FABRICANTES CHINESES ACELERAM EXPANSÃO GLOBAL E ELEVAM A FASQUIA NO MERCADO DOS ELÉTRICOS
2026-01-12 22:09:10

Os fabricantes chineses de veículos elétricos estão a entrar numa nova fase de maturidade. Depois de consolidarem posições no mercado interno, várias marcas estão agora a traçar planos de crescimento mais agressivos, combinando aumento de volumes, investimento pesado em investigação e desenvolvimento e uma clara ambição de expansão internacional, incluindo na Europa. A Xiaomi e a Dongfeng ilustram duas abordagens diferentes, mas complementares, desta estratégia em aceleração. A Xiaomi, tecnológica chinesa que entrou no setor automóvel em 2024, definiu como objetivo vender 550 mil veículos elétricos em 2026, o que representa um crescimento de 34% face a 2025, ano em que as vendas atingiram cerca de 410 mil unidades, segundo o portal económico Yicai. O plano confirma a importância crescente do automóvel no portefólio de um grupo que ainda está mais associado aos smartphones e outros dispositivos eletrónicos. Lei Jun, fundador e presidente executivo da Xiaomi, afirmou numa transmissão em direto que a empresa vai “dedicar mais energias ao negócio automóvel” em 2026. O responsável indicou ainda que a Xiaomi prevê investir cerca de 28.600 milhões de dólares, aproximadamente 24.400 milhões de euros, em investigação e desenvolvimento (I&D) ao longo dos próximos cinco anos. “A meta não deve ser nem demasiado alta, nem demasiado baixa”, afirmou Lei Jun, mostrando confiança na execução do plano. Apesar de ambicioso, o objetivo aponta para uma desaceleração do ritmo de crescimento registado em 2025, quando as vendas quase triplicaram. Esse desempenho foi impulsionado sobretudo pelo SUV YU7, lançado em junho de 2025 e responsável por cerca de 70% das vendas recentes da marca. O primeiro modelo da Xiaomi, o sedan SU7, tinha sido lançado em abril de 2024. Até ao momento, não foram anunciados novos modelos para 2026. Mais antiga e com uma base industrial muito mais ampla, a Dongfeng Motor Corporation representa outra face da ofensiva chinesa. Um dos maiores fabricantes automóveis estatais do país, o grupo ultrapassou em 2025 a marca de 1 milhão de veículos de novas energias vendidos, um objetivo anual que foi alcançado em dezembro. Dongfeng Box As vendas de veículos eletrificados da Dongfeng cresceram cerca de 22% face a 2024, impulsionadas por uma procura sólida no mercado chinês e em mercados internacionais emergentes. O desempenho foi sustentado por um portefólio diversificado que inclui as marcas Dongfeng, Voyah e M Hero, cobrindo vários segmentos e perfis de utilização. Entre estas, a Voyah destacou-se, com um volume de vendas quase duplicado em termos anuais. Fundada em 1969, então como Second Automobile Works Co., Ltd., a Dongfeng desenvolveu ao longo das décadas uma estrutura industrial alargada, com produção de veículos de passageiros, comerciais e elétricos em várias regiões da China. Nos últimos anos, o grupo tem concentrado esforços no desenvolvimento de tecnologias de eletrificação, conectividade inteligente e soluções de mobilidade avançada. Ao contrário da Xiaomi, cuja presença internacional ainda está numa fase inicial, a Dongfeng já definiu metas concretas para a Europa. O fabricante pretende triplicar as vendas no continente e atingir cerca de 80.000 unidades em 2026, através de uma oferta que combina veículos totalmente elétricos, híbridos e também modelos com motor de combustão interna, ajustados às especificidades de cada mercado europeu. Esta estratégia inclui igualmente a expansão da rede de distribuição e de assistência técnica, bem como o alargamento do portefólio para responder às preferências dos consumidores fora da China. A esta lista de fabricantes chineses em aceleração junta-se também a Nio, uma das startups de veículos elétricos mais acompanhadas pelos mercados internacionais. A marca assinalou esta semana a produção do seu milionésimo automóvel 100% elétrico, um marco que reforça a sua posição num grupo ainda restrito de construtores com escala industrial significativa no segmento elétrico. Numa conferência de imprensa realizada na unidade de Xinqiao, em Hefei, no leste da China, onde foi produzido o veículo que assinalou o marco, Li Bin, fundador, presidente e diretor executivo da empresa, reafirmou a sua convicção de que a empresa alcançará, pela primeira vez, um lucro trimestral no quarto trimestre de 2025. Com este volume acumulado, a Nio torna-se a quarta startup chinesa de veículos de novas energias a ultrapassar a fasquia de um milhão de unidades produzidas, depois da Li Auto, XPeng e Leapmotor. É, ao mesmo tempo, a segunda marca mundial dedicada exclusivamente a veículos elétricos a atingir este patamar, apenas atrás da norte-americana Tesla, sendo também o único fabricante chinês cujo portefólio é composto exclusivamente por modelos 100% elétricos. O otimismo da administração assenta sobretudo no desempenho comercial do ES8 de terceira geração. No quarto trimestre de 2025, a Nio entregou mais 40.000 unidades deste modelo face ao trimestre anterior. Com um preço na ordem dos 400.000 yuan, cerca de 49 mil euros, a margem bruta do ES8 deverá ultrapassar os 20%, contribuindo de forma relevante para a melhoria da rentabilidade da empresa no período terminado a 31 de dezembro. Nio ES8 A possibilidade de a Nio alcançar lucro trimestral tem sido acompanhada de perto pelo mercado, sendo encarada como um teste decisivo à viabilidade de longo prazo do modelo de negócio das startups de veículos elétricos. Ainda assim, persistem dúvidas quanto à capacidade da marca para cumprir os seus próprios objetivos de volume. No quarto trimestre de 2025, a Nio entregou 124.800 veículos, abaixo da meta de 150.000 unidades definida em setembro. No conjunto do ano, as entregas totalizaram 326.000 veículos, longe do objetivo inicial de 440.000 unidades. Apesar disso, Li Bin mantém a meta de crescimento anual entre 40% e 50%, o que implicaria vendas de pelo menos 456.400 veículos já este ano. Segundo estimativas anteriores da consultora norte-americana AlixPartners, os fabricantes dedicados exclusivamente a veículos elétricos necessitam, em média, de cerca de 400.000 unidades anuais para atingir o ponto de equilíbrio financeiro. Um patamar que a Nio se aproxima de alcançar, num contexto de crescente concorrência interna e de expansão internacional acelerada por parte dos construtores chineses. Em conjunto, os planos anunciados por marcas como a Xiaomi, a Dongfeng e a Nio juntam-se aos objetivos já conhecidos de outros grupos chineses, como a BYD (que prevê crescer 19% em 2026) e a Leapmotor (que aponta para um aumento de 40% nas vendas). São estimativas que reforçam um sinal claro para o mercado global: o de que a indústria automóvel chinesa já é um ator internacional de primeira linha. Welectric Welectric