sabe exatamente quanto vai custar o carregamento, eliminando surpresas e permitindo um planeamento financeiro claro da sua viagem. O novo tarifar io esta disponível em todos os postos de carregamento da rede Atlante, mas apenas para operações efetuadas através da app myAtlante. Explique-nos por favor as vantagens desta aplicação? O novo tarifário é um exclusivo da nossa aplicação porque a myAtlante é o centro da nossa proposta de valor e da experiência digital do utilizador. As principais vantagens prendem-se com o acesso a uma plataforma que permite, para além do acesso a um valor transparente e competitivo, encontrar todos os carregadores disponíveis em Portugal, verificar o seu estado em tempo real, verificar a potência de carregamento, iniciar/parar a sessão de forma imediata e simples sem necessidade da utilização do cartão físico, planear de forma intuitiva as viagens do utilizador para que as possa fazer de forma confortável e sem preocupações, simular o custo do carregamento e aceder ao nosso programa que recompensa os utilizadores devolvendo-lhes parte do gasto do carregamento em Green Gems para que possa trocar por saldo para descontar em utilizações futuras. Em que se distingue a Atlante face a outras redes de carregamento rapido e ultrarrapido? Estamos totalmente dedicados ao carregamento rápido e ultrarrápido. A nossa rede é planeada para estar nos locais mais estratégicos: dos centros urbanos e corredores rodoviários onde a rapidez é essencial, aos aeroportos, hotéis e centros de comércio de Norte a Sul do país. Para além disso, temos o compromisso de fornecer 100% de energia proveniente de fontes renováveis nos nossos carregado-res. A sustentabilidade não é uma opção, é a nossa missão central. Focamo-nos na simplicidade e intuição. Queremos que a experiência de carregamento seja o mais próximo possível de ligar e desligar do carregador, eliminando fricções. A Atlante tem como objetivo ser o maior operador de carregamento rápido e ultrarrápido no Sul da Europa, o que se traduz num investimento contínuo e na adoção das tecnologias mais recentes, sempre ao serviço das necessidades dos nossos clientes. Anunciam ja mais de 1.000 pontos de carregamento. Quais são as perspetivas e ambições de crescimento da infraestrutura Atlante em Portugal? Os mais de 1.000 pontos de carregamento são um marco importante, mas a nossa ambição em Portugal vai além do número puro de tomadas. O foco da Atlante é a qualidade, a alta potência e a cobertura estratégica. Portugal é um mercado vital, como demonstram os dados de adoção de VE s. A nossa meta é garantir a capilaridade da rede rápida e ultrarrápida em todo o território nacional, reforçando a confiança dos condutores. O crescimento será acelerado, implementando postos continuamente para garantir que estamos à frente da evolução dos veículos e das baterias do futuro. A rede nacional de carregamento ultrarrap ido esta a ser reforçada, com a entrada em funcionamento de carregadores capazes de disponibilizar potências até 300 kW. Apesar da tecnologia possibilitar operações cada vez mais rap idas, a experiência de recarregar um veículo elétrico esta ainda muito distante do abastecimento de um carro a combustão. O que podera ser mais decisivo no papel que a rede de carregamento tera de desempenhar na demo- cratização dos veículos elétricos: a velocidade de carregamento ou uma cobertura abrangente de postos? Embora a velocidade de carregamento seja crucial para a conveniência e para reduzir o tempo de espera, pensamos que o fator mais decisivo no papel da rede para a democratização dos veículos elétricos é a cobertura abrangente de postos rápidos e ultrarrápidos. A ansiedade de autonomia só desaparece quando o condutor tem a certeza de que encontrará um posto de carregamento rápido e disponível quando precisar, independentemente de estar numa autoestrada ou num centro urbano. A velocidade melhora a experiência, mas a cobertura robusta cria a confiança necessária para a adoção em massa. Para além disso é necessário fazer, também, o trabalho de mostrar às pessoas que a experiência de um VE e de um ICE são bastante dife-rentes e requerem um comportamento diferente. Um veículo elétrico deve moldar-se à nossa rotina. Ao contrário de um veículo a combustão, um veículo elétrico deve ser carregado enquanto fazemos as atividades normais do nosso dia-a-dia como trabalhar, fazer compras ou ir ao cinema. Ao pensarmos desta forma, na realidade quase nunca precisamos de esperar que o carro carregue. Como avalia a situação atual da infraestrutura de carregamento de veículos elétricos? Concorda com quem refere que o crescimento da rede não tem acompanhado a evolução do share de mercado dos modelos BEV? Concordamos que o crescimento da rede, especialmente de alta potência, tem demonstrado um certo desfasamento face à evolução do “share” de mercado dos modelos BEV. Os dados de novembro (um em cada três carros matriculados é 100% elétrico) são um sucesso, mas também um alerta. Se o crescimento da infraestrutura não acompanhar a curva de adoção, corremos o risco de criar estrangulamentos e prejudicar a experiência do utilizador, o que pode travar a transição. A Atlante está a responder ativamente a este desafio, investindo em carregadores de nova geração e em localizações estratégicas para compensar este desfa-samento. No entanto, necessitamos que as entidades competentes trabalhem no mesmo sentido, com processos de licenciamento e ligação à rede menos burocráticos, mais rápidos e consequentemente mais eficazes. Precisamos de estar onde as pessoas precisam de nós. A Atlante defende o objetivo de 100% de veículos elétricos até 2035. Um comentário às informações mais recentes que antecipam que a Comissão Europeia, sob forte pressão de parte dos industriais automóveis, poderá mesmo flexibilizar esse objetivo, adiando-o ou permitindo a comercialização pós-2035 também de motores híbridos e/ou alimentados a novos tipos de combustíveis ambientalmente mais eficientes? Há fortes razões pelas quais defendemos que se deve manter o objetivo de 100% de veículos elétricos até 2035. Os modelos de transição energética mostram que uma adoção rápida de veículos elétricos gera menos custos no sistema global de energia e facilita o compromisso das metas climáticas da EU de longo prazo. Um estudo recente da BCG aponta para uma redução de 15% nas importações totais de petróleo na Europa até 2035 em comparação com 2025 (ou seja, 40-45 mil milhões de euros), se a eletrificação atingir o objetivo referido atrás. O estudo refere ainda que um ICE (segmento-D) emite 3.2x mais que um BEV equivalente ao longo do ciclo de vida, 75% dos BEV atualmente vendidos na Europa são mais baratos de possuir e conduzir, as empre- sas podem poupar até 1600EUR/ano ao conduzir um BEV em detrimento de um PHEV (640EUR/ano para os particulares) e ainda que 59% dos europeus possuem ou gostariam de comprar um BEV como próximo veículo. Por outro lado, a clareza regulatória , ou seja, saber que o mercado automóvel vai definitivamente mudar para elétrico , dá aos consumidores, empresas e mesmo aos fabricantes de automóveis um horizonte previsível, estimulando investimento em infraestrutura (carregadores, rede elétrica, renováveis) e inovação em tecnologia limpa. Adiar indefinidamente ou permitir demasiada flexibilidade pode arriscar que a transição fique fragmentada e lenta, reduzindo dramaticamente o impacto ambiental esperado e postergando a redução real das emissões. “Queremos que a experiência de carregamento seja o mais próximo possível de ligar e desligar do carregador, eliminando fricções”