A PRÓXIMA CRISE NÃO É TECNOLÓGICA, É DE CONTROLO E CONFIANÇA
2026-01-10 06:00:06

O que muda, agora, é a natureza do poder instalado nas redes digitais quando a IA deixa de ser um instrumento que responde e passa a ser um sistema que executa. Entramos em 2026 com uma contradição à flor da pele: nunca se falou tanto de inteligência artificial (IA) e, ainda assim, continuamos a adiar o debate que interessa. O jornal Diário de Notícias assinalou-o com uma clareza desconfortável: a implementação da IA vai acelerar, mas as medidas para reduzir impactos negativos seguem a um ritmo mais lento e esse desfasamento, por si só, já é uma escolha política, mesmo quando ninguém a assume. O ano arranca, portanto, com uma pergunta que não é técnica. É social. Quem olha para 2026 como uma mera corrida a modelos mais “inteligentes” está a ver apenas a superfície. O que muda, agora, é a natureza do poder instalado nas redes digitais quando a IA deixa de ser um instrumento que responde e passa a ser um sistema que executa. A compra da Manus pela Meta, anunciada no fim de dezembro, é um sinal nítido dessa viragem: a Reuters descreve a intenção de integrar a tecnologia da Manus (apresentada como um “agente” capaz de tomar decisões e concluir tarefas com pouca orientação), nos produtos da Meta, incluindo a Meta AI, e de a operar também como serviço para consumidores e empresas. Esta transição merece ser escrita devagar, porque é nela que reside a mudança de época. Durante anos, habituámo-nos a discutir redes sociais como praças públicas imperfeitas, dominadas por publicidade e por mecanismos de recomendação. Em 2026, o risco é outro: as mesmas plataformas podem tornar-se a camada operacional do quotidiano, onde não apenas se consome informação, mas onde se delega trabalho. A AP e a Euronews citam a própria Meta a prometer que a Manus irá entregar agentes de utilização geral nos produtos de consumo e de negócio, incluindo na Meta AI. O que era feed torna-se oficina; o que era atenção torna-se execução. É aqui que o debate sobre emprego, sendo legítimo, fica curto. O sector bancário europeu oferece um retrato útil do que se aproxima: uma previsão de analistas da Morgan Stanley, citada pelo Irish Times, aponta para mais de 200 mil empregos “sob ameaça” até 2030, num cenário em que os bancos procuram poupanças através de IA, reforçam serviços digitais e fecham balcões. O mesmo texto quantifica a ordem de grandeza: um corte de 10% sobre cerca de 2,12 milhões de trabalhadores aproximar-se-ia de 212 mil postos. A leitura portuguesa, no ECO, vai no mesmo sentido e explicita as áreas mais vulneráveis: serviços centrais e funções internas, tarefas administrativas, gestão de risco e conformidade regulatória. Não se trata de dramatizar por reflexo. Trata-se de reconhecer que o risco já tem endereço e organograma. Quando uma tecnologia passa a reduzir custos de forma mensurável, a conversa muda de tom: sai do laboratório e entra na sala do conselho de administração. O mesmo artigo da Irish Times relata que a própria Morgan Stanley refere ganhos de eficiência “na ordem dos 30%” associados a IA e maior digitalização, uma frase que, lida com frieza, explica por que razão 2026 será menos tolerante com improvisos. Ainda assim, há um problema mais profundo e, por isso mesmo, mais perigoso do que a substituição de tarefas e a compressão de equipas. O risco decisivo de 2026 não é a IA “em si”, isolada num servidor. É a sua fusão com redes digitais globais que já conhecem os nossos hábitos, as nossas relações e os nossos padrões de atenção. Pela primeira vez, a humanidade dispõe de meios técnicos para um controlo social de escala inédita: monitorização contínua, extração automática de padrões, previsão crescente de decisões e aplicação personalizada de estímulos. A influência deixa de ser apenas propaganda, passa a ser engenharia; deixa de ser discurso, passa a ser otimização. Este é o ponto em que a discussão sobre capitalismo de vigilância é, paradoxalmente, insuficiente, porque tende a reduzir o problema ao anúncio direcionado. A questão central é ainda mais vasta: quem controla os sistemas que controlam a atenção e, por arrasto, a cognição coletiva? Em 2026, quando “agentes” de IA forem integrados em aplicações onde falamos com amigos, combinamos trabalho, pagamos serviços e pedimos recomendações, a fronteira entre assistência e orientação torna-se ténue. E, com ela, torna-se ténue também a fronteira entre conveniência e condicionamento. A compra da Manus pela Meta tem, por isso, uma segunda leitura que não cabe na página de economia. A Reuters inclui uma frase que resume o clima geopolítico e o tipo de escrutínio que vai marcar este ano: “Scrutiny is almost guaranteed; anything with Chinese roots and AI in the headline now triggers Washington s reflexes.” Não