pressmedia logo

MERCEDES CLA 250+ - ESQUEÇA AS NOVE HORAS DE BRAGANÇA A LISBOA SEM CARREGAR

Público

2026-01-12 22:09:10

É o eléctrico mais e ciente da Mercedes. O CLA 250+ faz viagens longas sem parar, tem um “cérebro” avançado, mas o carregamento esconde uma limitação grave. Sérgio Magno a Se há algo que salta à vista quando nos aproximamos do novo Mercedes CLA 250+, é que a marca alemã desenvolveu uma ligeira obsessão pelo próprio logótipo. Estrelas. Estão por todo o lado. Nos faróis LED, na grelha frontal iluminada com uma animação que faz lembrar as noites do Dubai, nos farolins traseiros e até espalhadas pelo interior. Dir-se-ia que a Mercedes teve receio que o condutor se esquecesse de que carro comprou. Mas, ultrapassado este festival visual, o que temos aqui não é apenas um exercício de vaidade ou um “sabonete” aerodinâmico desenhado pelo vento. Temos, muito possivelmente, o automóvel mais inteligente e eficiente que a marca já produziu. O CLA 250+ anuncia acabar de vez com a ansiedade da autonomia, recorrendo a uma bateria de nova geração e a um sistema operativo que promete conhecer quem vai ao volante melhor do que a própria família. Mas será que toda esta tecnologia se traduz numa experiência real de valor, ou é apenas fogo-deartifício digital? O cérebro digital A unidade que testámos prescinde do badalado MBUX Superscreen aquele painel digital de vidro que vai de ponta a ponta do tablier e, em boa verdade, a experiência sai beneficiada. Em vez de três ecrãs, temos uma configuração mais racional e focada no condutor: um painel de instrumentos digital e um generoso ecrã central táctil de 14 polegadas, que flutua no centro da consola. A ausência do ecrã do passageiro deixa à vista o trabalho de design da Mercedes. Nesta versão, equipada com o nível Premium Plus, o tablier apresenta uma superfície decorada que, iluminada pela luz ambiente personalizável, cria uma atmosfera lounge muito bem conseguida. O verdadeiro protagonista é o MB-OS, o novo sistema operativo proprietário que, com a ajuda do pacote de Extras Digitais, transforma o carro num assistente pessoal. A fluidez dos menus no ecrã de 14 polegadas é irrepreensível, não havendo qualquer atraso entre o toque e a acção, algo que deveria ser a norma, mas que nem sempre acontece na concorrência. A interface, estilo telemóvel, é simples. Não há demasiados ícones e, de base, temos poucas, mas boas, aplicações. O que importa está lá e há bom suporte para Android Auto e Apple CarPlay, que ficam bem integrados no sistema do carro. Por exemplo, ao usar o Google Maps, as instruções de navegação são replicadas no painel de instrumentos. Mais há mais. Como o sistema de realidade aumentada, que adiciona setas animadas e vídeo ao mapa para nos ajudar na navegação em situações mais difíceis, como quando há vários entroncamentos seguidos. Ou o sistema de estacionamento automático que, por ser rápido e eficiente, é verdadeiramente utilizável. No entanto, a convivência com a inteligência artificial do carro tem os seus “quês”. A Mercedes anuncia com pompa uma funcionalidade que permite falar com o automóvel sem usar as palavras-chave de activação (o famoso “Olá, Mercedes”). Em teoria, o sistema seria capaz de perceber, pelo contexto, quando nos estamos a dirigir a ele. Na prática, a nossa experiência ditou o oposto. O sistema revelou-se confuso, activando-se quando conversávamos com o passageiro ou ignorando comandos quando não usávamos a “senha”. A conclusão: é preferível ir às definições e reactivar a obrigatoriedade do comando de voz “Olá, Mercedes”. É menos futurista, mas funciona e poupa-nos a frustração de ter o rádio interrompido porque o carro achou que o “vamos almoçar” era um pedido para traçar uma rota. Ver o que o carro vê Onde a tecnologia brilha sem reservas é no sistema de apoio à condução. O painel de instrumentos digital oferece uma visualização do ambiente em redor que rivaliza directamente com o grafismo da Tesla, mas com o toque de requinte gráfico da Mercedes. É-nos permitido ver, em tempo real, aquilo que os sensores e câmaras do carro estão a captar: o posicionamento exacto do nosso veículo na faixa, os outros carros, camiões, motociclos e até a representação tridimensional dos edifícios em redor. Esta funcionalidade não é apenas estética; tem um efeito psicológico importante. Ao vermos que o carro “vê” o motociclo que se aproxima peloângulomorto,anossaconfiança no sistema de condução assistida aumenta exponencialmente. Deixamos de ter de adivinhar se o computador percebeu o perigo. E há um detalhe de interface que merece destaque: durante as manobras, se houver um elemento de risco nas proximidades, como um peão a atravessar atrás do carro enquanto fazemos marcha-atrás, surge no ecrã uma espécie de “mancha” ou névoa vermelha sobre a zona do perigo. É um alerta visual intuitivo, que chama a atenção do olho humano muito mais rapidamente do que um simples ícone a piscar. A magia da eficiência Debaixo do capot e também debaixo do piso é onde a verdadeira revolução acontece. O CLA 250+ vem equipado com uma bateria de 85 kWh de capacidade útil. A química utilizada (NMC, com ânodos de óxido de silício e grafite) permite uma densida-de energética 20 por cento superior às baterias tradicionais. O resultado é uma autonomia que, em ciclo misto, pode chegar aos 793 quilómetros, e ultrapassar os 900 na cidade. A efi# ciência deste carro é notável, ajudada por uma bomba de calor de última geração. Para mover este conjunto, temos um motor de 200 kW (cerca de 272cv) no eixo traseiro, acoplado a uma caixa de duas velocidades. Ao contrário da maioria dos eléctricos com apenas uma mudança, este sistema permite que o motor rode sempre na rotação maiseficiente. Ao volante, o CLA 250+ prega-nos uma partida agradável: parece muito mais leve do que realmente é. Apesar das quase duas toneladas, a suspensão confere-lhe uma agilidade surpreendente e a tracção traseira dá-lhe uma atitude dinâmica nas curvas muito satisfatória. Sentimos segurança, mesmo quando exageramos um pouco, a desenhar as curvas e, muito por “culpa” da tracção traseira e do sistema de som já referido, é fácil soltar um sorriso e alguns “uaus” ao volante. Quem disse que os eléctricos não podem ser divertidos? O “elefante” no carregamento Chegamos agora àquele que é, inequivocamente, o ponto crítico desta análise e que exige a atenção total do potencial comprador. A Mercedes optou por uma arquitectura eléctrica de 800 volts para permitir carregamentos ultra-rápidos até 320 kW. Até aqui, tudo parece excelente, até porque num carregador capaz de oferecer a potência indicada, conseguimos recuperar cerca de 300 quilómetros de autonomia em apenas dez minutos! O problema reside na opção pela exclusividade. Passamos a explicar. No mercado, já existem vários automóveis com arquitectura de 800 volts como o Porsche Taycan, o Audi e-tron GT, o Hyundai Ioniq 5 ou o Kia EV6. Todos estes carros têm um sistema que lhes permite carregar tanto em postos de 800 volts como nos mais comuns postos de 400 volts, fazendo a conversão necessária internamente. O Mercedes CLA 250+, inexplicavelmente, não faz isto de série. O carregamento rápido deste carro só funciona em postos nativos de 800 volts. Se ligar este CLA a um posto rápido ou ultra-rápido comum de 400 volts que constituem a maioria da rede em Portugal e na Europa o carregamento simplesmente não acontece, tornando a paragem inútil. A Mercedes já anunciou que será possível adicionar o suporte para 400 volts (um opcional com um custo de 700 euros), mas, quando fizemos esta análise, esta opção ainda não estava disponívelnoconfigurador online da Mercedes-Benz Portugal. Isto é uma falha grave de compatibilidade. Significa, por exemplo, que este Mercedes não pode usar a vasta efiávelrededeSuperchargersdaTesla (que opera a 400 volts), nem a maioria dos postos rápidos de 50 a 150 kW espalhados pelas estradas. Obriga o condutor a um planeamento de viagem cirúrgico, dependente de uma infra-estrutura de topo que ainda é escassa. E, para dificultar ainda mais as coisas, o sistema de navegação do carro, com pontos de interesse Google, apresenta todos os postos, incluindo os incompatíveis. Para o dia-a-dia, o carregamento lento, em corrente alternada (AC), a 11 ou, opcionalmente, a 22 kW, funciona perfeitamente, mas a limitação em viagem é um defeito difícil de justificar num carro com vocação de estradista. Veredicto O Mercedes CLA 250+ é uma demonstração de força tecnológica com duas caras distintas. Por um lado, estamos perante o campeão absoluto da efi# ciência e da autonomia. É um automóvel que antecipar o futuro, permitindo encarar viagens longas sem os suores frios. A condução é refinada, o sistema de infoentretenimento é visualmente rico e as ajudas à condução transmitem uma segurança real e moderna. Contudo, é um produto que exige umperfildeutilizadorespecíficopara não se tornar uma fonte de frustração. Este CLA será a escolha ideal para quem faz muitos quilómetros, valoriza tecnologia de ponta e, crucialmente, tem garantia de carregamento em casa ou no escritório. Para este condutor, que planeia as suas viagens longas em rotas servidas por carregadores Ionity ou similares de 800 volts, o Mercedes é um companheiro de estrada imbatívelesofisticado. Poroutrolado,a decisão da engenharia de limitar o carregamento rápido exclusivamente a postos de 800 volts já foi prometida uma versão futura sem esta limitação torna-o desaconselhável para quem pretende viajar livremente pelo país, sem ter de filtrar postos pela voltagem em aplicações. A incompatibilidade com a rede predominante de 400 volts (incluindo a rede Tesla) e o espaço traseiro acanhado afectam a versatilidade. É um vislumbre brilhante do futuro, mas que tropeça, de forma evitável, na realidade da infraestrutura do presente. i Mercedes CLA 250+ Motor: 200 kW de potência (272 cv) e 335 Nm de binário Bateria: 90 kWh totais, 85 kWh úteis, 800 volts, química NMC (ânodos de óxido de silício) Carregamento Lento (AC): até 22 kW (0-100% em 4,75h; 13,75h a 7,4 kW) Rápido (DC, exclusivo 800 volts): até 320 kW (10-80% em 22 min.; recupera até 300 km em 10 min.) Autonomia WLTP (combinado): 694 a 792 km Teste: 550 km (auto-estrada) a 830 km (cidade) Prestações 0-100 km/h: 6,7 segundos Velocidade máxima: 210 km/h Dimensões 4,723x1,855x2,021 (CxLxA), 2055 kg Mala: 405 litros Frunk: 101 litros Preço: Desde EUR55.500 DR Sérgio Magno