é um detalhe, é parte do negócio. A IA tornou-se um ativo estratégico e, quando se liga a infraestruturas de comunicação massiva, torna-se também um ativo de soberania. A Euronews nota que a Meta afirmou não haver “qualquer continuidade de interesses de propriedade chinesa” e que a empresa iria reduzir operações na China. Mesmo assim, 2026 será um teste, não apenas ao que a Meta consegue construir, mas ao que consegue provar, nomeadamente em processos, auditorias e comportamentos, num ambiente de suspeita permanente. O texto do jornal Diário de Notícias faz, aliás, a ponte entre a euforia tecnológica e o vazio político com uma sequência de perguntas que deveriam estar no centro da agenda: como formar e treinar profissionais para serem úteis no futuro; como garantir que a transição não é disruptiva; como evitar um aumento abrupto do desemprego e da precariedade entre os mais jovens. “A urgência nesta discussão aumenta a cada dia que passa, mas o debate tarda.” E aqui está uma das ironias de 2026: todos reconhecem a urgência, mas poucos aceitam a responsabilidade de desenhar respostas. Convém, porém, evitar outra armadilha, a de confundir previsões sonoras com inevitabilidades silenciosas. As declarações de Elon Musk e Bill Gates, citadas no mesmo artigo do jornal Diário de Notícias, funcionam como slogans de época, “trabalhar será opcional” e “os humanos não serão necessários para muitas coisas”, mas não resolvem a pergunta prática colocada por Bernie Sanders: “Se não haverá trabalho e os humanos não serão necessários para muitas coisas, então como é que as pessoas vão ter um rendimento para alimentar as suas famílias, obter cuidados de saúde e pagar as rendas?” Essa pergunta é tão simples que assusta; e é precisamente por isso que 2026 não pode ser mais um ano de conversa lateral. Há, ainda, um terceiro eixo que quase nunca aparece com a força devida: a governança. Em 2025, a IA entrou em muitas empresas pela porta da inovação e saiu pela porta do risco, risco operacional, regulatório, reputacional e ético. Este não é um capricho semântico. É a constatação de que modelos e sistemas começaram a decidir crédito, priorizar clientes, automatizar atendimentos e classificar riscos antes de existirem respostas claras para questões elementares como, onde a IA está a ser usada, quem aprova, que riscos foram avaliados, como se detetam e corrigem erros, quem responde quando algo corre mal, etc. O mercado, em 2026, tende a ser menos indulgente com a ingenuidade travestida de entusiasmo. A investigação do Project Iceberg ajuda a colocar números e, sobretudo, limites na conversa. O relatório sublinha que a sua métrica mede “exposição técnica”, não prevê perdas líquidas de emprego nem calendários de adoção. Ainda assim, a imagem é poderosa, porque aquilo que se vê hoje como disrupção concentrada em tecnologia representa uma pequena parte (2,2% do valor salarial, cerca de 211 mil milhões de dólares), enquanto a capacidade técnica se estende “abaixo da linha de água” para tarefas administrativas, financeiras e de serviços profissionais (11,7%, cerca de 1,2 triliões dólares). Ou seja, discute-se o que é vistoso, mas o que é estrutural acontece noutra escala. É por isso que a obsessão exclusiva com “quantos empregos vão desaparecer” é, além de legítima, superficial. A pergunta maior, e mais difícil, é esta: o que acontece quando decisões em escala sobre trabalho, crédito, informação, reputação e visibilidade passam a ser mediadas por sistemas que operam com base em objetivos de otimização definidos por quem os controla? A história ensina que poder concentrado tende ao abuso. A tecnologia contemporânea removeu muitos dos limites logísticos que antes travavam esse impulso. O perigo não está numa distopia futura, está na normalização silenciosa de um presente em que o “possível” se torna “padrão” antes de ser discutido. Em 2026, a tarefa pública é tão concreta quanto exigente. Precisamos de governança demonstrável, não proclamada. Precisamos de transparência efetiva sobre como se molda a atenção e como se orienta a escolha. Precisamos de políticas de transição laboral que não cheguem quando o dano já estiver feito, porque, como mostram as previsões para a banca europeia, os cortes não são uma hipótese filosófica, são uma estratégia económica com incentivos claros. E, acima de tudo, precisamos de decidir, em democracia, se aceitamos que a camada digital onde vivemos seja também a camada que nos governa por defeito. Se 2026 tiver um teste decisivo, não será o da próxima aplicação impressionante ou espetacular. Será o da maturidade coletiva para discutir poder, responsabilidade e limites enquanto ainda há tempo. Porque, desta vez, o debate que tarda não é apenas atraso. É renúncia. Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira